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SUMÁRIO
Introdução Geral
Primeira parte
Revalorização e auge atual das espiritualidades
Primeira constatação é um fenômeno importante na evolução
da experiência humana
Segunda constatação: há sede de espiritualidade
Terceira constatação: é enorme a variedade e a ambigüidade
atual das espiritualidades
Resumindo: o fenômeno sócio-religioso do auge atual das
espiritualidades nos oferece duas grandes luzes
Segunda parte
Luzes sobre a espiritualidade na história recente
Das duas Guerras Mundiais ao Concílio Vaticano II
Terceira parte
O que é e o que não é espiritualidade?
Primeiro, o que é espiritualidade?
E o que é a espiritualidade?
Três princípios essenciais comuns a todas as espiritualidades
Introdução Geral
Os cinco temas deste artigo formam um breve curso sistemático de teologia espiritual.
Durante o curso colocaremos no auge e na variedade atual das espiritualidades, a
experiência espiritual de Jesus de Nazaré, como fonte de toda espiritualidade cristã
nesta época chamada com razão inter-espiritual. Os cinco temas estão relacionados entre
si, como partes de um tema geral que vai concretizando-se ao longo das cinco exposições.
O objetivo geral é acender luzes para iluminar idéias e melhorar costumes e práticas,
em um assunto tão atual e vivo como este das espiritualidades. Gostaria de ajudar,
sobretudo a identificar bem nossa espiritualidade cristã, que, em qualquer estado de vida
eclesial (leigos ou religiosos e religiosas) consiste em prolongar em nossas vidas a
experiência espiritual de Jesus.
Este primeiro tema é sobre noções básicas. Mas, não darei definições abstratas,
seria isto aborrecedor e nada interessante. Vamos nos aproximar do fenômeno social e
religioso da revalorização e o auge atual das espiritualidades. Isto nos abrirá os
olhos a boas noções desde a vida, que completaremos com alguns fatos da história
recente da espiritualidade. Obteremos assim luzes suficientes para responder à pergunta
básica: o que é e o que não é espiritualidade? Três partes, pois, tem este tema:
- 1ª o fenômeno sócio-religioso da revalorização atual das espiritualidades;
- 2ª algumas luzes da história recente da espiritualidade, e
- 3ª o que é e o que não é espiritualidade? A primeira parte é mais extensa e as
outras duas mais concisas.
Primeira Parte
Revalorização e auge atual das espiritualidades
Sobre este fenômeno sócio-religioso, descrevo três constatações.
Primeira constatação: é um fenômeno importante na evolução da
experiência humana
A revalorização e o auge atual das espiritualidades é uma experiência crescente que
vivemos e observamos em toda a humanidade desde a segunda metade do século passado e nas
últimas décadas. Trata-se de um fenômeno de grande significado e importância na
evolução histórica da consciência e da experiência humana.
A espiritualidade é uma dimensão inerente a toda pessoa humana, dado que a pessoa é um
ser espiritual. Por isso a espiritualidade acompanha a humanidade desde suas origens, mas,
a consciência da necessidade e da vivência desta dimensão e sua procura e ativação ou
cultivo consciente na vida cotidiana evolui e tem altos e baixos no processo da história
humana; às vezes está adormecida esta consciência, e às vezes, por determinados
acontecimentos e vivências religiosas ou simplesmente humanas, desperta, torna-se ativa e
cresce.
Hoje é tão viva esta consciência da necessidade da espiritualidade, é tão forte a
tendência a procurar e viver uma ou outra forma de experiência espiritual ou
espiritualidade (cristã ou de alguma religião, ou simplesmente humana) que até podemos
dizer que está na moda e vai se convertendo em fenômeno de massas. E o fato de que as
espiritualidades estão na moda e se generalizam, tem seu lado positivo, mas tem também
seu lado negativo, porque quando se procura e se pratica por estar na moda, entra a
superficialidade, abundam as falsidades e vão se convertendo as vivências em produtos de
consumo.
Por isso no auge atual das espiritualidades, enquanto se cultivam experiências
espirituais ou espiritualidades de boa qualidade, também são abundantes as experiências
espirituais e espiritualidades light, superficiais e vazias, complacentes,
egocêntricas, interesseiras e até narcisistas, sem verdadeira qualidade religiosa, nem
humana, antes, intimistas e espiritualistas: divorciadas da vida real, são praticadas de
costas aos sofrimentos do próprio povo e da humanidade. E isto acontece também nas
Religiões e nas nossas Igrejas cristãs.
Para ver isto basta dar uma olhada na produção, venda e consumo de livros e opúsculos
de espiritualidade, tanto religiosos como psicológicos ou de relaxamento espiritual,
meditação transcendental, harmonia, paz e auto-estima. E observar também as reuniões
de oração, retiros e ministérios de diferentes grupos e movimentos, para ver que tipo
de espiritualidade se procura, se prega e se aplaude mais.
E como as diferentes espiritualidades não se vivem somente desde a religião ou da fé
cristã, mas também desde a psicologia, desde a cultura e desde todos os fatores da vida
humana coletiva e pessoal (inclusive desde a economia e das ideologias), se olhamos outro
tipo de foros, veremos grupos de homens e mulheres de empresa, de banco, de comércio e de
outros grêmios, procurando e cultivando experiências de espiritualidade: por exemplo, os
chamados Homens de negócios do Evangelho completo, e os grupos, setores e pessoas que
estão assumindo alguma das correntes de espiritualidade da Nova Era (New Age: massagem
espiritual do vigente sistema ideológico e econômico neoliberal) ou alguma das muitas
correntes espirituais que conformam este nossa época, que sempre vai ser
inter-espiritual.
Cada pessoa humana (como ser espiritual) e cada grupo ou povo e toda atividade humana,
podem ter suas diferentes espiritualidades. Até no projeto político do presidente Bush e
de seus assessores, se joga com dois tipos bem diferentes de espiritualidade: a
espiritualidade aparente dos discursos e da imagem com que se apresentam e se encobrem, é
uma espiritualidade de serviço à liberdade e à democracia em todos os povos; mas a
espiritualidade real com que agem é uma espiritualidade de dominação e exploração dos
recursos dos povos e de hegemonia no comércio mundial; uma espiritualidade imperialista.
Segunda constatação: existe sede de espiritualidade
Este atual fenômeno de revalorizar, buscar e cultivar alguma espiritualidade e de cair na
tentação de utilizar e manipular a espiritualidade, responde a necessidades profundas.
À medida que a vida se tem tornado mais complexa, a humanidade sentiu uma crescente sede
de espiritualidade. Há profundas experiências humanas negativas e também positivas,
tanto pessoais como coletivas, provocando estas necessidades e despertando esta sede.
Experiências negativas de grandes ambições, fracassos e decepções, guerras e
tragédias muito cruéis, perversões, abusos e tremendas catástrofes (provocadas ou
naturais) com milhares e até milhões de vítimas. E experiências positivas de
conquistas e descobertas ou avanços nas investigações científicas e tecnológicas que
são de grande impacto, porque provocam enormes e aceleradas mudanças nos costumes e nas
formas de vida e trazem riscos e tremendos abusos destas descobertas e avanços
tecnológicos.
Todas as experiências negativas ou positivas que se tornam traumáticas para os humanos,
porque os atinge na base, provocando crises de mudança profunda, incertezas, desenganos,
ansiedades, que despertam a necessidade e a sede do espiritual para recuperar a paz, o
equilíbrio e a energia de viver com esperança. Tudo isso leva à procura de
espiritualidade. Todas as experiências significativas e impactantes ou traumáticas
vividas na realidade cotidiana (talvez mais ainda as experiências negativas que as
positivas) despertam e ativam as energias adormecidas do espírito de vida que habita nas
pessoas e que, diante dos acontecimentos que nos afetam, nos atingem e nos colocam em
crise, reage espiritualmente com imperativos existenciais que nos dizem: deve-se superar
isto!, deve-se sublimar! sobrepor-se, mudar, seguir adiante...
É impressionante a energia espiritual que regenera as pessoas e os povos diante das
adversidades, quando se reage com o melhor do espírito humano ou se recorre ao Espírito
de Deus. Entre os anos 70 e 80, o filósofo francês Jean Paul Sartre pouco antes de
morrer deixou dito algo que ele observou em uma pessoa cuja regeneração lhe fez mudar
sua filosofia pessimista sobre o ser humano: o mais determinante na vida de cada ser
humano não é o que lhe acontece ou o que se faz a alguém, mas o que alguém faz com
isso que lhe acontece ou se faz a alguém. Palavras que merecem ser recortadas como
uma chave de espiritualidade.
Terceira constatação: é enorme a variedade e ambigüidade atual das
espiritualidades
Certos fenômenos atuais, como as migrações, as comunicações pelos diferentes meios e
a mesma globalização, nos mostram a grande variedade de espiritualidades diferentes que
se vivem na humanidade. E isto deve ser visto e vivido como positivo, já que quem não
vê isto positivamente pode estar sofrendo o choque do racismo espiritual: menosprezar ou
desprezar as outras espiritualidades, com o complexo de crer que a sua é superior ou a
única boa e verdadeira.
Para ver a existência de diferentes espiritualidades como algo normal e positivo (sem
complexos de superioridade nem de inferioridade) basta pensar que, espiritualidade vem de
espírito e que as diferentes espiritualidades são as inevitáveis e necessárias
modalidades distintas de vivenciar o espírito; modos ou maneiras diferentes de ativar a
experiência humana do espírito. Inevitáveis e necessárias, porque toda pessoa humana
é espiritual, não com espírito desencarnado, mas com espírito corpóreo: espírito
transcendente, sim, mas ao mesmo tempo corpóreo, corporal. Que quer dizer isto?
Todas as pessoas vivas ativam, canalizam e expressam ou vivem a energia e os dinamismos do
espírito corporalmente, através do cérebro, entendimento, vontade, sentimentos,
pensamentos, desejos e de todos os membros e sentidos do corpo: olhos, ouvidos, mãos,
pés, etc. e de língua e linguagem, voz e palavras. E tudo isso funciona sempre
inculturado, quer dizer, que o espírito humano, por ser corpóreo, é também
inculturado: já desde criança o exercitamos e o moldamos dentro de cada cultura, de cada
cosmovisão, segundo as próprias tradições espirituais e talvez segundo a religião ou
religiões de cada cultura; ou fora da religião ou religiões (porque em todas as
culturas pode ter pessoas agnósticas ou atéias, que, como pessoas que são, tem
espírito e espiritualidade humana), mas, todos ativam sempre o espírito desde dentro de
uma ou outra cultura, raça, etnia e língua, ou de uma concreta mestiçagem de culturas e
raças, etnias e línguas. Quantas línguas estão vivas agora em todo o mundo? Segundo um
informe especializado divulgado em fevereiro de 2004, 6.700 línguas. E diz este informe
que cada mês morrem duas línguas e que um idioma nunca morre sozinho, pois com cada
língua desaparece uma cultura Quantas línguas se falam na Guatemala? Creio que pelo
menos 20. Dizer línguas diferentes quer dizer culturas e espiritualidades diferentes.
E a variedade de espiritualidades não se mede unicamente pela variedade de culturas.
Outros muitos fatores (psicológicos, temperamentais, educacionais, econômicos e
ideológicos) podem diversificar também as espiritualidades. Dentro de uma mesma cultura
ou religião e de uma mesma Igreja, há gostos, tendências, mentalidades, aptidões e
afeições ou devoções diferentes, que geram ou fazem escolher distintas
espiritualidades. Se observamos bem qualquer paróquia concreta, nesta mesma paróquia
veremos grupos, movimentos e associações que cultivam espiritualidades diferentes; em
alguns casos, demasiado diferentes. E o caso inverso também acontece muito: pessoas de
culturas e línguas diferentes vivem a mesma espiritualidade, embora, como é lógico, com
distintas expressões lingüísticas e culturais.
Podemos afirmar que não há limites para a variedade das espiritualidades, dado que
entram em jogo tantos fatores condicionantes das espiritualidades e que podem acontecer
também e de fato acontecem, espiritualidades falsas, equivocadas ou desviadas, quer seja
por ignorância, por erro, por transtornos psicológicos e enfermidades mentais ou
afetivas, ou por razões interesseiras e egoístas. E devemos contar também com os casos
de pessoas que por ódio, inveja, orgulho ou vingança e outras maldades e tendências
negativas da condição humana, embarcam em experiências espirituais negativas e
perversas. Além de toda a variedade de espiritualidades positivas, libertadoras e
construtivas da vida que vêm crescendo na humanidade, o leque se amplia com variadas
experiências espirituais ou espiritualidades vazias ou falsas e estéreis e com outras
que inclusive são negativas e até perversas ou destrutivas da vida.
A muitos pode ser estranho que chamemos espiritualidades as experiências que são más,
perversas e destrutivas, se nunca ouviram nem pensaram nisso. De fato estamos acostumados
a entender as palavras espiritual e espiritualidade somente em sentido positivo, como se
somente pudessem significar algo bom, nunca algo que não seja bom e menos ainda algo que
seja mau. Mas, é bom que saibamos que pode ter e há espiritualidades falsas,
equivocadas, vazias, desencarnadas ou espiritualistas, inclusive egoístas, narcisistas e
nenhuma delas é boa.
Em segundo lugar, não nos esqueçamos que os Mestres Espirituais, em todas as Religiões
e no acompanhamento espiritual cristão, sempre disseram e continuam dizendo que há
espírito bom e há espírito mau. E que, por isso, na vida espiritual se deve fazer o
discernimento de espíritos, para descobrir se as moções, os desejos, os sentimentos que
nos movem, os projetos de vida e as ações que praticamos, para ver se procedem do bom
espírito ou do mau espírito. E nós queremos dizer o mesmo quando, em nossa linguagem
humana, dizemos que nas palavras e nas ações ou na conduta das pessoas pode ter boa
intenção ou má intenção, bons sentimentos ou maus sentimentos, bons desejos ou maus
desejos...
Analisemos um exemplo simples: por que certas palavras feias que nos dizem, chegam às
vezes a ofender-nos e a ferir-nos profundamente? É pelo som material destas palavras?
Não, porque estas mesmas palavras feias podem ser ditas com amor, com carinho e então a
ninguém ofendem nem ferem. Vejo claro em Nicarágua, onde o povo é artista até no uso
destas palavras feias e vi uma mãe que dizia com carinho a seu filho vem cá filho da
puta e o filho não se ofendia, nem lhe doía... Doem-nos e ferem-nos certas palavras
quando sentimos nelas a força do espírito malvado com que nos odeia e despreza quem
no-las diz. As pessoas se comunicam espiritualmente por meio da palavra e dos gestos e do
tato: o aperto de mãos, o abraço e a carícia, ou os golpes e as patadas. E o que
sentimos não é a força física, mas a força espiritual, porque o espírito humano age
corporalmente, é corpóreo.
Sabemos que as pessoas dispõem de poderes da mente ou do espírito e que há poderes
mentais benéficos e também poderes mentais ou espirituais maléficos. Todos nós temos
experiências do poder do amor e do poder do ódio: o amor constrói (a quem ama e aos
seres amados), o ódio destrói (a quem odeia e as suas vítimas): e os dois são poderes
espirituais: do bom espírito e do mau espírito. Sabemos que muita gente recorre a
práticas ou experiências esotéricas ou espiritistas, ocultistas, de adivinhações, de
boa ou má sorte, e também de desejar maldade, vingança e desgraça ou algum acidente
mortal contra alguma pessoa ou família: há poderes mentais e espirituais maléficos.
E vemos cada dia que muitos não só o desejam, mas o fazem ou o mandam fazer: abunda no
país a profissão de pistoleiro; e há um livro famoso do qual um bom diretor de cinema
fez um filme há alguns anos, com o título A Nossa Senhora dos pistoleiros que tem
devotos e sua espiritualidade para praticar bem sua profissão malvada. Alguns dizem que
abundam agora as práticas de bruxaria e de ritos satânicos. É sintomático o livro
recente de um autor italiano (traduzido a outras línguas) que quer ajudar os jovens de
nossos dias a evitarem os caminhos da perdição de diferentes espiritualidades negativas
e perversas, intitula-se Os jovens e o esoterismo.
E, como se tudo isto fosse pouco, há fatos claros e clamorosos na história das
religiões e das Igrejas. Fatos passados, a Inquisição, que perseguia, torturava e
queimava vivas pessoas que consideravam hereges, inclusive sem que o fossem: algumas
destas pessoas queimadas foram depois canonizadas; e se fazia chamar de Santa
Inquisição, e o faziam de boa vontade, para salvar a alma destas pessoas as queimavam
vivas em praça pública, em meio a orações e pregações: espiritualidade maléfica. E
as Cruzadas, as guerras santas matando infiéis ou hereges... Fatos atuais: os
fundamentalismos e fanatismos de certas religiões, que chegam hoje ao extremo de os
suicidas-terroristas que vivem a espantosa espiritualidade martirial de morrerem
matando... Fazem isto porque lhes introjetaram a crença fanática de que assim são
mártires e vão ao Paraíso.
Minha teoria explicativa de tudo isto é que a energia ou as forças e dinamismos vitais
do espírito, que as pessoas humanas podem e devem ativar, vivenciar e canalizar pelas
tendências positivas da nossa condição humana ao serviço da vida, também as podem
ativar, vivenciar e canalizar pelas tendências negativas da nossa mesma condição
humana, e então se transformam em forças, energias e poderes espirituais postos ao
serviço da destruição da vida em nós mesmos e nos demais, embora não estejamos
conscientes disto e não creiamos que devemos fazê-lo. Sempre é possível esta
alienação e esta loucura se alojar na mente humana.
E tenho a convicção (confirmada pela experiência e pelas ciências humanas e pela
revelação bíblica) de que nas tendências negativas da condição humana, há um
potencial de egocentrismo e egoísmo instintivo que se agiganta no afã de segurança e
ambição de poder e grandeza, e é capaz de apropriar-se da força vital do espírito
humano e do Espírito de Deus; um potencial que pode cegar e ensurdecer qualquer um e
fazê-lo fazer o pior com a consciência cega e surda.
Resumindo: o fenômeno sócio-religioso do auge atual das espiritualidades nos brinda duas
luzes
Para o desenvolvimento positivo dos temas, recolhemos duas grandes luzes que nos brinda o
fenômeno sócio-religioso do auge atual das espiritualidades.
1. Grande luz é ver que a espiritualidade não é uma marca nem
um produto exclusivo de nenhuma religião, nem do Cristianismo, mas é patrimônio
universal de toda a espécie humana. Não há uma pessoa sem espírito humano e o
Espírito do Deus da vida está tão repartido pelo universo e tão universalmente
conectado com o espírito humano, que não há pessoa sem espiritualidade, dentro ou fora
das Religiões e do Cristianismo. Por isso, como atitude vital, o mais realista e o mais
sábio nesta era inter-espiritual da humanidade, é reconhecer a espiritualidade da vida
humana, com suas muitas variantes, e reconhecer também as espiritualidades que são
vividas nas diferentes Religiões, além de nós, os cristãos e cristãs, conhecermos a
experiência espiritual ou espiritualidade de Jesus de Nazaré, Cristo e Senhor de nossas
vidas e de reconhecê-la e assumi-la como fonte de nossa espiritualidade cristã de
batizados e batizadas em Cristo Jesus. E ver que tipo de relações nos faz ver o
Espírito entre os três níveis ou formas de espiritualidade: humana, religiosa e
cristã.
2. E outra grande luz é o fato de ver que no auge atual das
espiritualidades, não é ouro tudo o que reluz. Deve-se discernir ou distinguir com
objetividade e honestidade as autênticas das falsas espiritualidades, entre as
espiritualidades que humanizam a vida e as que a desumanizam ou a pervertem e a destroem.
Esta é uma boa clave de discernimento das espiritualidades, já que, tanto no humano,
como nas Religiões e no Cristianismo, as espiritualidades que não humanizam as pessoas e
suas vidas e as desumanizam são perversas.
Completemos estas luzes, com algumas outras recolhidas da história recente.
Segunda Parte
Luzes sobre a espiritualidade na história recente
Das duas Guerras Mundiais ao Concílio Vaticano II
A primeira Guerra Mundial durou de 1914 a 1918. Deixou mais de 10 milhões de mortos e uns
20 milhões de feridos e causou gravíssimas perturbações na vida econômica e social
dos povos. A segunda Guerra Mundial durou de 1939 a 1945 e foi um duríssimo conflito
global no qual todas as potências mundiais lutaram contra o eixo do fascismo e nazismo
concentrado na Alemanha, Itália e Japão. A barbárie nazista em seu empenho por eliminar
as raças e coletivos humanos que consideravam desprezíveis e inferiores à raça ariana,
matou 6 milhões de judeus nas câmaras de gás e fornos crematórios nos campos de
concentração. Os países implicados nesta guerra foram 30 e as armas mataram nestes 6
anos de guerra 60 milhões de pessoas. A primeira guerra mundial matou, sobretudo soldados
e a segunda, matou soldados e civis, meio a meio.
Depois da traumática experiência de tais horrores, que destroçaram tantas vidas,
grandes cidades e economias de todo o mundo e os sonhos, ideologias e ilusões da
humanidade em proporções incríveis, se despertou no mundo uma insaciável sede de vida
e se valorizou a vida e a existência, muito além das teorias e da razão. E na Igreja
brotaram movimentos bíblicos, litúrgicos, de espiritualidade comunitária e social.
Desde então se começou a colocar a espiritualidade na vida real, em vez de discutir sua
formulação doutrinal em base a teorias de escolas (escola dominicana, escola jesuíta,
escola teresiana ou carmelita e escola franciscana), escolas que durante séculos encheram
de disputas doutrinais a agenda de especialistas em espiritualidade, formulada como
Ascética e Mística.
Os movimentos na Igreja, que primeiro eram minoritários e buscavam caminhos de evangelho
na vida ferida do mundo, cresceram e chegaram a ser os movimentos de renovação bíblica,
patrística, litúrgica, espiritual, apostólica e social, que precederam o Concílio
Vaticano II como a aurora precede o sol e colocaram na aula conciliar as luzes da
renovação espiritual e eclesial.
Sobre a espiritualidade cristã não vou falar agora, será o tema da última
conferência. Limito-me agora a recordar duas colocações decisivas do Vaticano II com
relação à espiritualidade cristã: uma é a volta da vida e da missão da Igreja a
Jesus nos evangelhos, para viver sua experiência espiritual a serviço da vida,
solidários com toda a humanidade no mundo de hoje. Esta colocação se concentra na
Constituição dogmática sobre a Igreja Lúmen Gentium.
A outra colocação do Vaticano II quanto à espiritualidade cristã é a declaração de
que todos os cristãos estão chamados à santidade, seja qual for o estado de vida. Isto
é: a espiritualidade cristã vivida até o grau de santidade é para todos batizados e
batizadas, quer sejam leigos, religiosos, diáconos, presbíteros, bispos ou papas. A
espiritualidade não é privilégio de nenhum grupo ou elite, mas é o caminho de vida
aberta todos os membros do Povo de Deus. Já que todos os batizados e batizadas recebem no
Batismo a unção do Santo: isto é, participam do Espírito de Jesus, pelo qual os fiéis
todos de qualquer condição e estado são chamados por Deus à perfeição da vida santa
com que Deus Pai é perfeito. (LG 11,35,38; e todo o capítulo V intitulado Vocação
universal à santidade na Igreja. LG 39-42).
Mas nesta primeira conferência o que mais queremos ressaltar é a excelente colocação
do Concílio Vaticano II quanto à visão universal das espiritualidades em
toda a humanidade. Está este texto na Constituição pastoral da Igreja, Gaudium et Spes.
Aí o Concílio faz profissão de fé em que o Espírito do Senhor enche o universo (GS
11). Faz profissão de fé em que o Espírito de Deus, que com sua admirável providência
dirige o correr dos séculos e renova a face da terra, está presente e ativo na
evolução da consciência e na atividade dos humanos para o bem comum, a dignificação
das pessoas e a humanização da vida, dom sagrado do Espírito que é Senhor e dador de
vida, como dizemos no Credo (GS 26).
Acredita o Concílio que o Verbo de Deus antes de encarnar-se estava já no mundo como luz
que ilumina todos os humanos (citação de Jo 1,9-10, em GS 57). Por isso respeita o
Concílio a autonomia das culturas e vê e venera as sementes do Verbo e as sabedorias e
tradições espirituais semeadas ou suscitadas pelo Espírito em todas as Religiões e no
coração e nas ações do homem e mulher de boa vontade. Por isto acredita o Concílio
que toda atividade humana que melhore a vida está conforme com o Projeto de Deus, e é
matéria prima de experiência espiritual, de espiritualidade. Afirma assim e propõe o
Concílio a convergência entre o positivo dinamismo humano na história e a dinamis ou
força vital do Espírito do Deus criador e salvador.
Mais ainda: na GS, o Concílio faz profissão de fé na dignidade sagrada da pessoa humana
por ser imagem de Deus (GS 12). E afirma a presença em todo homem e mulher de um certo
germe divino (GS 3) como em seres tocados pelo alento vivificante de Deus: o sopro do
Espírito de vida. Diz o Concílio que em todas as pessoas de boa vontade age esta Graça
de modo invisível (GS 22 y 38).
Assim amplia o Vaticano II a visão da espiritualidade a todos os humanos. E propõe uma
estreita vinculação entre a experiência espiritual dos cristãos e cristãs
(experiência do Espírito do Senhor Ressuscitado) e a experiência espiritual positiva do
espírito humano. (GS 39 y 40). O Espírito do Senhor conduz a todos a uma entranhável
solidariedade com toda a família humana em suas alegrias e esperanças, tristezas e
angústias (ver em GS 1). Por isso se deve concluir esta segunda parte, dizendo que as
colocações maiores do Vaticano II quanto à visão e à vivência das espiritualidades,
insistem em duas vertentes convergentes: uma, em afirmar a presença do Espírito de Deus
na vida e na atividade positiva de todas as pessoas na história em ordem a melhorar e
humanizar a vida, promovendo sua espiritualidade humana (quer sejam cristãos ou não,
quer pratiquem alguma religião ou nenhuma delas); e insiste o Concílio em outra
vertente, em localizar a espiritualidade cristã dos batizados e batizadas em Cristo nesta
mesma história, em solidariedade e em serviço a toda a família humana seguindo Jesus, o
Senhor, pelo seu Espírito.
Terceira Parte
O que é e o que não é espiritualidade?
Com estas luzes recolhidas do auge atual das espiritualidades e da sua história no
século XX e, sobretudo das colocações do Concílio Vaticano II, podemos reduzir esta
parte conclusiva a responder em forma esquemática a pergunta fundamental: o que é o que
não é espiritualidade?
Primeiro: o que não é espiritualidade?
Quatro negações:
1. A espiritualidade não é algo impalpável, aéreo, invisível e
distante da vida humana. As palavras espírito, espiritual e espiritualidade não
significam algo que não se vê, nem se apalpa, nem se sente. E a pessoa humana não se
compõe, por uma parte, de matéria ou do corpo (que vê, toca, sente e se deixa sentir)
e, por outra parte, de espírito ou alma que está dentro e é invisível. Não há
espírito dentro do nosso corpo, mas somos corpo e espírito em uma só peça: corpo
espiritual ou espírito corpóreo. A pessoa é, em uma só peça, matéria espiritual ou
espírito material e corpóreo, que se ativa, sente, se expressa e age através de toda
sua corporeidade. E quando abraçamos o corpo de uma pessoa ou lhe damos um aperto de mão
ou um beijo, abraçamos ou apertamos e beijamos seu espírito.
2. A espiritualidade não é a vida unicamente interior e secreta
da pessoa, já que a pessoa é uma interioridade que se exterioriza vivendo em relação
externa com os outros e com suas circunstâncias, seus contextos da realidade histórica e
em relação com a natureza viva envolvente e condicionante.
3. Não é espiritualidade a teoria sobre a espiritualidade,
embora esteja bem formulada de viva voz ou por escrito. Eu posso ser Doutor em teologia
espiritual e saber muito bem a teoria da espiritualidade e passar a vida toda
explicando-a, sem ter pessoalmente boa espiritualidade, sem vivê-la.
4. As práticas religiosas, no Cristianismo ou em outras
Religiões, podem e devem fomentar ou impulsionar a espiritualidade; e a espiritualidade
deve fortalecer-se, purificar-se e crescer através das práticas religiosas da fé
cristã ou de outras Religiões; mas, as práticas religiosas não são em si mesmas a
espiritualidade em nenhuma Religião, nem no Cristianismo. Inclusive pode ter muitas
práticas religiosas sem nada de espiritualidade; e até pode ter práticas religiosas que
impeçam ou bloqueiem a autêntica espiritualidade e fomentem espiritualidades falsas (por
serem práticas religiosas ou cristãs desviadas e de má qualidade ou porque se fazem e
se vivem mal).
E o que é a espiritualidade?
A noção que melhor ajuda a entender adequadamente o que é espiritualidade é a
categoria antropológica chamada experiência. A espiritualidade é experiência
espiritual pessoalmente vivida. Se decodificarmos e explorarmos um pouco cada uma destas
duas palavras (experiência e espiritual) teremos uma boa compreensão da espiritualidade.
Sobre a palavra experiência. Os filósofos e antropólogos acham difícil entender e
explicar a categoria experiência. Mas há um ponto comum que é claro e iluminador para
nosso objetivo e é que a experiência produz um saber ou um conhecimento do que se tem
experiência, diferente dos outros modos de conhecimento; porque não é um conhecimento
teórico e intelectual ou científico, mas um conhecimento vivo e prático, conhecimento
vital que alcança a essência da realidade que se tem experimentado, e se fica com uma
experiência sábia, com sabedoria.
O conhecimento teórico, intelectual ou científico (conhecimento indireto, por
informação ou estudo e laboratório) não pode oferecer o que dá o conhecimento ao vivo
e em direta por experiência própria: porque com este se pratica e se sente algo, se vive
e se goza ou se sofre, se experimenta. Olhem só, uma coisa é saber do que se compõe o
vinho e outra coisa é ter experiência pessoal do vinho: por conhecer cientificamente os
componentes do vinho, ninguém se embriaga.
Pode-se ter experiência das diferentes realidades, situações, fatos e ofícios ou
atividades da vida. Não existe só experiência espiritual, existe também experiência
profissional, experiência desportiva, experiência artística, experiência amorosa, etc.
etc., mas só a experiência espiritual pode ser ativada e vivida na prática de cada uma
das outras experiências e mais além delas.
Deve-se cair na conta que a experiência pode ter distintos níveis de qualidade. Pode ser
mais ou menos positiva, profunda e duradoura, ou pode ser mais ou menos negativa,
superficial e passageira. Dependendo da intenção com que se procura e de como se vive.
Muitas experiências são superficiais, momentâneas e passageiras. Não deixam nada e
são perda de tempo, ou deixam remorso ou vazio existencial. Por isso não merecem
chamar-se experiência.
A verdadeira experiência humana inclui a consciência da experiência. Não ter
consciência ou não tomar consciência da experiência, equivale a não ser dono desta
experiência, que talvez tenha passado ao subconsciente ou simplesmente tenha passado. Por
isso há autores que distinguem entre experiência e vivência. A experiência seria
vivência pessoal com consciência: a consciência a motiva ou ao menos a retém, a
processa, a discerne e a personaliza integrando-a no próprio processo pessoal de vida.
Por outro lado, a vivência seria instintiva e passageira: não é retida, nem discernida,
não é integrada conscientemente. As experiências se integram como sabedoria e
transformam positivamente a pessoa, que, neste sentido, é dona delas; as vivências se
amontoam como acontecimentos, às vezes se amontoam no subconsciente, e a pessoa fica
escrava dela.
Deve-se ter presente que a experiência espiritual não é experiência de qualquer coisa,
nem é qualquer tipo de experiência. É experiência espiritual, e a palavra espiritual
vem de espírito. Experiência espiritual ou espiritualidade é viver pessoalmente a
experiência do espírito humano ou do Espírito de Deus, ou de ambos, porque o Espírito
de Deus somente pode ser vivenciado ou experimentado através do próprio espírito humano
corpóreo. E creio que todo espírito humano tem esta possibilidade e até certo ponto,
participa do Espírito de Deus: nós o constatamos em afirmações do Concílio Vaticano
II. E também, embora uma pessoa não creia em Deus, se a pessoa é honestamente fiel aos
dinamismos, energias e impulsos positivos de seu espírito humano e ativa sua energia
espiritual através das tendências positivas da sua condição humana, conecta
positivamente com o Espírito de Deus embora não o saiba (isto já disse Jesus, segundo o
evangelho de Mateus, 25).
Por isso a espiritualidade ou experiência do espírito pode ser simplesmente humana, ou
pode ser vivida em uma Religião, ou pode ser espiritualidade cristã. E, em qualquer
delas, o espírito (quer seja o espírito humano ou o Espírito de Deus ou ambos) tem
experiência com 2 qualidades singulares: 1) o espírito humano e o Espírito de Deus têm
referência essencial à vida (são espírito de vida em todas as tradições humanas,
religiosas e na judeo-cristã) e afetam a pessoa que vive a experiência espiritual tendo
em vista a vida própria e alheia para construí-la, cuidar dela e melhorá-la. 2) tanto o
espírito humano como o Espírito de Deus vivificam e afetam a pessoa na totalidade do seu
ser e em qualquer momento, espaço e situação. A experiência profissional, a esportiva,
a artística, e etc., etc., têm seus tempos e espaços, seus dias, horas e lugares, mas a
experiência espiritual ou espiritualidade não é completa se só vive em alguns tempos e
lugares. A espiritualidade, ou é espiritualidade ful time (sempre, como a
respiração) ou não é completa, inteira e verdadeira.
Três princípios essenciais, comuns a todas as espiritualidades
Podemos concluir apontando três características ou princípios que são essenciais a
toda espiritualidade autenticamente positiva, quer seja humana, religiosa ou cristã.
Três princípios comuns que devem ter seu próprio desenvolvimento específico conforme
sua aplicação à espiritualidade humana, ou à espiritualidade em cada Religião, ou à
espiritualidade cristã.
Primeiro princípio: a essencial vinculação do espírito com a vida (ao ser espírito
germe e força de vida) impõe e exige a toda experiência espiritual (a toda
espiritualidade) sua essencial referência positiva à vida nos povos, nas pessoas e em
todo ser vivente, diante do oposto à vida. Humanizar e melhorar integralmente a vida é o
horizonte comum a todas as espiritualidades. Sempre há algo de experiência espiritual no
fato de viver dia a dia a vida em plano positivo e solidariamente, tanto se se vive
simples e coerentemente como boa pessoa, ou se se vive também religiosamente ou
cristãmente.
Segundo princípio: A experiência espiritual ou espiritualidade autêntica tende integrar
e unificar o crescimento interior e exterior ou relacional da pessoa, em um contínuo
processo de transformação benéfica para ela e para os demais. A autêntica
espiritualidade é um bem integrador para cada pessoa, para todos e para o universo
inteiro.
Terceiro princípio: A espiritualidade verdadeira quer e tende impregnar e afetar
positivamente todo o ser, o sentir, o desejar e o agir de cada pessoa tal como ela é, com
suas realidades, dinamismo e tendências positivas e também com suas realidades e
tendências negativas próprias da condição de criatura humana que é fonte de
limitações, debilidades, suscetibilidades, egoísmo e caducidade (condição que nos
iguala a todos nós humanos). A espiritualidade tem algo a ver com nossa imperfeição de
criatura e com seus dinamismos e tendências de maldade e morte e o primeiro objetivo da
espiritualidade para com nossa imperfeição é ajudar-nos a reconhecê-la, assumi-la e
integrá-la positivamente em nosso processo de vida, a fim de que não nos destrua, nem
danifique os demais; integrar nossa imperfeição em nossa pessoa positivamente ao
serviço da vida própria e dos demais. |
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FONTE:
Portal Claret |
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