|
Documento Final – Versão Vaticana
ÍNDICE GERAL
INTRODUÇÃO
PRIMEIRA PARTE: A VIDA DE NOSSOS POVOS HOJE
CAPÍTULO 1: OS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS
1.1 Ação de graças a Deus
1.2 A alegria de ser discípulos e missionários de Jesus Cristo
1.3 A missão da Igreja é evangelizar
CAPÍTULO 2: OLHAR DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS SOBRE A REALIDADE
2.1 A realidade que nos desafia como discípulos e missionários
2.1.1 Situação sócio-cultural
2.1.2 Situação econômica
2.1.3 Situação sócio-política
2.1.4 Biodiversidade, ecologia, Amazônia e Antártida
2.1.5 Presença dos povos indígenas e afro-americanos na Igreja
2.2 Situação de nossa Igreja nesta hora histórica de desafios
SEGUNDA PARTE: A VIDA DE JESUS CRISTO NOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS
CAPÍTULO 3: A ALEGRIA DE SER DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS PARA ANUNCIAR O
EVANGELHO DE JESUS CRISTO
3.1 A boa nova da dignidade humana
3.2 A boa nova da vida
3.3 A boa nova da família
3.4 A boa nova da atividade humana:
3.4.1 O trabalho
3.4.2 A ciência e a tecnologia
3.5 A boa nova do destino universal dos bens e da ecologia
3.6 O continente da esperança e do amor
CAPÍTULO 4: A VOCAÇÃO DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS À SANTIDADE
4.1 Chamados para o seguimento de Jesus Cristo
4.2 Parecidos com o Mestre
4.3 Enviados para anunciar o Evangelho do Reino de vida
4.4 Animados pelo Espírito Santo
CAPÍTULO 5: A COMUNHÃO DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS NA IGREJA
5.1 Chamados a viver em comunhão
5.2 Lugares eclesiais para a comunhão
5.2.1 A dicocese, lugar privilegiado da comunhão
5.2.2 A paróquia, comunidade de comunidade
5.2.3 Comunidades Eclesiais de Base e pequenas comunidades
5.2.4 As Conferências Episcopais e a comunhão entre as Igrejas
5.3 Discípulos missionários com vocações específicas
5.3.1 Os bispos, discípulos missionários de Jesus, Sumo Sacerdote
5.3.2 Os presbíteros, discípulos missionários de Jesus, Bom Pastor
5.3.2.1 Identidade e missão dos presbíteros
5.3.2.2 Os párocos, animadores de uma comunidade de discípulos
missionários
5.3.3 Os diáconos permanente, discípulos missionários de Jesus Servidor
5.3.4 Os fiéis leigos e leigas, discípulos missionários de Jesus, Luz do
mundo
5.3.5 Os consagrados e consagradas, discípulos missionários de Jesus,
Testemunha do Pai
5.4 Aqueles que tem deixado a Igreja para se unir a outros grupos
religiosos
5.5 Diálogo ecumênico e interreligioso
5.5.1 Diálogo ecumênico para que o mundo creia
5.5.2 Relação com o judaísmo e diálogo interreligioso
CAPÍTULO 6: O CAMINHO DE FORMAÇÃO DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS
6.1 Uma espiritualidade trinitária do encontro com Jesus Cristo
6.1.1 O encontro com Jesus Cristo
6.1.2 Lugares de encontro com Jesus Cristo
6.1.3 Uma espiritualidade da ação missionária
6.1.4 A piedade popular como espaço de encontro com Cristo
6.1.5 Maria, discípula e missionária
6.1.6 Os apóstolos e os santos
6.2 O processo de formação dos discípulos missionários
6.2.1 Aspectos do processo
6.2.2 Critérios gerais
6.2.2.1 Uma formação integral, kerygmática e permanente
6.2.2.2 Uma formação atenta a dimensões diversas
6.2.2.3 Uma formação respeitosa dos processos
6.2.2.4 Uma formação que contempla o acompanhamento dos discípulos
6.3 Iniciação à vida cristã e á catequese permanente
6.3.1 Iniciação à vida cristã
6.3.2 Propostas para a iniciação cristã
6.3.3 catequese permanente
6.4 Lugares de formação para os discípulos missionários
6.4.1 A Família, primeira escola da fé
6.4.2 As Paróquias
6.4.3 Pequenas comunidades eclesiais
6.4.4 Os movimentos eclesiais e as novas comunidades
6.4.5 Os Seminários e as casas de formação religiosa
6.4.6 A Educação Católica
6.4.6.1 Os centros educativos católicos
6.4.6.2 As universidades e centros superiores de educação católica
TERCEIRA PARTE
A VIDA DE JESUS CRISTO PARA NOSSOS POVOS
CAPÍTULO 7: A MISSÃO DOS DISCÍPULOS A SERVIÇO DA VIDA PLENA
7.1 Viver e comunicar a vida nova em Cristo a nossos povos
7.1.1 Jesus a serviço da vida
7.1.2 Várias dimensões da vida em Cristo
7.1.3 A serviço de uma vida plena para todos
7.1.4 Uma missão para comunicar vida
7.2 Conversão pastoral e renovação missionária das comunidades
7.3 Nosso compromisso com a missão ad gentes
CAPÍTULO 8: REINO DE DEUS E PROMOÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA
8.1 Reino de Deus, justiça social e caridade cristã
8.2 A dignidade humana
8.3 A opção preferencial pelos pobres e excluídos
8.4 Uma renovada pastoral social para a promoção humana integral
8.5 Globalização da solidariedade e justiça internacional
8.6 Alguns rostos sofredores que causam dor em nós
8.6.1 Pessoas que vivem na rua das grandes cidades
8.6.2 Enfermos
8.6.3 dependentes de drogas
8.6.4 Migrantes
8.6.5 Presos
CAPÍTULO 9: FAMÍLIAS, PESSOAS E VIDA
9.1 O matrimônio e a família
9.2 As crianças
9.3 Os jovens
9.4 O bem estar dos idosos
9.5 A dignidade e participação das mulheres
9.6 A responsabilidade do homem e pai de família
9.7 A cultura da vida e sua defesa
9.8 O cuidado com o meio ambiente
CAPÍTULO 10: NOSSOS POVOS E A CULTURA
10.1 A cultura e sua evangelização
10.2 A educação como bem público
10.3 Pastoral da Comunicação Social
10.4 Novos lugares e centros de decisão
10.5 Discípulos e missionários na vida pública
10.6 A Pastoral Urbana
10.7 A serviço da unidade e da fraternidade de nossos povos
10.8 A integração dos indígenas e afro-descendentes
10.9 Caminhos de reconciliação e de solidariedade
CONCLUSÃO
SIGLAS
AA Apostolicam Actuositatem
AG Ad Gentes
CCE Catecismo de la Iglesia Católica
CDSI Compêndio da Doutrina Social da Igreja
CIC Código de Direito Canônico
ChD Decreto Christus Dominus
ChL Christifidelis Laici
DCE Deus Caritas est
DI Discurso Inaugural de S.S. Bento XVI na V Conferência Geral do
Episcopado Latino-americano
DP Documento de Puebla
DV Dei Verbum
EAm Exortação Apostólica Ecclesia in América
ECE Ex Corde Ecclesiae
EMCC Instrução Erga Migrantes Caritas Christi
EM Evangelii Nuntiandi
EV Evangelium Vitae
FC Familiaris Consortio
FR Fides et Ratio
GE Gravissimum Educationis
GS Gaudium et Spes
HV Humanae vitae
IM Decreto Inter Mirifica
LE Laborem Exercens
LG Lúmen Gentium
NAe Declaração Nostra Aetate
NMI Novo millenio ineunte
OT Optatam Totius
PC Perfectae Caritatis
PDV Pastores Dabo Vobis
PG Pastores gregis
PP Populorum Progressio
PO Presbyterorum Ordinis
RM Redemptoris Missio
RVM Rosarium Virginis Mariae
SC Sacrosanctum Concilium
SCa Sacramentum caritatis
SD Documento de Santo Domingo
SRS Sollicitudo Rei Socialis
TMA Tertio millenio adveniente
UR Unitatis Redintegratio
UUS Ut unum sint
VC Vita consecrata
Introdução
1. Com a luz do Senhor ressuscitado e com a força do Espírito Santo, nós
os bispos da América nos reunimos em Aparecida, Brasil, para celebrar a
V Conferência do Episcopado Latino Americano e do Caribe. Fizemos isso
como pastores que querem seguir estimulando a ação evangelizadora da
Igreja, chamada a fazer de todos os seus membros discípulos e
missionários de Cristo, Caminho, Verdade e Vida para que nossos povos
tenham vida n’Ele. Fazemos isso em comunhão com todas as Igrejas locais
presentes na América. Maria, Mãe de Jesus Cristo e de seus discípulos,
tem estado muito perto de nós, tem-nos acolhido, tem cuidado de nós e de
nossos trabalhos, amparando-nos, como a João Diego e a nossos povos, na
dobra de seu manto, sob sua maternal proteção. Temos pedido a ela, como
mãe, perfeita discípula e pedagoga da evangelização, que nos ensine a
ser filhos em seu Filho e a fazer “o que Ele nos disser” (Jo. 2, 5).
2. Com alegria estivemos reunidos com o Sucessor de Pedro, Cabeça do
Colégio Episcopal. Sua Santidade Bento XVI, confirmou-nos no primado da
fé em Deus, de sua verdade e amor, para o bem das pessoas e dos povos.
Agradecemos a todos os seus ensinamentos, que foram iluminação e guia
seguro para nossos trabalhos, especialmente, seu Discurso inaugural. A
lembrança agradecida dos últimos Papas, e em especial por seu rico
Magistério que têm estado também presente em nossos trabalhos, merece
especial memória e gratidão.
3. Sentimo-nos acompanhados pela oração de nosso povo católico,
representado visivelmente pela companhia do Pastor e dos fiéis da Igreja
de Deus em Aparecida e pela multidão de peregrinos de todo Brasil e de
outros países da América ao Santuário, que nos edificaram e
evangelizaram. Na comunhão dos santos, tivemos presente todos aqueles
que nos antecederam como discípulos e missionários na vinha do Senhor e
especialmente a nossos santos latino-americanos. Entre eles, Santo
Toríbio de Mogrovejo, patrono do Episcopado latino-americano.
4. O Evangelho chegou a nossas terras em meio a um dramático e desigual
encontro de povos e culturas. As “sementes do Verbo”1 presentes nas
culturas autóctones facilitou a nossos irmãos indígenas encontrarem no
Evangelho respostas vitais às suas aspirações mais profundas: “Cristo
era o Salvador que esperavam silenciosamente” 2. A visitação de Nossa
Senhora de Guadalupe foi acontecimento decisivo para o anúncio e
reconhecimento de seu Filho, pedagogia e sinal de inculturação da fé,
manifestação e renovado ímpeto missionário de propagação do Evangelho 3.
5. Desde a primeira evangelização até os tempos recentes a Igreja tem
experimentado luzes e sombras 4. Ela escreveu páginas de nossa história
com grande sabedoria e santidade. Sofreu também tempos difíceis, tanto
por perseguições como pelas debilidades, compromissos mundanos e
incoerências, pelo pecado de seus filhos, que confundiram a novidade do
Evangelho, a luminosidade da verdade e a prática da justiça e da
caridade. No entanto, o mais decisivo na Igreja é sempre a ação santa de
seu Senhor.
6. Por isso, diante de tudo damos graças a Deus e o louvamos por tudo o
que nos tem sido dado. Acolhemos a toda a realidade do Continente como
um dom: a beleza e riqueza de suas terras, a riqueza de humanidade que
se expressa nas pessoas, famílias, povos e culturas do continente.
Sobretudo nos tem sido dado Jesus Cristo, a plenitude da revelação de
Deus, um tesouro incalculável, a “pérola preciosa” (cf. Mt. 13, 45-46).
Verbo de Deus feito carne, Caminho, Verdade e Vida dos homens aos quais
abre um destino de plena justiça e felicidade. Ele é o único Libertador
e Salvador que, com sua morte e ressurreição, rompeu as cadeias
opressivas do pecado e da morte, revelando o amor misericordioso do Pai
e a vocação, dignidade e destino da pessoa humana.
7. As maiores riquezas de nossos povos são a fé no Deus de amor e a
tradição católica na vida e na cultura. Manifesta-se na fé madura de
muitos batizados e na piedade popular que expressa “o amor a Cristo
sofredor, o Deus da compaixão, do perdão e da reconciliação (...), o
amor ao Senhor presente na Eucaristia (...), - o Deus próximo dos pobres
e dos que sofrem, - a profunda devoção à Santíssima Virgem de Guadalupe,
de Aparecida ou dos diversos nomes nacionais e locais”. Expressase
também na caridade que em todas as partes anima gestos, obras e caminhos
de solidariedade para com os mais necessitados e desamparados. Está
presente também na consciência da dignidade da pessoa, na sabedoria
diante da vida, na paixão pela justiça, na esperança contra toda
esperança e na alegria de viver que move o coração de nosso povo, ainda
que em condições muito difíceis. As raízes católicas permanecem na arte,
linguagem, tradições e estilo de vida do povo, ao mesmo tempo dramático
e festivo e no enfrentamento da realidade. Por isso, o Santo padre nos
responsabilizou ainda mais, como Igreja, da “grande tarefa de proteger e
alimentar a fé do povo de Deus” 5.
8. O dom da tradição católica é um cimento fundamental de identidade,
originalidade e unidade da América Latina e do Caribe: uma realidade
histórico-cultural, marcada pelo Evangelho de Cristo, realidade na qual
abunda o pecado – de opressão, violência, ingratidões e misérias –
porém, onde superabunda a graça da vitória pascal. Nossa Igreja goza,
não obstante debilidades e misérias humanas, de um alto índice de
confiança e de credibilidade por parte do povo. A Igreja é morada de
povos irmãos e casa dos pobres.
9. A V Conferência do Episcopado Latino-americano e do caribe é um novo
passo no caminho da Igreja, especialmente desde o Concílio Ecumênico
Vaticano II. Ela dá continuidade e, ao mesmo tempo, recapitula o caminho
de fidelidade, renovação e evangelização da Igreja latino-americanas a
serviço de seus povos, que se expressou oportunamente nas Conferências
Gerais anteriores do Episcopado (Rio, 1955; Medellín, 1968; Puebla,
1979; Santo Domingo, 1992). Em todas elas reconhecemos a ação do
Espírito. Também nos lembramos da Assembléia Especial do Sínodo dos
Bispos para América (1997).
10. Esta V Conferência se propõe “à grande tarefa de conservar e
alimentar a fé do povo de Deus e recordar também aos fiéis deste
continente que, em virtude de seu batismo, são chamados a serem
discípulos e missionários de Jesus Cristo” 6. Com desafios e exigências,
abre-se passagem para um novo período da história, caracterizado pela
desordem generalizada que se propaga por novas turbulências sociais e
políticas, pela difusão de uma cultura distante e hostil à tradição
cristã e pela emergência de variadas ofertas religiosas que tratam de
responder, a sua maneira, à sede de Deus
que nossos povos manifestam.
11. A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com
fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias
latino-americanas e mundiais. Ela não pode fechar-se àqueles que trazem
confusão, perigos e ameaças ou àqueles que pretendem cobrir a variedade
e complexidade das situações com uma capa de ideologias gastas ou de
agressões irresponsáveis. Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a
novidade do Evangelho arraigada em nossa história, a partir de um
encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que desperte discípulos
e missionários. Isso não depende de grandes programas e estruturas, mas
de homens e mulheres novos que encarnem essa tradição e novidade, como
discípulos de Jesus Cristo e missionários de seu reino, protagonistas de
uma vida nova para uma América Latina que deseja se reconhecer com a luz
e a força do Espírito.
12. Uma fé católica reduzida a conhecimento, a um elenco de normas e de
proibições, a práticas de devoção fragmentadas, a adesões seletivas e
parciais das verdades da fé, a uma participação ocasional em alguns
sacramentos, à repetição de princípios doutrinais, a moralismos brandos
ou crispados que não convertem a vida dos batizados, não resiste aos
embates do tempo. Nossa maior ameaça “é o medíocre pragmatismo da vida
cotidiana da Igreja na qual, aparentemente, tudo procede com
normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em
mesquinhez”7. A todos nos toca “recomeçar a partir de Cristo”8,
reconhecendo que “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou
uma grande idéia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma
Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação
decisiva” 9.
13. Na América Latina e no Caribe, quando muitos de nossos povos se
preparam para celebrar o bicentenário de sua independência,
encontramo-nos diante do desafio de revitalizar nosso modo de ser
católico e nossas opções pessoais pelo Senhor, para que a fé cristã se
estabeleça mais profundamente no coração das pessoas e dos povos
latino-americanos como acontecimento fundante e encontro vivificante com
Cristo, manifestado como novidade de vida e de missão de todas as
dimensões da existência pessoal e social. Isto requer, a partir de nossa
identidade católica, uma evangelização muito mais missionária, em
diálogo com todos os cristãos e a serviço de todos os homens. Do
contrário, “o rico tesouro do Continente Americano... seu patrimônio
mais valioso: a fé no Deus de amor...”10 corre os risco de seguir
desgastando-se e diluindo-se em crescentes setores da população. Hoje se
considera escolher entre caminhos que conduzem à vida ou caminhos que
conduzem à morte 11. Caminhos de morte são os que levam a dilapidar os
bens que recebemos de Deus através daqueles que nos precederam na fé.
São caminhos que traçam uma cultura sem Deus e sem seus mandamentos ou
inclusive contra Deus, animada pelos ídolos do poder, da riqueza e do
prazer efêmero, a qual termina sendo uma cultura contra o homem e contra
o bem dos povos latino- americanos.
Os caminhos de vida verdadeira e plena para todos, caminhos de vida
eterna, são aqueles abertos pela fé que conduzem à “plenitude de vida
que Cristo nos trouxe: com esta vida divina, também se desenvolve em
plenitude a existência humana, em sua dimensão pessoal, familiar, social
e cultural”12. Essa é a vida que Deus nos participa por seu amor
gratuito, porque “é o amor que dá a vida”13. Estes caminhos frutificam
os dons de verdade e de amor que nos foram dados em Cristo, na comunhão
dos discípulos e missionários do Senhor, para que América Latina e
Caribe sejam efetivamente um continente no qual a fé, a esperança e o
amor renovem a vida das pessoas e transformem as culturas dos povos.
14. O Senhor nos disse: “não tenham medo” (Mt. 28, 5). Como às mulheres
na manhã da Ressurreição nos é repetido: “Por que buscam entre os mortos
aquele que está vivo?” (Lc. 24, 5). Os sinais da vitória de Cristo
ressuscitado nos estimulam enquanto suplicamos a graça da conversão e
mantemos viva a esperança que não defrauda. O que nos define não são as
circunstâncias dramáticas da vida, nem os desafios da sociedade ou as
tarefas que devemos empreender, mas todo o amor recebido de Deus, graças
a Jesus Cristo pela unção do Espírito Santo. Esta prioridade fundamental
é a que tem presidido todos os nossos trabalhos que oferecemos a Deus, à
nossa Igreja, a nosso povo, a cada um dos latino-americanos, enquanto
elevamos ao Espírito Santo nossa súplica para que redescubramos a beleza
e a alegria de ser cristãos. Aqui está o desafio fundamental que
contrapomos: mostrar a capacidade da Igreja de promover e formar
discípulos que respondam à vocação recebida e comuniquem em todas as
partes, transbordando de gratidão e alegria, o dom do encontro com Jesus
Cristo. Não temos outro tesouro a não ser este. Não temos outra
felicidade nem outra prioridade que não seja sermos instrumentos do
Espírito de Deus na Igreja, para que Jesus Cristo seja encontrado,
seguido, amado, adorado, anunciado e comunicado a todos, não obstante
todas as dificuldades e resistências. Este é o melhor serviço – seu
serviço! – que a Igreja tem que oferecer às pessoas e nações 14.
15. Nesta hora em que renovamos a esperança, queremos fazer nossas as
palavras de SS. Bento XVI no início de seu pontificado e proclamá-las
para toda a América Latina: Não temam! Abram, abram de par em par as
portas a Cristo!... quem deixa Cristo entrar a não perde nada, nada –
absolutamente nada – do que faz a vida livre, bela e grande. Não! Só com
esta amizade abrem-se as portas da vida. Só com esta amizade abrem-se
realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só com esta
amizade experimentamos o que é belo e o que nos liberta... Não tenham
medo de Cristo! Ele não tira nada e nos dá tudo. Quem se dá a Ele,
recebe cem por um. Sim, abram, abram de par em par as portas a Cristo e
encontrarão a verdadeira vida 15.
16. “Esta V Conferência Geral celebra-se em continuidade com as outras
quatro que a precederam no Rio de Janeiro, Medellín, Puebla e Santo
Domingo. Com o mesmo espírito que as animou, os pastores querem dar
agora um novo impulso à evangelização, a fim de que estes povos sigam
crescendo e amadurecendo em sua fé, para serem luz do mundo e
testemunhas de Jesus Cristo com sua própria vida”16. Como pastores da
Igreja estamos conscientes de que “depois da IV Conferência Geral, em
Santo Domingo, muitas coisas mudaram na sociedade. A Igreja, que
participa dos gozos e esperanças, das tristezas e alegrias de seus
filhos, quer caminhar ao seu lado neste período de tantos desafios, para
infundir-lhes sempre esperança e consolo” 17.
17. Nossa alegria, portanto, baseia-se no amor do Pai, na participação
no mistério pascal de Jesus cristo que, pelo Espírito Santo, faz-nos
passar da morte para a vida, da tristeza para a alegria, do absurdo para
o sentido profundo da existência, do desalento para a esperança que não
engana. Esta alegria não é um sentimento artificialmente provocado nem
um estado de ânimo passageiro. O amor do Pai nos foi revelado em Cristo
que nos convida a entrar em seu reino. Ele nos ensinou a orar dizendo
“Abba, Pai” (Rm. 8, 15; cf. Mt. 6, 9).
18. Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma
graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor,
ao nos chamar e nos eleger, nos confiou. Com os olhos iluminados pela
luz de Jesus Cristo ressuscitado podemos e queremos contemplar o mundo,
a história, os nossos povos da América Latina e do Caribe e cada um de
seus habitantes.
PRIMEIRA PARTE - A VIDA DE NOSSOS POVOS HOJE
19. Este documento continua a prática do método “ver, julgar e agir”,
utilizado nas Conferências Gerais anteriores do Episcopado
Latino-americano. Muitas vozes vindas de todo o Continente ofereceram
contribuições e sugestões nesse sentido, afirmando que este método tem
colaborado para que vivamos mais intensamente nossa vocação e missão na
Igreja, tem enriquecido nosso trabalho teológico e pastoral e, em geral,
tem-nos motivado a assumir nossas responsabilidades diante das situações
concretas de nosso continente. Este método nos permite articular, de
modo sistemático, a perspectiva cristã de ver a realidade; a assunção de
critérios que provêm da fé e da razão para seu discernimento e
valorização, com simpatia crítica; e, em conseqüência, a projeção do
agir como discípulos missionários de Jesus Cristo. A adesão crente,
alegre e confiada no Deus Pai, Filho e Espírito Santo e a inserção
eclesial, são pressupostos indispensáveis que garantem a pertinência
deste método.
CAPÍTULO 1 - OS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS
20. Nossa reflexão a respeito do caminho das Igrejas da América Latina e
do Caribe tem lugar em meio à luzes e sombras de nosso tempo. Não nos
afligem nem confundem as grandes mudanças que experimentamos. Temos
recebido dons incalculáveis, que nos ajudam a olhar a realidade como
discípulos missionários de Jesus Cristo.
21. A presença cotidiana e cheia de esperança de incontáveis peregrinos
nos lembra dos primeiros seguidores de Jesus Cristo que foram ao Jordão,
onde João batizava, com a esperança de encontrar o Messias (cf. Mc. 1,
5). Eles se sentiram atraídos pela sabedoria das palavras de Jesus, pela
bondade de seu trato e pelo poder de seus milagres. E pelo assombro
inusitado que a pessoa de Jesus despertava, vieram a ser discípulos de
Jesus. Ao sair das trevas e das sombras de morte (cf. Lc. 1, 79) a vida
deles adquiriu uma plenitude extraordinária: a de haver sido enriquecida
com o dom do Pai. Viveram a história de seu povo e de seu tempo e
passaram pelos caminhos do Império Romano, sem esquecer o encontro mais
importante e decisivo de sua vida que os havia preenchido de luz, de
força e de esperança: o encontro com Jesus, sua rocha, sua paz, sua
vida.
22. Assim também nos ocorre olhar a realidade de nossos povos e de nossa
Igreja, com seus valores, suas limitações, suas angústias e esperanças.
Enquanto sofremos e nos alegramos, permanecemos no amor de Cristo, vendo
nosso mundo e procurando discernir seus caminhos com a alegre esperança
e a indizível gratidão de crer em Jesus Cristo. Ele é o Filho de Deus
verdadeiro, o único Salvador da humanidade. A importância única e
insubstituível de Cristo para nós, para a humanidade, consiste em que
Cristo é o caminho, a Verdade e a Vida. “Se não conhecemos a Deus em
Cristo e com Cristo, toda a realidade se torna um enigma indecifrável;
não há caminho e, ao não haver caminho, não há vida nem verdade”18. No
clima cultural relativista que nos circunda, onde é aceita só uma
religião natural, faz-se sempre mais importante e urgente estabelecer e
fazer amadurecer em todo o corpo eclesial a certeza de que Cristo, o
Deus de rosto humano, é nosso verdadeiro e único salvador.
23. Neste encontro, queremos expressar a alegria de sermos discípulos do
Senhor e de termos sido enviados com o tesouro do Evangelho. Ser cristão
não é uma carga, mas um dom: Deus Pai nos abençoou em Jesus Cristo seu
Filho, Salvador do mundo.
1.1. Ação de graças a Deus
24. Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos
abençoou com toda sorte de bênçãos na pessoa de Cristo (cf. Ef. 1, 3). O
Deus da Aliança, rico em misericórdia, nos amou primeiro; imerecidamente
amou a cada um de nós; por isso o bendizemos, animados pelo Espírito
Santo, Espírito vivificador, alma e vida da Igreja. Ele, que foi
derramado em nossos corações, geme e intercede por nós e, com seus dons
nos fortalece em nosso caminho de discípulos e missionários.
25. Bendizemos a Deus com ânimo agradecido, porque nos chamou para
sermos instrumentos de seu reino de amor e de vida, de justiça e de paz,
pelo qual tantos se sacrificaram. Ele mesmo nos encomendou a obra de
suas mãos para que cuidemos dela e a coloquemos a serviço de todos.
Agradecemos a Deus por nos fazer seus colaboradores para que sejamos
solidários com sua criação com responsabilidade ecológica. Bendizemos a
Deus que nos deu a natureza criada que é seu primeiro livro para
possamos conhecer a Ele e viver nela como em nossa casa.
26. Damos graças a Deus que nos deu o dom da palavra, com a qual podemos
nos comunicar entre nós e com Ele por meio de seu Filho, que para nós se
fez Palavra. Damos graças a Ele que, por seu grande amor fala a nós como
a amigos (cf. Jo. 15, 14-15). Bendizemos a Deus que se nos dá na
celebração da fé, especialmente na Eucaristia, pão de vida eterna. A
ação de graças a Deus pelos numerosos e admiráveis dons que nos outorgou
culmina na celebração central da Igreja, que é a Eucaristia, alimento
substancial dos discípulos e missionários. Também pelo Sacramento do
Perdão de Cristo que nos alcançou na cruz. Louvamos ao Senhor Jesus pelo
presente de sua Mãe Santíssima, Mãe de Deus e Mãe da América Latina e do
Caribe, estrela da evangelização renovada, primeira discípula e grande
missionária de nossos povos.
1.2. A alegria de ser discípulos e missionários de Jesus Cristo
27. Iluminados pelo Cristo, o sofrimento, a injustiça e a cruz nos
desafiam a viver como Igreja samaritana (cf. Lc. 10, 25-37) recordando
que “a evangelização vai unida sempre à promoção humana e à autêntica
libertação cristã” 19. Damos graças a Deus e nos alegramos pela fé,
solidariedade e alegria características de nossos povos, transmitidas ao
longo do tempo pelas avós e avôs, as mães e pais, os catequistas, os
rezadores e tantas pessoas anônimas, cuja caridade mantém viva a
esperança em meio às injustiças e adversidades.
28. A Bíblia mostra reiteradamente que, quando Deus criou o mundo com
sua palavra e com o alento de sua boca, expressou satisfação dizendo:
“que era bom” (Gn. 1, 21), e quando criou o ser humano, homem e mulher,
disse que “era muito bom” (Gn 1,31). O mundo criado por Deus é belo.
Procedemos de um desígnio divino de sabedoria e amor. Mas, através do
pecado esta beleza originária foi desonrada e esta bondade ferida. Deus,
por nosso Senhor Jesus Cristo, em seu mistério pascal, recriou o homem
fazendo-o filho e dando a ele a garantia de novos céus e de uma nova
terra (cf. Ap. 21, 1). Levamos a imagem do primeiro Adão, mas somos
chamados também, desde o princípio, a produzir a imagem de Jesus Cristo,
novo Adão (cf. 1ª Cor. 15, 45). A criação leva a marca do Criador e
deseja ser libertada e “participar na gloriosa liberdade dos filhos de
Deus” (Rm. 8, 21).
1.3. A missão da Igreja é evangelizar
29. A história da humanidade transcorre sob o olhar compassivo de Deus
que nunca a abandona.Também a este nosso mundo, Deus amou tanto que nos
enviou seu Filho. Ele anuncia a boa nova do Reino aos pobres e aos
pecadores. Por isso, como discípulos e missionários de Jesus, queremos e
devemos proclamar o Evangelho, que é o próprio Cristo. Anunciamos a
nossos povos que Deus nos ama, que sua existência não é uma ameaça para
o homem, que Ele está perto com o poder salvador e libertador de seu
Reino, que Ele nos acompanha na tribulação, que alenta incessantemente
nossa esperança em meio a todas as provas. Os cristãos são portadores de
boas novas para a humanidade, não profetas de desventuras.
30. A Igreja deve cumprir sua missão seguindo os passos de Jesus e
adotando suas atitudes (cf. Mt. 9, 35-36). Ele, sendo o Senhor, fez-se
servo e obediente até a morte de cruz (cf. Fl 2,8); sendo rico, escolheu
ser pobre por nós (cf. 2ª Cor. 8, 9), ensinando-nos o caminho de nossa
vocação de discípulos e missionários. No Evangelho aprendemos a sublime
lição de ser pobres seguindo a Jesus pobre (cf. Lc. 6, 20; 9, 58), e a
de anunciar o Evangelho da paz sem bolsa ou alforje, sem colocar nossa
confiança no dinheiro nem no poder deste mundo (cf. Lc. 10, 4 ss). Na
generosidade dos missionários se manifesta a generosidade de Deus, na
gratuidade dos apóstolos aparece a gratuidade do Evangelho.
31. No rosto de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, maltratado por
nossos pecados e glorificado pelo Pai, nesse rosto doente e glorioso 20,
com o olhar da fé podemos ver o rosto humilhado de tantos homens e
mulheres de nossos povos e, ao mesmo tempo, sua vocação à liberdade dos
filhos de Deus, à plena realização de sua dignidade pessoal e à
fraternidade entre todos. A Igreja está a serviço de todos os seres
humanos, filhos e filhas de Deus.
32. Desejamos que a alegria que recebemos no encontro com Jesus Cristo,
a quem reconhecemos como o Filho de Deus encarnado e redentor, chegue a
todos os homens e mulheres feridos pelas adversidades; desejamos que a
alegria da boa nova do Reino de Deus, de Jesus Cristo vencedor do pecado
e da morte, chegue a todos quantos jazem à beira do caminho, pedindo
esmola e compaixão (cf. Lc. 10, 29-37; 18, 25-43). A alegria do
discípulo é antídoto frente a um mundo atemorizado pelo futuro e
agoniado pela violência e pelo ódio. A alegria do discípulo não é um
sentimento de bem estar
egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e
capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus. Conhecer a Jesus é o
melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o
melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa
palavra e obras é nossa alegria.
CAPÍTULO 2 - OLHAR DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS SOBRE A REALIDADE
2.1 A realidade que nos desafia como discípulos e missionários
33. Os povos da América Latina e do Caribe vivem hoje uma realidade
marcada por grandes mudanças que afetam profundamente suas vidas. Como
discípulos de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados a discernir os
“sinais dos tempos”, à luz do Espírito Santo, para nos colocar a serviço
do Reino, anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e
“para que a tenham em abundância” (Jo. 10, 10)
34. A novidade destas mudanças, diferentemente do ocorrido em outras
épocas, é que elas têm um alcance global que, com diferenças e matizes,
afetam o mundo inteiro. Habitualmente elas são caracterizadas como o
fenômeno da globalização. Fator determinante destas mudanças é a ciência
e a tecnologia, com sua capacidade de manipular geneticamente a própria
vida dos seres vivos, e com sua capacidade de criar uma rede de
comunicações de alcance mundial, tanto pública como privada, para
interagir em tempo real, ou seja, com simultaneidade, não obstante as
distâncias geográficas. Como se costuma dizer, a história se acelerou e
as próprias mudanças se tornam vertiginosas, visto que se comunica com
grande velocidade a todos os cantos do planeta.
35. Esta nova escala mundial do fenômeno humano traz conseqüências para
todos os campos de atividade da vida social, impactando a cultura, a
economia, a política, as ciências, a educação, o esporte, as artes e
também, naturalmente, a religião. Não nos compete, como pastores da
Igreja, fazer uma análise técnica deste complexo fenômeno e de suas
causas, ainda que isso seja importante e necessário para uma ação
evangelizadora condizente com a realidade. Interessa-nos mais saber
como ele afeta a vida de nossos povos e o sentido religioso e ético de
nossos irmãos que buscam infatigavelmente o rosto de Deus, e que, no
entanto, devem fazê-lo, agora desafiados por novas linguagens do domínio
técnico, que nem sempre revelam, mas que também ocultam o sentido divino
da vida humana redimida em Cristo. Sem uma clara percepção do mistério
do Deus presente, o desígnio amoroso e paternal de uma vida digna para
todos os seres humanos torna-se opaco também, ao menos em alguns
âmbitos.
36. Neste novo contexto social, a realidade para o ser humano se tornou
cada vez mais sem brilho e complexa. Isto quer dizer que qualquer pessoa
individual necessita sempre mais informação da que dispõe, se deseja
exercer sobre a realidade o senhorio o que, por vocação, está chamada a
realizar. Este fato não é por si mesmo negativo. Ele tem nos ensinado a
olhar a realidade cada vez com mais humildade, sabendo que ela é maior e
mais complexa que as simplificações ideológicas com que costumávamos
vê-la em um passado ainda não muito distante e que, em muitos casos,
introduziram conflitos dentro da sociedade que deixaram muitas feridas
que ainda não conseguiram cicatrizar. Mas também introduziram a
dificuldade de que a consciência humana demora a perceber a unidade de
todos os fragmentos dispersos que resultam da informação que reunimos. É
freqüente que alguns queiram olhar a realidade unilateralmente a partir
da informação econômica, outros a partir da informação política ou
científica, outros a partir do entretenimento ou do espetáculo. No
entanto, nenhum destes critérios parciais consegue nos propor um
significado coerente para tudo o que existe. Quando as pessoas percebem
esta fragmentação e limitação, costumam se sentir frustradas, ansiosas,
angustiadas. A realidade social parece muito grande para uma consciência
que, levando em consideração sua falta de saber e de informação,
facilmente se crê insignificante, sem ingerência alguma nos
acontecimentos, mesmo quando soma sua voz a outras vozes que procuram se
ajudar reciprocamente.
37. Esta é a razão pela qual muitos estudiosos de nossa época sustentam
que a realidade traz inseparavelmente uma crise do sentido. Eles não se
referem aos múltiplos sentidos parciais que cada um pode encontrar nas
ações cotidianas que realiza, mas ao sentido que dá unidade a tudo o que
existe e nos sucede na experiência, e que os cristãos chamam de sentido
religioso. Habitualmente, este sentido se coloca a nossa disposição
através de nossas tradições culturais que representam a hipótese de
realidade com que cada ser humano pode olhar o mundo em que vive. Em
nossa cultura latino-americana conhecemos o papel tão nobre e orientador
que a religiosidade popular desempenha, especialmente a devoção mariana,
que conseguiu nos persuadir de nossa comum condição de filhos de Deus e
de nossa comum dignidade perante seus olhos, não obstante as diferenças
sociais, étnicas ou de qualquer outro tipo.
38. No entanto, devemos admitir que também esta preciosa tradição começa
a se diluir. A maioria dos meios de comunicação de massa nos apresentam
agora novas imagens, atrativas e cheias de fantasia. Ainda que todos
saibam que elas não podem mostrar o sentido unitário de todos os fatores
da realidade, oferecem ao menos o consolo de ser transmitidas em tempo
real, ao vivo e direto, com atualidade. Longe de preencher o vazio
produzido em nossa consciência pela falta de um sentido unitário da
vida, em muitas ocasiões a informação transmitida pelos meios só nos
distrai. A falta de informação só se resolve com mais informação,
retro-alimentando a ansiedade de quem percebe que está em um mundo opaco
o qual não compreende.
39. Este fenômeno talvez explique um dos fatos mais desconcertantes e
originais que vivemos no presente. Nossas tradições culturais já não se
transmitem de uma geração à outra com a mesma fluidez que no passado.
Isso afeta, inclusive, esse núcleo mais profundo de cada cultura,
constituído pela experiência religiosa, que parece agora igualmente
difícil de ser transmitido através da educação e da beleza das
expressões culturais, alcançando até mesmo a própria família que, como
lugar do diálogo e da solidariedade inter-geracional, havia sido um dos
veículos mais importantes da transmissão da fé. Os meios de comunicação
invadiram todos os espaços e todas as conversas, introduzindo-se também
na intimidade do lar. Ao lado da sabedoria das tradições, em competição,
localizam-se agora a informação de último minuto, a distração, o
entretenimento, as imagens dos vencedores que souberam usar a seu favor
as ferramentas tecnológicas e as expectativas de prestígio e estima
social. Isso faz com que as pessoas busquem denodadamente uma
experiência de sentido que preencha as exigências de sua vocação, ali
onde jamais poderão encontrá-la.
40. Entre os pressupostos que enfraquecem e menosprezam a vida familiar
encontramos a ideologia de gênero, segundo a qual cada um pode escolher
sua orientação sexual, sem levar em consideração as diferenças dadas
pela natureza humana. Isto tem provocado modificações legais que ferem
gravemente a dignidade do matrimônio, o respeito ao direito à vida e a
identidade da família.
41. Por esta razão, os cristãos precisam recomeçar a partir de Cristo, a
partir da contemplação de quem nos revelou em seu mistério a plenitude
do cumprimento da vocação humana e de seu sentido. Necessitamos nos
fazer discípulos dóceis, para aprende d’Ele, em seu seguimento, a
dignidade e a plenitude de vida. E necessitamos, ao mesmo tempo, que o
zelo missionário nos consuma para levar ao coração da cultura de nosso
tempo aquele sentido unitário e completo da vida humana que nem a
ciência, nem a política, nem a economia nem os meios de comunicação
poderão proporcionar. Em Cristo Palavra, Sabedoria de Deus (cf. 1ª Cor.
1, 30), a cultura pode voltar a encontrar seu centro e sua profundidade,
a partir de onde é possível olhar a realidade no conjunto de todos seus
fatores, discernindo-os à luz do Evangelho e dando a cada um seu lugar e
sua dimensão adequada.
42. Como nos disse o Papa em seu discurso inaugural: “só quem reconhece
a Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e
realmente humano”21. A sociedade que coordena suas atividades tão
somente com informação, acredita que pode operar de fato como se Deus
não existisse. Mas a eficácia dos procedimentos conseguida mediante
informação, ainda que com as tecnologias mais desenvolvidas, não
consegue satisfazer o desejo de dignidade inscrito no mais profundo da
vocação humana. Por isso, não basta supor que a mera diversidade de
pontos de vista, de opções e, finalmente, de informações, que costuma
receber o nome de pluri ou multiculturalidade, resolverá a ausência de
um significado unitário para tudo o que existe. A pessoa humana é, em
sua própria essência, aquele lugar da natureza para onde converge a
variedade dos significados em uma única vocação de sentido. As pessoas
não se assustam com a diversidade. O que de fato as assusta é não
conseguir reunir o conjunto de todos estes significados da realidade em
uma compreensão unitária que lhes permita exercer sua liberdade com
discernimento e responsabilidade.
A pessoa sempre procura a verdade de seu ser, visto que é esta verdade
que ilumina a realidade de tal modo que possa se desenvolver nela com
liberdade e alegria, com gozo e esperança.
2.1.1 Situação Sócio-cultural
43. Portanto, a realidade social que em sua dinâmica atual descrevemos
com a palavra globalização, antes que qualquer outra dimensão, impacta a
realidade de nossa cultura e do modo como nos inserimos e nos
apropriamos dela. A variedade e a riqueza das culturas
latino-americanas, desde aquelas mais originárias até aquelas que com a
passagem da história e a mestiçagem de seus povos foram se sedimentando
nas nações, nas famílias, nos grupos sociais, nas instituições
educativas e na convivência cívica, constitui um dado bastante evidente
para nós o qual valorizamos como uma singular riqueza. O que hoje em dia
está em jogo não é a diversidade que os meios de comunicação são capazes
de individualizar e registrar. O que ninguém esquece é, pelo contrário,
a possibilidade de que esta diversidade possa convergir em uma síntese
que, envolvendo a variedade do sentido, seja capaz de projetá-la em um
destino histórico comum. Nisto reside o valor incomparável do ânimo
mariano de nossa religiosidade popular que, sob distintos nomes, tem
sido capaz de fundir as histórias latino-americanas diversas em uma
história compartilhada: aquela que conduz a Cristo, Senhor da vida, em
quem se realiza a mais alta dignidade de nossa vocação humana.
44. Vivemos uma mudança de época cujo nível mais profundo é o cultural.
Dissolve-se a concepção integral do ser humano, sua relação com o mundo
e com Deus; “aqui está precisamente o grande erro das tendências
dominantes do último século... Que excluem Deus de seu horizonte,
falsificam o conceito da realidade e só podem terminar em caminhos
equivocados e com receitas destrutivas 22. Surge hoje com grande força
uma sobrevalorização da subjetividade individual. Independentemente de
sua forma, a liberdade e a dignidade da pessoa são reconhecidas. Os
fenômenos sociais, econômicos e tecnológicos estão na base da profunda
vivência do tempo, ao que se concebe fixado no próprio presente,
trazendo concepções de inconsistência e instabilidade. Deixa-se de lado
a preocupação pelo bem comum para dar lugar à realização imediata dos
desejos dos indivíduos, à criação de novos e muitas vezes arbitrários
direitos individuais, aos problemas da sexualidade, da família, das
enfermidades e da morte.
45. A ciência e a tecnologia quando colocadas a serviço do mercado, com
os valores da eficácia, da rentabilidade e do funcional, criam uma
lógica que invade as práticas sociais, as mentes e as cosmovisões. A
utilização dos meios de comunicação de massa está introduzindo na
sociedade um sentido estético, uma visão a respeito da felicidade, uma
percepção da realidade e até uma linguagem, que se querem impor como uma
autêntica cultura. No entanto, sua superficialidade termina por destruir
o que de verdadeiramente humano há nos processos de construção cultural,
que nascem do intercâmbio pessoal e coletivo.
46. Verifica-se, em nível intenso, uma espécie de nova colonização
cultural pela imposição de culturas artificiais, desprezando as culturas
locais e com tendência a impor uma cultura homogeneizada em todos os
setores. Esta cultura se caracteriza pela auto-referência do indivíduo,
que conduz à indiferença pelo outro, de quem não necessita e por quem
não se sente responsável. Prefere-se viver o dia a dia, sem programas a
longo prazo nem apegos pessoais, familiares e comunitários. As relações
humanas estão sendo consideradas objetos de consumo, conduzindo a
relações afetivas sem compromisso responsável e definitivo.
47. Também se verifica uma tendência para a afirmação exasperada de
direitos individuais e subjetivos. Esta busca é pragmática e
imediatista, sem preocupação com critérios éticos. A afirmação dos
direitos individuais e subjetivos, sem um esforço semelhante para
garantir os direitos sociais culturais e solidários, resulta em prejuízo
da dignidade de todos, especialmente daqueles que são mais pobres e
vulneráveis.
48. Nesta hora da América Latina e do Caribe, é imperativo tomar
consciência da situação precária que afeta a dignidade de muitas
mulheres. Algumas desde crianças e adolescentes, são submetidas a
múltiplas formas de violência dentro e fora de casa: tráfico, violação,
escravização e assédio sexual; desigualdades na esfera do trabalho, da
política e da economia; exploração publicitária por parte de muitos
meios de comunicação social que as tratam como objeto de lucro.
49. As mudanças culturais modificaram os papéis tradicionais de homens e
mulheres, que procuram desenvolver novas atitudes e estilos de suas
respectivas identidades, potencializando todas suas dimensões humanas na
convivência cotidiana, na família e na sociedade.
50. A avidez do mercado descontrola o desejo de crianças, jovens e
adultos. A publicidade conduz ilusoriamente a mundos distantes e
maravilhosos, onde todo desejo pode ser satisfeito pelos produtos que
têm um caráter eficaz, efêmero e até messiânico. Legitima-se que os
desejos se tornem felicidade. Como só se necessita do imediato, a
felicidade se pretende alcançar através do bem-estar econômico e da
satisfação hedonista.
51. As novas gerações são as mais afetadas por esta cultura do consumo
em suas aspirações pessoais profundas. Crescem na lógica do
individualismo pragmático e narcisista, que desperta neles imagens
especiais de liberdade e igualdade. Afirmam o presente porque o passado
perdeu relevância diante de tantas exclusões sociais, políticas e
econômicas. Para eles o futuro é incerto. Assim mesmo, participam da
lógica da vida como espetáculo, considerando o corpo como ponto de
referência de sua realidade presente. Têm um novo vício pelas sensações
e crescem em uma grande maioria sem referência aos valores e instâncias
religiosas. Em meio à realidade de mudança cultural emergem novos
sujeitos, com novos estilos de vida, maneiras de pensar, de sentir, de
perceber e com novas formas de se relacionar. São produtores e atores da
nova cultura.
52. Entre os aspectos positivos desta mudança cultural aparece o valor
fundamental da pessoa, de sua subjetividade e experiência, a busca do
sentido da vida e da transcendência. Para dar respostas à busca mais
profunda do significado da vida, o fracasso das ideologias dominantes,
permitiu que a simplicidade e o reconhecimento do fraco e do pequeno na
existência surgissem como valor, com uma grande capacidade e potencial
que não podem ser desvalorizados. Esta ênfase na apreciação da pessoa
abre novos horizontes, onde a tradição cristã adquire um renovado valor,
sobretudo quando a pessoa se reconhece em um Deus que se encarna e nasce
em um estábulo, assumindo uma condição humilde e pobre.
53. A necessidade de construir o próprio destino e o desejo de encontrar
razões para a existência pode colocar em movimento o desejo de se
encontrar com outros e compartilhar o vivido, como uma maneira de se dar
uma resposta. Trata-se de uma afirmação da liberdade pessoal e, por
isso, da necessidade de se questionar em profundidade as próprias
convicções e opções.
54. Porém, junto com a ênfase na responsabilidade individual em meio a
sociedades que promovem o acesso aos bens através dos meios.
Paradoxalmente, nega-se às grandes maiorias o acesso aos mesmos bens,
que constituem elementos básicos e essenciais para viverem como pessoas.
55. A ênfase na experiência pessoal e no vivencial nos leva a considerar
o testemunho como um componente chave na vivência da fé. Os fatos são
valorizados quando são significativos, ou seja, quando decisivos para a
pessoa. Na linguagem testemunhal podemos encontrar um ponto de contato
com as pessoas que compõem a sociedade e delas entre si.
56. Por outro lado, a riqueza e a diversidade cultural dos povos da
América Latina e Caribe parecem evidentes. Existem em nossa região
diversas culturas indígenas, afro descendentes, mestiças, camponesas,
urbanas e suburbanas. As culturas indígenas se caracterizam sobretudo
por seu apego profundo à terra e pela vida comunitária. Os afro
descendentes se caracterizam, entre outros elementos, pela
expressividade corporal, o enraizamento familiar e o sentido de Deus. A
cultura camponesa está referida ao ciclo agrário. A cultura mestiça, que
é a mais extensa entre muitos povos da região, tem buscado em meios às
contradições sintetizar ao longo da história estas múltiplas fontes
culturais originárias, facilitando o diálogo das respectivas cosmovisões
e permitindo sua convergência em uma história compartilhada. A esta
complexidade cultural haveria que se acrescentar também a de tantos
imigrantes europeus que se estabeleceram nos países de nossa região.
57. Estas culturas coexistem em condições desiguais com a chamada
cultura globalizada. Elas exigem reconhecimento e oferecem valores que
constituem uma resposta aos anti-valores da cultura e que se impõem
através dos meios de comunicação de massas: comunitarismo, valorização
da família, abertura à transcendência e solidariedade. Estas culturas
são dinâmicas e estão em interação permanente entre si e com as
diferentes propostas culturais.
58. A cultura urbana é híbrida, dinâmica e mutável, pois amálgama
múltiplas formas, valores e estilos de vida e afeta todas as
coletividades. A cultura suburbana é fruto de grandes migrações de
população, em sua maioria pobre, que se estabeleceu ao redor das cidades
nos cinturões de miséria. Nestas culturas os problemas de identidade e
pertença, relação, espaço vital e lar são cada vez mais complexos.
59. Existem também comunidades de migrantes que deixaram as culturas e
tradições trazidas de suas terras de origem, sejam cristãs ou de outras
religiões. Por sua vez, esta diversidade inclui comunidades que foram se
formando com a chegada de diferentes denominações cristãs e outros
grupos religiosos. Assim, assumir a diversidade cultural, que é um
imperativo do momento, envolve superar os discursos que pretendem
uniformizar a cultura, com enfoques baseados em modelos únicos.
2.1.2 Situação econômica
60. Em seu discurso inaugural o Papa vê na globalização um fenômeno “de
relações de nível planetário”, sendo “uma conquista da família humana”,
porque favorece o acesso a novas tecnologias, mercados e finanças. As
altas taxas de crescimento de nossa economia regional e,
particularmente, seu desenvolvimento urbano, não seriam possíveis sem a
abertura ao comércio internacional, sem acesso às tecnologias de última
geração, sem a participação de nossos cientistas e técnicos no
desenvolvimento internacional do conhecimento e sem o alto investimento
registrado nos meio eletrônicos de comunicação. Tudo isso leva também
consigo o surgimento de uma classe média tecnologicamente letrada. Ao
mesmo tempo a globalização se manifesta como a profunda aspiração do
gênero humano à unidade. Não obstante estes avanços, o Papa também
assinala que a globalização “comporta o risco dos grandes monopólios e
de converter o lucro em valor supremo”.
Por isso, Bento XVI enfatiza que “como em todos os campos da atividade
humana, a globalização deve se reger também pela ética, colocando tudo a
serviço da pessoa humana, criada a imagem e semelhança de Deus” 23.
61. A globalização é um fenômeno complexo que possui diversas dimensões
(econômicas, políticas, culturais, comunicacionais, etc). Para uma justa
valorização dela, é necessária uma compreensão analítica e diferenciada
que permita detectar tanto seus aspectos positivos quanto os negativos.
Lamentavelmente, a face mais difundida e de êxito da globalização é sua
dimensão econômica, que se sobrepõe e condiciona as outras dimensões da
vida humana. Na globalização, a dinâmica do mercado absolutiza com
facilidade a eficácia e a produtividade como valores reguladores de
todas as relações humanas. Este peculiar caráter faz da globalização um
processo promotor de iniqüidades e injustiças múltiplas. A globalização,
tal como está configurada atualmente, não é capaz de interpretar e
reagir em função de valores objetivos que se encontram além do mercado e
que constituem o mais importante da vida humana: a verdade, a justiça, o
amor, e muito especialmente, a dignidade e os direitos de todos,
inclusive daqueles que vivem à margem do próprio mercado.
62. Conduzida por uma tendência que privilegia o lucro e estimula a
competitividade, a globalização segue uma dinâmica de concentração de
poder e de riqueza em mãos de poucos. Concentração não só dos recursos
físicos e monetários, mas sobretudo de informação e dos recursos
humanos, o que produz a exclusão de todos aqueles não suficientemente
capacitados e informados, aumentando as desigualdades que marcam
tristemente nosso continente e que mantêm na pobreza uma multidão de
pessoas. O que existe hoje é a pobreza de conhecimento e do uso e acesso
a novas tecnologias.
Por isso é necessário que os empresários assumam sua responsabilidade de
criar mais fontes de trabalho e de investir nas regiões mais pobres com
o objetivo de contribuir para seu desenvolvimento.
63. Porém, está claro que o predomínio desta tendência não têm eliminado
a possibilidade de se formar pequenas e médias empresas. Elas se
associam ao dinamismo exportador da economia, prestam-lhe serviços
colaterais ou aproveitam nichos específicos do mercado interno. No
entanto, sua fragilidade econômica e financeira e a pequena escala em
que se desenvolvem, tornam-nas extremamente vulneráveis frente às taxas
de juros, ao risco do câmbio, aos custos previsionais e a variação nos
preços de seus insumos. A debilidade destas empresas se associa à
precariedade do emprego que estão em condições de oferecer. Sem uma
política de proteção específica dos estados a elas, corre-se o risco de
que as economias dos grandes consórcios termine por se impor como a
única forma determinante do dinamismo econômico.
64. É por isso que, frente a esta forma de globalização, sentimos um
forte chamado para promover uma globalização diferente, que esteja
marcada pela solidariedade, pela justiça e pelo respeito aos direitos
humanos, fazendo da América Latina e do Caribe não só o continente da
esperança, mas também o continente do amor, como propôs SS. Bento XVI no
Discurso Inaugural desta Conferência.
65. Isto deveria nos levar a contemplar os rostos daqueles que sofrem.
Entre eles estão as comunidades indígenas e afro-descendentes que, em
muitas ocasiões, não são tratadas com dignidade e igualdade de
condições; muitas mulheres são excluídas, em razão de seu sexo, raça ou
situação sócio-econômica; jovens que recebem uma educação de baixa
qualidade e não têm oportunidades de progredir em seus estudos nem de
entrar no mercado de trabalho para se desenvolver e constituir uma
família; muitos pobres, desempregados, migrantes, deslocados,
agricultores sem terra, aqueles que procuram sobreviver na economia
informal; meninos e meninas submetidos à prostituição infantil ligada
muitas vezes ao turismo sexual; também as crianças vítimas do aborto.
Milhões de pessoas e famílias vivem na miséria e inclusive passam fome.
Preocupam-nos também os dependentes das drogas, as pessoas com
limitações físicas, os portadores de HIV e os
enfermos de AIDS que sofrem a solidão e se vêem excluídos da convivência
familiar e social. Não nos esqueçamos também dos seqüestrados e aqueles
que são vítimas da violência, do terrorismo, de conflitos armados e da
insegurança na cidade. Também os anciãos que, além de se sentirem
excluídos do sistema produtivo, vêem-se muitas vezes recusados por sua
família como pessoas incômodas e inúteis. Sentimos as dores, enfim, da
situação desumana em que vive a grande maioria dos presos, que também
necessitam de nossa presença solidária e de nossa ajuda fraterna. Uma
globalização sem solidariedade afeta negativamente os setores mais
pobres. Já não se trata simplesmente do fenômeno da exploração e
opressão, mas de algo novo: da exclusão social. Com ela o pertencimento
à sociedade na qual se vive fica afetado, pois já não se está abaixo, na
periferia ou sem poder, mas se está de fora. Os excluídos não são
somente “explorados”, mas “supérfluos” e “descartáveis”.
66. As instituições financeiras e as empresas transnacionais se
fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo,
debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar
adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações,
especialmente quando se trata de investimentos de longo prazo e sem
retorno imediato. As indústrias extrativistas internacionais e a
agroindústria muitas vezes não respeitam os direitos econômicos,
sociais, culturais e ambientais das populações locais e não assumem suas
responsabilidades. Com muita freqüência se subordina a destruição da
natureza ao desenvolvimento econômico, com danos á biodiversidade, com o
esgotamento das reservas de água e de outros recursos naturais, com a
contaminação do ar e a mudança climática. Uma nova tendência com
múltiplas implicações na região é a crescente produção de agro
combustíveis, que não deve ser feita a custa da necessária produção de
alimentos para a sobrevivência humana. A América Latina possui os
aqüíferos mais abundantes do planeta, junto com grandes extensões de
território selvagem, que são pulmões da humanidade. Assim se dão
gratuitamente ao mundo serviços ambientais que não são reconhecidos
economicamente. A região se vê afetada pelo aquecimento da terra e a
mudança climática provocada principalmente pelo estilo de vida não
sustentável dos países industrializados.
67. A globalização tem celebrado freqüentes Tratados de Livre Comércio
entre países com economias assimétricas, que nem sempre beneficiam os
países mais pobres. Ao mesmo tempo pressiona-se os países da região com
exigências desmedidas em matéria de propriedade intelectual, a tal ponto
que se permitem direitos de patente sobre a vida em todas as suas
formas. Além disso, a utilização de organismos geneticamente manipulados
tem mostrado o que nem sempre contribui para o combate contra a fome,
nem para o desenvolvimento rural sustentável.
68. Ainda que se tenha progredido muitíssimo no controle da inflação e
na estabilidade macroeconômica dos países da região, muitos governos se
encontram severamente limitados para o financiamento de seu orçamento
público pelos elevados serviços da dívida externa 24 e interna e que,
por outro lado, não contam com sistemas tributários verdadeiramente
eficientes, progressivos e eqüitativos.
69. A atual concentração de renda e riqueza acontece principalmente
pelos mecanismos do sistema financeiro. A liberdade concedida aos
investimentos financeiros favorecem o capital especulativo, que não tem
incentivos para fazer investimentos produtivos de longo prazo, mas busca
o lucro imediato nos negócios com títulos públicos, moedas e derivados.
No entanto, segundo a Doutrina Social da Igreja, a Economia Social de
Mercado continua sendo uma forma idônea de organizar o trabalho, o
conhecimento e o capital para satisfazer as autênticas necessidades
humanas. A empresa é chamada a prestar uma contribuição maior na
sociedade, assumindo a chamada responsabilidade social-empresarial, a
partir dessa perspectiva.
70. É também alarmante o nível de corrupção nas economias envolvendo
tanto o setor público quanto o setor privado, ao que se soma uma notável
falta de transparência e prestação de contas à cidadania. Em muitas
ocasiões, a corrupção está vinculada ao flagelo do narcotráfico ou do
narconegócio ,e por outro lado, vem destruindo o tecido social e
econômico em regiões inteiras.
71. A população economicamente ativa da região é afetada pelo subemprego
(42%) e o desemprego (9%). O trabalho informal atinge quase a metade
dela. O trabalho formal, por sua vez, vê-se submetido à precariedade das
condições de emprego e à pressão constante da subcontratação, que traz
consigo salários mais baixos e falta de proteção na área da segurança
social, não permitindo a muitos o desenvolvimento de uma vida digna.
Neste contexto, os sindicatos perdem a possibilidade de defender os
direitos dos trabalhadores. Por outro lado, é possível destacar
fenômenos positivos e criativos para enfrentar esta situação por parte
dos afetados, que vêm estimulando diversas experiências, como por
exemplo, micro-finanças, economia local e solidária e comércio justo.
72. Os homens do campo, em sua maioria, sofrem por causa da pobreza,
agravada por não terem acesso à terra própria. No entanto, existem
grandes latifúndios em mãos de poucos. Em alguns países, esta situação
tem levado a população a exigir uma Reforma Agrária, estando atentos aos
males que podem lhes ocasionar os Tratados de Livre Comércio, a
manipulação de drogas e outros fatores.
73. Um dos fenômenos mais importantes em nossos países é o processo de
mobilidade humana no qual milhões de pessoas migram ou se vêem forçadas
a migrar dentro e fora de seus respectivos países. As causas são
diversas e estão relacionadas com a situação econômica, a violência em
suas diversas formas, a pobreza que afeta as pessoas e a falta de
oportunidades para a pesquisa e o desenvolvimento profissional. Em
muitos casos as conseqüência são de enorme gravidade em nível pessoal,
familiar e cultural. A perda do capital humano de milhões de pessoas, de
profissionais qualificados, de pesquisadores e amplos setores d
agricultura, vai nos empobrecendo cada vez mais. A exploração do
trabalho chega, em alguns casos, a gerar condições de verdadeira
escravidão. Acontece também um vergonhoso tráfico de pessoas, que inclui
a prostituição, inclusive de menores. Merece especial menção a situação
dos refugiados, que questiona a capacidade de acolhida da sociedade e
das igrejas. Por outro lado, no entanto, a remessa de divisas dos
emigrados a seus países de origem tem se tornado uma importante e, às
vezes, insubstituível fonte de recursos para os países da região,
ajudando o bem-estar e à mobilidade social ascendente daqueles que
conseguem participar com êxito neste processo.
2.1.3 Dimensão sócio-política
74. Constatamos como fato positivo o fortalecimento dos regimes
democráticos em muitos países da América Latina e do Caribe segundo
demonstram os últimos processos eleitorais. No entanto, vemos com
preocupação o acelerado avanço de diversas formas de regressão
autoritária por via democrática que em certas ocasiões resultam em
regimes de corte neo-populista. Isto indica que não basta uma democracia
puramente formal, fundada em procedimentos eleitorais honestos, mas que
é necessário uma democracia participativa e baseada na promoção e
respeito dos direitos humanos. Uma democracia sem valores como os
mencionados torna-se facilmente uma ditadura e termina traindo o próprio
povo.
75. Com a presença da Sociedade Civil assumindo uma atitude mais
protagonista e a irrupção de novos atores sociais como são os indígenas,
os afro-americanos, as mulheres, os profissionais, uma extensa classe
média e os setores marginalizados organizados, está se fortalecendo a
democracia participativa e estão se criando maiores espaços de
participação política. Estes grupos estão tomando consciência do poder
que têm em suas mãos e da possibilidade de gerarem mudanças importantes
para a conquista de políticas públicas mais justas, que revertam sua
situação de exclusão. Neste plano, percebe-se também uma crescente
influência de organismos das nações unidas e de Organizações
Não-Governamentais de caráter internacional que nem sempre ajustam suas
recomendações a critérios éticos. Não faltam também atuações que
radicalizam as posições, fomentam a conflitividade e a polarização
extremas e colocam esse potencial a serviço de interesses alheios aos
seus, o que, ao final, pode frustrar e reverter negativamente suas
esperanças.
76. Depois de uma época de debilidade dos Estados devido a aplicação de
ajustes estruturais na economia, por recomendação de organismos
financeiros internacionais, olha-se, atualmente, com bons olhos um
esforço por parte dos Estados em definir e aplicar políticas públicas
nos campos da saúde, educação, segurança alimentar, previdência social,
acesso à terra e à moradia, promoção eficaz da economia para a criação
de empregos e leis que favorecem as organizações solidárias. Tudo isto
mostra que não pode existir democracia verdadeira e estável sem justiça
social, sem divisão real de poderes e sem a vigência do Estado de
direito 25.
77. Cabe assinalar como um grande fator negativo, o recrudescimento da
corrupção na sociedade e no Estado em boa parte da região, envolvendo os
poderes legislativos e executivo em todos os seus níveis, alcançando
também o sistema judicial. Este, muitas vezes, inclina seu juízo a favor
dos poderosos e gera impunidade, o que coloca em sério risco a
credibilidade das instituições públicas e aumenta a desconfiança do
povo, fenômeno que se une a um profundo desprezo pela legalidade. Em
amplos setores da população e particularmente entre os jovens cresce o
desencanto pela política e particularmente pela democracia, pois as
promessas de uma vida melhor e mais justa não se cumpriram ou se
cumpriram só pela metade. Neste sentido, esquece-se de que a democracia
e a participação política é fruto da formação que se faz realidade
somente quando os cidadãos são conscientes de seus direitos fundamentais
e de seus deveres correspondentes.
78. A vida social em convivência harmônica e pacífica está se
deteriorando gravemente em muitos países da América Latina e do Caribe
pelo crescimento da violência, que se manifesta em roubos, assaltos,
seqüestros, e o que é mais grave, em assassinatos que a cada dia
destroem mais vidas humanas e enchem de dor as famílias e a sociedade
inteira. A violência se reveste de várias formas e tem diversos agentes:
o crime organizado e o narcotráfico, grupos paramilitares, violência
comum sobretudo na periferia das grandes cidades, violência de grupos de
jovens e crescente violência intrafamiliar. Suas causas são múltiplas: a
idolatria elo dinheiro, o avanço de uma ideologia individualista e
utilitarista, a falta de respeito pela dignidade de cada pessoa, a
deterioração do tecido social, a corrupção inclusive nas forças de ordem
e a falta de políticas públicas de equidade social.
79. Alguns parlamentos ou assembléias legislativas aprovam leis injustas
contra os direitos humanos e a vontade popular, precisamente por não
estar perto de seus representados, nem saber escutar e dialogar com os
cidadãos, mas também por ignorância, por falta de acompanhamento e
porque muitos cidadãos abdicam de seu dever de participar na vida
pública.
80. Em alguns países tem aumentado a repressão, a violência dos direitos
humanos, inclusive o direito à liberdade religiosa, a liberdade de
expressão e a liberdade de ensino, assim como o desprezo à objeção de
consciência.
81. Ainda que alguns países tenham conseguido acordos de paz superando
dessa forma conflitos antigos, em outros, continua a luta armada com
todas as suas seqüelas (mortes violentas, violações dos Direitos
Humanos, ameaças, crianças na guerra, seqüestros, etc.), sem que se
possa observar soluções em curto prazo. A influência do narco-negócio
nestes grupos dificulta ainda mais as possíveis soluções.
82. Na América Latina e no Caribe vê-se com bons olhos uma crescente
vontade de integração regional com acordos multilaterais, envolvendo um
número crescente de países que geram suas próprias regras no campo do
comércio, dos serviços e das patentes. À origem comum unem-se a cultura,
a língua e a religião que podem contribuir para que a integração não
seja só de mercados, mas de instituições civis e, sobretudo, de pessoas.
Também é positiva a globalização da justiça, no campo dos direitos
humanos e dos crimes contra a humanidade. Isto permitirá
progressivamente que os seres humanos vivam sob normas iguais chamadas a
proteger sua dignidade, sua integridade e sua vida.
2.1.4 Biodiversidade, ecologia, Amazônia e Antártida
83. A América Latina é o continente que possui uma das maiores
biodiversidades do planeta e uma rica sócio diversidade representada por
seus povos e culturas. Estes possuem um grande acervo de conhecimentos
tradicionais sobre a utilização dos recursos naturais, assim como sobre
o valor medicinal de plantas e outros organismos vivos, muitos dos quais
formam a base de sua economia. Tais conhecimentos são atualmente objeto
de apropriação intelectual ilícita, sendo patenteados por
indústrias farmacêuticas e de biogenética, gerando vulnerabilidade da
agricultura familiar que dependem desses recursos para sua
sobrevivência.
84. Nas decisões sobre as riquezas da biodiversidade e da natureza as
populações tradicionais têm sido praticamente excluídas. A natureza foi
e continua sendo agredida. A terra foi depredada. As águas estão sendo
tratadas como se fossem uma mercadoria negociável pelas empresas, além
de haver sido transformadas em um bem disputado pelas grandes potências.
Um exemplo muito importante nesta situação é a Amazônia 26.
85. Em seu discurso aos jovens, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, o
Papa Bento XVI chamou a atenção sobre a “devastação ambiental da
Amazônia e as ameaças à dignidade humana de seus povos ”27 e pediu aos
jovens “um maior compromisso nos mais diversos espaços de ação”.
86. A crescente agressão ao meio-ambiente pode servir de pretexto para
propostas de internacionalização da Amazônia, que só servem aos
interesses econômicos das corporações internacionais. A sociedade
panamazõnica é pluriétnica, pluricultural e plurireligiosa. Nela,
está-se intensificando cada vez mais a disputa pela ocupação do
território. As populações tradicionais da região querem que seus
territórios sejam reconhecidos e legalizados.
87. Além disso, constatamos o retrocesso das geleiras em todo o mundo: o
degelo do Ártico cujo impacto já está se vendo na flora e fauna desse
ecossistema; também o aquecimento global se faz sentir no estrondoso
crepitar dos blocos de gelo ártico que reduzem a cobertura glacial do
continente e que regula o clima do mundo. Profeticamente, há 20 anos,
desde a fronteira das Américas, João Paulo II assinalou: “Desde o Cone
Sul do Continente Americano e frente aos ilimitados espaços da
Antártida, lanço um chamado a todos os responsáveis de nosso planeta
para proteger e conservar a natureza criada por Deus: não permitamos que
nosso mundo seja uma terra cada vez mais degradada e degradante” 28.
2.1.5 Presença dos povos indígenas e afro-americanos na Igreja
88. Os indígenas constituem a população mais antiga do continente. Estão
na raiz primeira da identidade latino-americana e caribenha. Os
afro-americanos constituem outra raiz que foi arrancada da África e
trazida para cá como gente escravizada. A terceira raiz é a população
pobre que migrou da Europa a partir do século XVI, em busca de melhores
condições de vida e o grande fluxo de imigrantes de todo o mundo a
partir de meados do século XIX. De todos estes grupos e de suas
correspondentes culturas se formou a mestiçagem que é a base social e
cultural de nossos povos latino-americanos, como já o reconheceu a III
Conferência Geral do Episcopado Latino-americano celebrada em Puebla,
México.
89. Os indígenas e afro-americanos são, sobretudo, “outros” diferentes
que exigem respeito e reconhecimento. A sociedade tende a
menosprezá-los, desconhecendo o porquê de suas diferenças. Sua situação
social está marcada pela exclusão e pela pobreza. A Igreja acompanha os
indígenas e afro-americanos nas lutas por seus direitos.
90. Hoje, os povos indígenas e afros estão ameaçados em sua existência
física, cultural e espiritual; em seus modos de vida; em suas
identidades; em sua diversidade; em seus territórios e projetos. Algumas
comunidades indígenas se encontram fora de suas terras porque elas foram
invadidas e degradadas, ou não tem terras suficientes para desenvolver
suas culturas. Sofrem graves ataques a sua identidade e sobrevivência,
pois a globalização econômica e cultural coloca em perigo sua própria
existência como povo diferentes. Sua progressiva transformação cultural
provoca o rápido desaparecimento de algumas línguas e culturas. A
migração, forçada pela pobreza, está influindo profundamente na mudança
de seus costumes, de relacionamentos e inclusive de religião.
91. Os indígenas e afro-americanos emergem agora na sociedade e na
Igreja. Este é um “kairós” para aprofundar o encontro da Igreja com
estes setores humanos que reivindicam o reconhecimento pleno de seus
direitos individuais e coletivos, serem levados em consideração na
catolicidade com sua cosmovisão, seus valores e suas identidades
particulares, para viver um novo Pentecostes eclesial.
92. Já em Santo Domingo os pastores reconheciam que “os povos indígenas
cultivam valores humanos de grande significado”29; valores que “a Igreja
defende... diante da força dominadora das estruturas de pecado
manifestas na sociedade moderna”30; “são possuidores de inumeráveis
riquezas culturais, que estão na base de nossa identidade atual”31; e, a
partir da perspectiva da fé, “estes valores e convicções são fruto de
‘sementes do Verbo’, que já estavam presentes e operavam em seus
antepassados” 32.
93. Entre eles podemos assinalar: “abertura à ação de Deus pelos frutos
da terra, o caráter sagrado da vida humana, a valorização da família, o
sentido de solidariedade e a co-responsabilidade no trabalho comum, a
importância do cultual, a crença em uma vida ultra terrena” 33.
Atualmente, o povo tem enriquecido amplamente estes valores através da
Evangelização e os tem desenvolvido em múltiplas formas de autêntica
religiosidade popular.
94. Como Igreja que assume a causa dos pobres, estimulamos a
participação dos indígenas e afroamericanos na vida eclesial Vemos com
esperança o processo de inculturação discernido à luz do magistério. É
prioritário fazer traduções católicas da Bíblia e dos textos litúrgicos
nos idiomas desses povos. Necessita-se, igualmente, promover mais as
vocações e os ministérios ordenados procedentes destas culturas.
95. Nosso serviço pastoral à vida plena dos povos indígenas exige que
anunciemos a Jesus Cristo e a Boa Nova do Reino de Deus, denunciemos as
situações de pecado, as estruturas de morte, a violência e as injustiças
internas e externas e fomentemos o diálogo intercultural, interreligioso
e ecumênico. Jesus Cristo é a plenitude da revelação para todos os povos
e o centro fundamental de referência para discernir os valores e as
deficiências de todas as culturas, incluindo as indígenas. Por isso, o
maior tesouro que podemos oferecer a eles é que cheguem ao encontro com
Jesus Cristo ressuscitado, nosso salvador. Os indígenas que já receberam
o Evangelho, como discípulos e missionários de Jesus Cristo, são
chamados a viver com imensa alegria sua realidade cristã, a explicar a
razão de sua fé em meio a suas comunidades e a colaborar ativamente para
que nenhum povo indígena da América Latina renegue sua fé cristã, mas ao
contrário, sintam que em Cristo encontram o sentido pleno de sua
existência.
96. A história dos afro-americanos tem sido atravessada por uma exclusão
social, econômica, política e, sobretudo, racial, onde a identidade
étnica é fator de subordinação social. Atualmente, são discriminados na
inserção do trabalho, na qualidade e conteúdo da formação escolar, nas
relações cotidianas e, além disso, existe um processo de ocultamento
sistemático de seus valores, história, cultura e expressões religiosas.
Permanece, inclusive, nos imaginários coletivos uma mentalidade e um
olhar colonial com respeito aos povos originários e afro-americanos.
Desse modo, descolonizar as mentes, o conhecimento, recuperar a memória
histórica, fortalecer os espaços e relacionamentos inter-culturais, são
condições para a afirmação da plena cidadania destes povos.
97. A realidade latino-americana conta com comunidades afro-americanas
muito vivas que participam ativa e criativamente da construção deste
continente. Os movimentos pela recuperação das identidades, dos direitos
dos cidadãos e contra o racismo e os grupos alternativos de economias
solidárias, fazem das mulheres e homens negros sujeitos construtores de
sua história e de uma nova história que se vai desenhando na atualidade
latino-americana e caribenha. Esta nova realidade se baseia em relações
inter-culturais onde a diversidade não significa ameaça, não justifica
hierarquias de um poder sobre outros, mas sim diálogo a partir de visões
culturais diferentes de celebração, de inter-relacionamento e de
reavivamento da esperança.
2.2 Situação de nossa Igreja nesta hora histórica de desafios
98. A Igreja católica na América Latina e no Caribe, apesar de suas
deficiências e ambigüidades, tem dado testemunho de Cristo, anunciado
seu Evangelho e oferecido seu serviço de caridade principalmente aos
mais pobres, no esforço por promover sua dignidade e também no empenho
de promoção humana nos campos da saúde, da economia solidária, da
educação, do trabalho, do acesso à terra, da cultura, da habitação e
assistência, entre outros. Com sua voz, unida à de outras instituições
nacionais e mundiais, tem ajudado a dar orientações prudentes e a
promover a justiça, os direitos humanos e a reconciliação dos povos.
Isto tem permitido que a Igreja seja reconhecida socialmente em muitas
ocasiões como uma instância de confiança e credibilidade. Seu empenho a
favor dos mais pobres e sua luta pela dignidade de cada ser humano tem
ocasionado, em muitos casos, a perseguição e, inclusive, a morte de
alguns de seus membros, os quais consideramos testemunhas da fé.
Queremos recordar o testemunho valente de nossos santos e santas e
aqueles que, inclusive sem haver sido canonizados, tem vivido com
radicalidade o evangelho e oferecido sua vida por Cristo, pela Igreja e
por seu povo.
99. Os esforços pastorais orientados para o encontro com Jesus Cristo
vivo deram e continuam dando frutos. Entre outros, destacamos os
seguintes.
100. Devido a animação bíblica da pastoral, aumenta o conhecimento da
Palavra de Deus e do amor por ela. Graças à assimilação do magistério da
Igreja e a uma melhor formação de generosos catequistas, a renovação da
Catequese tem produzido fecundos resultados em todo o continente,
chegando inclusive a países da América do Norte, Europa e Ásia, para
onde muitos latino-americanos e caribenhos têm emigrado.
101. A renovação litúrgica acentuou a dimensão celebrativa e festiva da
fé cristã centrada no mistério pascal, em particular na Eucaristia.
Crescem as manifestações da religiosidade popular, especialmente a
piedade eucarística e a devoção mariana. Esforços têm sido realizados
para inculturar a liturgia nos povos indígenas e afro-descendentes.
Estão sendo superados os riscos de reduzir a Igreja a sujeito político,
com um melhor discernimento dos impactos sedutores das ideologias.
Têm-se fortalecido a responsabilidade e a vigilância com relação às
verdades da Fé, ganhando em profundidade e serenidade de comunhão.
102. Nosso povo tem grande estima pelos sacerdotes. Reconhece a
santidade de muitos deles, como também seu testemunho de vida, seu
trabalho missionário e sua criatividade pastoral, particularmente
daqueles que estão em lugares distantes ou em contextos de maior
dificuldade. Muitas de nossas Igrejas contam com uma pastoral sacerdotal
com experiências concretas de vida em comum e de uma retribuição do
clero mais justa. Em algumas Igrejas desenvolve-se o diaconato
permanente. Contam também com ministérios laicos e outros serviços
pastorais, como delegados da Palavra, animadores de assembléia e de
pequenas comunidades, entre elas, as comunidades eclesiais de base e um
grande número de pastorais específicas. Faz-se um grande esforço pela
formação em nossos Seminários, nas casas de formação para a vida
consagrada e nas escolas para o diaconato permanente. É significativo o
testemunho da vida consagrada, sua participação na ação pastoral e sua
presença em situações de pobreza, de risco e de fronteira. A Igreja
estimula com esperança o incremento de vocações para a vida
contemplativa masculina e feminina.
103. Ressalta a abnegada entrega de tantos missionários e missionárias
que, até o dia de hoje, tem desenvolvido uma valiosa obra evangelizadora
e de promoção humana em todos os nossos povos, com multiplicidade de
obras e serviços. Desse modo é reconhecido o trabalho de numerosos
sacerdotes, consagradas e consagrados, leigos e leigas que, a partir do
nosso Continente, participam da missão ad gentes.
104. Crescem os esforços de renovação pastoral nas paróquias,
favorecendo um encontro com Cristo vivo mediante diversos métodos de
nova evangelização que se transformam em comunidade de comunidades
evangelizadas e missionárias. Contata-se em muitos lugares um
florescimento de comunidades eclesiais de base, em comunhão com os
Bispos e fiéis ao Magistério da Igreja. Valorizase a presença e o
crescimento dos movimentos eclesiais e novas comunidades que difundem
sua riqueza carismática, educativa e evangelizadora. Tem-se tomado
consciência da importância da pastoral Familiar, da Infância e Juvenil.
105. A Doutrina Social da Igreja constitui uma riqueza sem preço, e tem
animado o testemunho e a ação solidária dos leigos e leigas, aqueles que
se interessam cada vez mais por sua formação teológica como verdadeiros
missionários da caridade, e por transformar de maneira efetiva o mundo
segundo Cristo. Hoje, inumeráveis iniciativas laicas no âmbito social,
cultural, econômico e político, deixam-se inspirar pelos princípios
permanentes, pelos critérios de juízo e pelas diretrizes de ação
provenientes da Doutrina Social da Igreja. Valoriza-se o desenvolvimento
que tem tido a Pastoral Social, como também a ação da Cáritas em seus
vários níveis e a riqueza do voluntariado, nos mais diversos apostolados
com incidência social. Tem-se desenvolvido a pastoral da comunicação
social e mais do que nunca a Igreja tem contado com mais meios de
comunicação para a evangelização da cultura, neutralizando em parte
outros grupos religiosos que ganham constantemente adeptos, usando com
perspicácia o rádio e a televisão. Temos rádios, televisão, cinema,
jornais, internet, páginas de web e a RIIAL que nos enchem de esperança.
106. A diversificação da organização eclesial, com a criação de muitas
comunidades, novas jurisdições e organismos pastorais, permitiu que
muitas Igrejas locais avançassem na estruturação de uma Pastoral
Orgânica, para servir melhor às necessidades dos fiéis. Não com a mesma
intensidade, em todas as Igrejas, tem-se desenvolvido o diálogo
ecumênico e interreligioso., enriquecendo a todos os participantes. Em
outros lugares, tem-se criado escolas de ecumenismo ou de colaboração
ecumênica em assuntos sociais e outras iniciativas. Manifesta-se, como
reação ao materialismo, uma busca de espiritualidade, de oração e de
mística que expressa fome e sede de Deus. Por outro lado, a valorização
da ética é um sinal dos tempos que indica a necessidade de superar o
hedonismo, a corrupção e o vazio dos valores. Alegra-nos, além disso, o
profundo sentimento de solidariedade que caracteriza nossos povos e a
prática de compartilhar e de ajuda mútua.
107. Apesar dos aspectos positivos que nos alegram na esperança,
observamos sombras, entre as quais mencionamos as seguintes:
108. Para a Igreja Católica, a América Latina e o Caribe são de grande
importância, por seu dinamismo eclesial, por sua criatividade e porque
43% de todos os seus fiéis vivem nesses locais; no entanto, observamos
que o crescimento percentual da Igreja não segue o mesmo ritmo que o
crescimento populacional. Na média, o aumento do clero, e sobretudo, das
religiosas, distancia-se cada vez mais do crescimento populacional em
nossa região 34.
109. Lamentamos certo clericalismo, algumas tentativas de voltar a uma
eclesiologia e espiritualidade anteriores ao Concílio Vaticano II,
algumas leituras e aplicações reducionistas da renovação conciliar, a
ausência de um sentido de auto-crítica, de uma autêntica obediência e do
exercício evangélico da autoridade, dos moralismos que enfraquecem a
centralidade de Jesus Cristo, das infidelidades à doutrina, à moral e à
comunhão, nossas débeis vivências da opção preferencial pelos pobres,
não poucas recaídas secularizantes na vida consagrada, da discriminação
da mulher e sua ausência freqüente nos organismos pastorais. Tal como
manifestou o Santo Padre no Discurso Inaugural de nossa Conferência:
“percebe-se um certo enfraquecimento da vida cristã no conjunto da
sociedade e do próprio pertencimento à Igreja” 35.
110. Constatamos o escasso acompanhamento dado aos fiéis leigos em suas
tarefas de serviço à sociedade, particularmente quando assumem
responsabilidades nas diversas estruturas de ordem temporal. Percebemos
uma evangelização com pouco ardor e sem novos métodos e expressões, uma
ênfase no sacramentalismo sem o conveniente caminho de formação,
descuidando de outras tarefas pastorais. De igual forma, preocupa-nos
uma espiritualidade individualista. Verificamos, deste modo, uma
mentalidade relativista no ético e no religioso, a falta de aplicação
criativa do rico patrimônio que constitui a Doutrina Social da Igreja e,
em certas ocasiões uma compreensão limitada do caráter secular que
constitui a identidade própria e específica dos fiéis leigos.
111. Na evangelização, na catequese e, em geral, na pastoral, persistem
também linguagens pouco significativas para a cultura atual e em
particular, para os jovens. Muitas vezes as linguagens utilizadas
parecem não levar em consideração a mutação dos códigos existencialmente
relevantes nas sociedades inoculadas pela pós-modernidade e marcadas por
um amplo pluralismo social e cultural. As mudanças culturais dificultam
a transmissão da Fé por parte da família e da sociedade.
Frente a isso, não se vê uma presença importante da Igreja na geração de
cultura, de modo especial no mundo universitário e nos meios de
comunicação.
112. O número insuficiente de sacerdotes e sua não eqüitativa
distribuição impossibilitam que muitíssimas comunidades possam
participar na celebração da Eucaristia. A isto se acrescenta a relativa
escassez de vocações ao ministério e à vida consagrada. Falta espírito
missionário em membros do clero, inclusive em sua formação. Muitos
católicos vivem e morrem sem assistência da Igreja, à qual pertencem
pelo batismo. Enfrentam-se dificuldades para assumir a sustentação
econômica das estruturas pastorais. Falta solidariedade na comunhão de
bens no interior das igrejas locais e entre elas. Em muitas das nossas
Igrejas locais não se assume suficientemente a pastoral penitenciária,
nem a pastoral de menores infratores e em situações de risco. É
insuficiente o acompanhamento pastoral para os migrantes e itinerantes.
Faz falta uma sólida estrutura de formação permanente nos fiéis, de
outros agentes de pastoral e de uma evangelização mais inculturada em
todos os níveis, particularmente nas culturas indígenas e
afro-americanas. Alguns movimentos eclesiais nem sempre se integram
adequadamente na pastoral paroquial e diocesana; por sua vez, algumas
estruturas eclesiais não são suficientemente abertas para acolhê-los.
113. Nas últimas décadas vemos com preocupação, por um lado, que
numerosas pessoas perdem o sentido transcendental de suas vidas e
abandonam as práticas religiosas e, por outro lado, que um número
significativo de católicos estão abandonando a Igreja para entrar em
outros grupos religiosos. Ainda que este seja um problema real em todos
os países latino-americanos e caribenhos, não existe homogeneidade no
que se refere a suas dimensões e sua diversidade.
114. Dentro do novo pluralismo religioso em nosso continente, não se tem
diferenciado suficientemente os cristãos que pertencem a outras igrejas
ou comunidades eclesiais, tanto por sua doutrina como por suas atitudes,
dos que fazem parte da grande diversidade de grupos cristãos (inclusive
pseudo-cristãos) que se tem instalado entre nós. Isto porque não é
adequado englobar a todos em uma só categoria de análise, nem chama-los
simplesmente de “seitas”. Muitas vezes não é fácil o diálogo ecumênico
com grupos cristãos que atacam a Igreja Católica com insistência.
115. Reconhecemos que, muitas vezes, os católicos tem se afastado do
Evangelho, que requer um estilo de vida mais simples, austero e
solidário, mais fiel à verdade e à caridade, como também nos tem faltado
valentia, persistência e docilidade à graça de prosseguir a renovação
iniciada pelo Concílio Vaticano II, impulsionada pelas Conferências
Gerais anteriores, e para assegurar o rosto latino-americano e caribenho
de nossa Igreja. Reconhecemo-nos como comunidade de pobres pecadores,
mendicantes da misericórdia de Deus, congregada, reconciliada, unida e
enviada pela força da Ressurreição de seu Filho e a graça de conversão
do Espírito Santo.
SEGUNDA PARTE
A VIDA DE JESUS CRISTO NOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS
CAPÍTULO 3
A ALEGRIA DE SERMOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS PARA ANUNCIAR O EVANGELHO DE
JESUS CRISTO
116. Neste momento, com incertezas no coração, perguntamo-nos com Tomé:
“Como vamos saber o caminho?” (Jo. 14, 5). Jesus nos responde com uma
proposta provocadora: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo. 14,
6). Ele é o verdadeiro caminho para o Pai., quem tanto amou ao mundo que
deu a seu Filho único, para que todo aquele que nele creia tenha a vida
eterna (cf. Jo. 3, 16). Esta é a vida eterna: “que te conheçam a ti o
único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo teu enviado” (Jo. 17, 3). A fé
em Jesus como o Filho do Pai é a porta de entrada para a Vida. Como
discípulos de Jesus, confessamos nossa fé com as palavras de Pedro:
“Tuas palavras dão vida eterna” (Jo 6,68); “Tu és o Messias, o Filho do
Deus vivo” (Mt. 16, 16).
117. Jesus é o Filho de Deus, a Palavra feito carne (cf. Jo. 1, 14),
verdadeiro Deus e verdadeiro homem, prova do amor de Deus aos homens.
Sua vida é uma entrega radical de si mesmo a favor de todas as pessoas,
consumada definitivamente em sua morte e ressurreição. Por ser o
Cordeiro de Deus, Ele é o Salvador. Sua ressurreição possibilita a
superação do pecado e a vida nova para toda a humanidade. n’Ele, o Pai
se faz presente, porque quem conhece o Filho conhece o Pai (cf. Jo. 14,
7).
118. Como discípulos de Jesus reconhecemos que Ele é o primeiro e maior
evangelizador enviado por Deus (cf. Lc. 4, 44) e, ao mesmo tempo, o
Evangelho de Deus (cf. Rm. 1, 3). Cremos e anunciamos “a boa nova de
Jesus, Messias, Filho de Deus” (Mc. 1, 1). Como filhos obedientes á voz
do Pai queremos escutar a Jesus (cf. Lc. 9, 35) porque Ele é o único
Mestre (cf. Mt. 23, 8). Como seus discípulos sabemos que suas palavras
são Espírito e Vida (cf. Jo. 6, 63. 68). Com a alegria da fé somos
missionários para proclamar o Evangelho de Jesus Cristo e, nele, a boa
nova da dignidade humana, da vida, da família, do trabalho, da ciência e
da solidariedade com a criação.
3.1. A boa nova da dignidade humana
119. Bendizemos a Deus pela dignidade da pessoa humana, criada a sua
imagem e semelhança. Ele nos criou livres e nos fez sujeitos de direitos
e deveres em meios à criação. Agradecemos-lhe por nos associar ao
aperfeiçoamento do mundo, dando-nos inteligência e capacidade para amar;
pela dignidade, que recebemos também com a tarefa e o dever de proteger,
cultivar e promover. Bendizemos a Deus pelo dom da fé que nos permite
viver em aliança com Ele até o momento de compartilhar a vida eterna.
Bendizemos a Deus por nos fazer suas filhas e filhos em Cristo, por nos
haver redimido com o preço de seu sangue e pelo relacionamento
permanente que estabelece conosco, que é fonte de nossa dignidade
absoluta, inegociável e inviolável. Se o pecado deteriorou a imagem de
Deus no homem e feriu sua condição, a boa nova, que é Cristo, o redimiu
e o restabeleceu na graça (cf. Rm. 5, 12-21).
120. Louvamos a Deus pelos homens e mulheres da América Latina e do
Caribe que, movidos por sua fé, tem trabalhado incansavelmente na defesa
da dignidade da pessoa humana, especialmente dos pobres e
marginalizados. Em seu testemunho, levado até a entrega total,
resplandece a dignidade do ser humano.
3.2 A boa nova da vida
121. Louvamos a Deus pelo dom maravilhoso da vida e por aqueles que a
honram e a dignificam ao colocá-la a serviço dos demais; pelo espírito
alegre de nossos povos que amam a música, a dança, a poesia, a arte, o
esporte e cultivam uma firme esperança em meio a problemas e lutas.
Louvamos a Deus porque, sendo nós pecadores, Ele nos mostrou seu amor
reconciliando-nos consigo pela morte de seu Filho na cruz. Louvamos a
Deus porque Ele continua derramando seu amor em nós pelo Espírito Santo
e nos alimentando com a Eucaristia, pão da vida (cf. Jo. 6, 35). A
Encíclica “Evangelho da Vida”, de João Paulo II, ilumina o grande valor
da vida humana a qual devemos cuidar e pela qual continuamente devemos
louvar a Deus.
122. Bendizemos ao Pai pelo dom de seu Filho Jesus Cristo “rosto humano
de Deus e rosto divino do homem” 36. “Na realidade, tão só o mistério do
Verbo encarnado explica verdadeiramente o mistério do homem. Cristo, na
própria revelação do mistério do Pai e de seu amor, manifesta plenamente
o homem ao próprio homem e descobre sua altíssima vocação” 37.
123. Bendizemos ao Pai porque, mesmo entre dificuldades e incertezas,
todo homem aberto sinceramente à verdade e ao bem comum, pode chegar a
descobrir na lei natural escrita em seu coração (cf. Rm. 2, 14-150, o
valor sagrado da vida humana desde seu início até seu fim e afirmar o
direito de cada ser humano de ver respeitado totalmente este seu bem
primário. “A convivência humana e a própria comunidade política” (EV, 2)
se fundamenta no reconhecimento desse direito.
124. Diante de uma vida sem sentido, a comunhão trinitária nos revela a
vida íntima de Deus em seu mistério mais elevado. É tal o amor de Deus,
que faz do homem, peregrino neste mundo, sua morada: “Viremos a ele e
viveremos nele” (Jo. 14, 23). Diante do desespero de um mundo sem Deus,
que só vê na morte o final definitivo da existência, Jesus nos oferece a
ressurreição e a vida eterna na qual deus será tudo em todos (cf. 1ª
Cor. 15, 28). Diante da idolatria dos bens terrenos, Jesus apresenta a
vida em Deus como valor supremo: “de que vale alguém ganhar o mundo e
perder a sua vida?” (Mc.8, 36) 38.
125. Diante do subjetivismo hedonista, Jesus propõe entregar a vida para
ganhá-la, porque “quem aprecia sua vida terrena, perdê-la-á” (Jo. 12,
25). É próprio do discípulo de Jesus gastar sua vida como sal da terra e
luz do mundo. Diante do individualismo, Jesus convoca a viver e caminhar
juntos. A vida cristã só se aprofunda e se desenvolve na comunhão
fraterna. Jesus nos disse “um é seu mestre e todos vocês são irmãos”
(Mt. 23, 8). Diante da despersonalização, Jesus ajuda a construir
identidades integradas.
126. A própria vocação, a própria liberdade e a própria originalidade
são como dons de Deus para a plenitude e a serviço do mundo.
127. Diante da exclusão, Jesus defende os direitos dos fracos e a vida
digna de todo ser humano. De seu Mestre, o discípulo tem aprendido a
lutar contra toda forma de desprezo da vida e de exploração da pessoa
humana 39. Só o Senhor é autor e dono da vida. O ser humano, sua imagem
vivente, é sempre sagrado, desde a sua concepção até a sua morte
natural; em todas as circunstâncias e condições de sua vida. Diante das
estruturas de morte, Jesus faz presente a vida plena. “Eu vim para dar
vida aos homens e para que a tenham em abundância” (Jo. 10, 10). Por
isso, cura os enfermos, expulsa os demônios e compromete os discípulos
na promoção da dignidade humana e de relacionamentos sociais fundados na
justiça.
128. Diante da natureza ameaçada, Jesus que conhecia o cuidado do Pai
pelas criaturas que Ele alimenta e embeleza (cf Lc 12,28), convoca-nos a
cuidar da terra para que ela ofereça abrigo e sustento a todos os homens
(cf. Gn. 1, 29; 2, 15).
3.3 A boa nova da
família
129. Proclamamos a alegria do valor de nossas famílias na América
Latina. O Papa Bento XVI afirma que a família é “patrimônio da
humanidade, ela constitui um dos tesouros mais importantes dos povos
latino-americanos e do Caribe. Ela tem sido e é escola da fé, palestra
de valores humanos e cívicos, lar em que a vida humana nasce e se acolhe
generosa e responsavelmente... A família é insubstituível para a
serenidade pessoal e para a educação de seus filhos” 40.
130. Agradecemos a Cristo que nos revela que “Deus é amor e vive em si
mesmo um mistério pessoal de amor” 41 e, optando por viver em família em
meio a nós, eleva-a à dignidade de ‘Igreja Doméstica’.
131. Bendizemos a Deus por haver criado o ser humano, homem e mulher,
ainda que hoje se queira confundir esta verdade: “Criou Deus os seres
humanos a sua imagem; a imagem de Deus os criou, homem e mulher os
criou” (Gn. 1, 27). Pertence à natureza humana que o homem e a mulher
busquem um no outro sua reciprocidade e complementaridade.
132.O fato de sermos amados por Deus enche-nos de alegria. O amor humano
encontra sua plenitude quando participa do amor divino, do amor de Jesus
que se entrega solidariamente por nós em seu amor pleno até o fim (cf.
Jo. 13, 1; 15, 9). O amor conjugal é a doação recíproca entre um homem e
uma mulher, os esposos: é fecundo, fiel e exclusivo até a morte, aberto
á vida e á educação dos filhos, assemelhando-se ao amor fecundo da
Santíssima Trindade 42. O amor conjugal é assumido no Sacramento do
Matrimônio para significar a união de Cristo com sua Igreja. Por isso,
na graça de Jesus Cristo ele encontra sua purificação, alimento e
plenitude (cf. Ef. 5, 23-33).
133. No seio de uma família, a pessoa descobre os motivos e o caminho
para pertencer á família de Deus. Dela, recebemos a vida que é a
primeira experiência do amor e da fé. O grande tesouro da educação dos
filhos na fé consiste na experiência de uma vida familiar que recebe a
fé, conserva-a, celebra-a, transmite-a e dá testemunha dela. Os pais
devem tomar nova consciência de sua alegre e irrenunciável
responsabilidade na formação integral de seus filhos.
134. Deus ama nossas famílias, apesar de tantas feridas e divisões. A
presença invocada de Cristo através da oração em família nos ajuda a
superar os problemas, a curar as feridas e abre caminhos de esperança.
Muitos vazios de lar podem ser atenuados através de serviços prestados
pela comunidade eclesial, família de famílias.
3.4 A boa nova da atividade humana
3.4.1 O trabalho
135. Louvamos a Deus porque na beleza da criação, que é obra de suas
mãos, resplandece o sentido do trabalho como participação de sua tarefa
criadora e como serviço aos irmãos e irmãs. Jesus, o carpinteiro (cf.
Mc. 6, 3), dignificou o trabalho e o trabalhador e recorda que o
trabalho não é um mero apêndice da vida, mas que “constitui uma dimensão
fundamental da existência do homem na terra”43, pela qual o homem e a
mulher se realizam como seres humanos 44. O trabalho garante a dignidade
e a liberdade do homem, e é provavelmente “a chave essencial de toda ‘a
questão social’” 45.
136. Damos graças a Deus porque sua palavra nos ensina que, apesar do
cansaço que muitas vezes acompanha o trabalho, o cristão sabe que este,
unido à oração, serve não só para o progresso terreno, mas também para a
santificação pessoal e a construção do Reino de Deus 46. O desemprego, a
injusta remuneração pelo trabalho e o viver sem querer trabalhar são
contrários ao desígnio de Deus. O discípulo e o missionário, respondendo
a este desígnio, promovem a dignidade do trabalhador e do trabalho, o
justo reconhecimento de seus direitos e de seus deveres, desenvolvem a
cultura do trabalho e denunciam toda injustiça. A guarda do domingo,
como dia de descanso, da família e do culto ao Senhor, garante o
equilíbrio entre trabalho e repouso. Cabe à comunidade criar estruturas
que ofereçam um trabalho ás pessoas deficientes, segundo suas
possibilidades 47.
137. Louvamos a Deus pelos talentos, pelo estudo e pela decisão de
homens e mulheres para iniciar empreendimentos geradores de trabalho e
produção, que elevam a condição humana e o bem-estar da sociedade. A
atividade empresarial é boa e necessária quando respeita a dignidade do
trabalhador, o cuidado do meio-ambiente e se ordena o bem comum.
Perverte-se ao visar só o lucro, atenta contra os direitos dos
trabalhadores e a justiça.
3.4.2 A ciência e a tecnologia
138. Louvamos a Deus por aqueles que cultivam as ciências e a tecnologia
oferecendo uma imensa quantidade de bens e valores culturais que tem
contribuído, entre outras coisas, para prolongar a expectativa de vida e
sua qualidade. No entanto, a ciência e a tecnologia não têm as respostas
às grandes interrogações da vida humana. A resposta última às questões
fundamentais do homem só pode vir de uma razão e ética integrais,
iluminadas pela revelação de Deus. Quando a verdade, o bem e a beleza se
separam; quando a pessoa humana e suas exigências fundamentais não
constituem o critério ético, a ciência e a tecnologia voltam-se contra o
homem que as criou.
139. Hoje em dia as fronteiras traçadas entre as ciências se desvanecem.
Com este modo de compreender o diálogo, sugere-se a idéia de que nenhum
conhecimento é completamente autônomo. Esta situação abre um terreno de
oportunidades à teologia para interagir com as ciências sociais.
3.5. A boa nova do destino universal dos bens e da ecologia
140. Junto com os povos originários da América, louvamos ao Senhor que
criou o universo como espaço para a vida e a convivência de todos seus
filhos e filhas e no-los deixou como sinal de sua bondade e de sua
beleza. A criação também é caridade, manifestação do amor providente de
Deus; foi-nos entregue para que cuidemos dela e a transformemos em fonte
de vida digna para todos. Ainda que hoje se tenha generalizado uma maior
valorização da natureza, percebemos claramente de quantas maneiras o
homem ameaça e inclusive destrói seu ‘habitat’. “A irmã nossa mãe terra”
é nossa casa comum 48 e o lugar da aliança de Deus com os seres humanos
e com toda a criação. Desatender as mútuas relações e o equilíbrio que o
próprio Deus estabeleceu entre as realidades criadas, é uma ofensa ao
Criador, um atentado contra a biodiversidade e, definitivamente, contra
a vida. O discípulo e missionário, a quem Deus encarregou a criação,
deve contemplá-la, cuidar dela e utilizá-la, respeitando sempre a ordem
dada pelo Criador.
141. A melhor forma de respeitar a natureza é promover uma ecologia
humana aberta à transcendência que, respeitando a pessoa e a família, os
ambientes e as cidades, segue a indicação paulina de recapitular as
coisas em Cristo e de louvar com Ele ao Pai (cf. 1ª Cor. 3, 21-23). O
Senhor entregou o mundo para todos, para os das gerações presentes e
futuras. O destino universal dos bens exige a solidariedade com a
geração presente e as futuras. Visto que os recursos são cada vez
mais limitados, seu uso deve estar regulado segundo um princípio de
justiça distributiva, respeitando o desenvolvimento sustentável.
3.6 O continente da esperança e do amor
142. Como discípulos e missionários agradecemos a Deus porque a maioria
dos latino-americanos e caribenhos estão batizados. A providência de
Deus nos confiou o precioso patrimônio de pertencer á Igreja pelo dom do
batismo que nos tem feito membros do Corpo de Cristo, povo de Deus
peregrino em terra americanas há mais de quinhentos anos. Alenta nossa
esperança a multidão de nossas crianças, os ideais de nossos jovens e o
heroísmo de muitas de nossas famílias que, apesar das crescentes
dificuldades, seguem sendo fiéis ao amor.. Agradecemos a Deus pela
religiosidade de nossos povos que resplandece na devoção ao Cristo
sofredor e a sua Mãe bendita, a veneração aos Santos com suas festas
patronais, no amor ao Papa e aos demais pastores, no amor à Igreja
universal como grande família de Deus que nunca pode nem deve deixar
seus próprios filhos sós ou na miséria
143. Reconhecemos o dom da vitalidade da Igreja que peregrina na América
Latina, sua opção pelos pobres, suas paróquias, suas comunidades, suas
associações, seus movimentos eclesiais, novas comunidades e seus
múltiplos serviços sociais e educativos. Louvamos ao Senhor por ter
feito deste continente um espaço de comunhão e comunicação de povos e
culturas indígenas. Também agradecemos o protagonismo que vão adquirindo
setores que foram deslocados: mulheres,
indígenas, afro-descendentes, os homens do campo e habitantes de áreas
marginais das grandes cidades. Toda a vida de nossos povos fundada em
Cristo e redimida por Ele pode olhar para o futuro com esperança e
alegria, acolhendo o chamado do Papa Bento XVI: “só da Eucaristia
brotará a civilização do amor que transformará a América latina e o
Caribe para que, além de ser o continente da esperança, seja também o
continente do amor!” 50.
CAPÍTULO 4
A VOCAÇÃO DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS À SANTIDADE
4.1 Chamados ao seguimento de Jesus Cristo
144. Por assim dizer, Deus Pai sai de si, para nos chamar a participar
de sua vida e de sua glória. Mediante Israel, povo que fez seu, Deus nos
revela seu projeto de vida. Cada vez que Israel procurou e necessitou de
seu Deus, sobretudo nas desgraças nacionais, teve uma singular
experiência de comunhão com Ele, que o fazia partícipe de sua verdade,
sua vida e sua santidade. Por isso, não demorou em testemunhar que seu
Deus – diferentemente dos ídolos – é o “Deus vivo” (Dt. 5, 26) que o
liberta dos opressores (cf. Ex. 3, 7-10), que perdoa incansavelmente
(cf. Ec. 34, 6; Eclo. 2, 11) e que restitui a salvação perdida quando o
povo, envolvido “nas redes da morte” (Sl. 116, 3), dirige-se a Ele
suplicante (Cf. Is. 38, 16). Deste Deus – que é seu Pai – Jesus afirmará
que “não é um Deus de mortos, mas de vivos” (Mc. 12, 27).
145. Nestes últimos tempos, Ele nos tem falado por meio de Jesus seu
Filho (Hb 1,1ss), com quem chega a plenitude dos tempos (cf. Gl. 4, 4).
Deus, que é Santo e nos ama, nos chama por meio de Jesus a ser santos
(cf. Ef. 1, 4-5).
146. O chamado que Jesus, o Mestre faz, implica numa grande novidade. Na
antiguidade, os mestres convidavam seus discípulos a se vincular com
algo transcendente e os mestres da Lei propunham a adesão à Lei de
Moisés. Jesus convida a nos encontrar com Ele e a que nos vinculemos
estreitamente a Ele porque é a fonte da vida (cf. Jo. 15, 1-5) e só Ele
tem palavra de vida eterna (cf. Jo. 6, 68). Na convivência cotidiana com
Jesus e na confrontação com os seguidores de outros mestres, os
discípulos logo descobrem duas coisas originais no relacionamento com
Jesus. Por um lado, não foram eles que escolheram seu mestre. Foi Cristo
quem os escolheu. E por outro lado, eles não foram convocados para algo
(purificar-se, aprender a Lei...), mas para Alguém, escolhidos para se
vincular intimamente a sua pessoa (cf. Mc. 1, 17; 2, 14). Jesus os
escolheu para “que estivessem com Ele e para enviá-los a pregar” (Mc. 3,
14), para que o seguissem com a finalidade de “ser d’Ele” e fazer parte
“dos seus” e participar de sua missão. O discípulo experimenta que a
vinculação íntima com Jesus no grupo dos seus é participação da Vida
saída das entranhas do Pai, é se formar para assumir seu estilo de vida
e suas motivações (cf. Lc. 6, 40b), viver seu destino e assumir sua
missão de fazer novas todas as coisas.
147. Com a parábola da Videira e dos ramos (cf. Jo. 15, 1-8), Jesus
revela o tipo de vínculo que Ele oferece e que espera dos seus. Não quer
um vínculo como “servos” (cf. Jo. 8, 33-36), porque “o servo não conhece
o que faz seu senhor” (Jo. 15, 15). O servo não tem entrada na casa de
seu amo, muito menos em sua vida. Jesus quer que seu discípulo se
vincule a ele como “amigo” e como “irmão”. O “amigo” ingressa em sua
Vida, fazendo-a própria. O amigo escuta a Jesus, conhece ao Pai e faz
fluir sua Vida (Jesus Cristo) na própria existência (cf. Jo 15,14),
marcando o relacionamento com todos (cf. Jo. 15, 12). O “irmão” de Jesus
(cf. Jo. 20, 17) participa da vida do Ressuscitado, Filho do Pai
celestial, porque Jesus e seu discípulo compartilham a mesma vida que
procede do Pai: Jesus, por natureza (cf. Jo. 5, 26; 10, 30) e o
discípulo, por participação (cf. Jo. 10, 10). A conseqüência imediata
deste tipo de vínculo é a condição de irmãos que os membros de sua
comunidade adquirem.
148. Jesus faz dos discípulos seus familiares, porque compartilha com
eles a mesma vida que procede do Pai e lhes pede, como discípulos, uma
união íntima com Ele, obediência à Palavra do Pai, para produzir frutos
de amor em abundância. Dessa forma o testemunho de São João no prólogo
de seu Evangelho:”A todos aqueles que crêem em seu nome, deu-lhes a
capacidade para serem filhos de Deus”, e são filhos de Deus que “não
nascem por via de geração humana, nem porque o homem o deseje, mas sim
nascem de Deus” (Jo. 1, 12-13).
149. Como discípulos e missionários, somos chamados a intensificar nossa
resposta de fé e a anunciar que Cristo redimiu todos os pecados e males
da humanidade, “no aspecto mais paradóxico de seu mistério, a hora da
cruz. O grito de Jesus: “Deus, meu, Deus, meu, por que me abandonaste?”
(Mc. 15, 34) não revela a angústia de um desesperado, mas a oração do
Filho que oferece a sua vida ao Pai no amor para a salvação de todos”
51.
150. A resposta a seu chamado exige entrar na dinâmica do Bom samaritano
(cf. Lc. 10, 29-37), que nos dá o imperativo de nos fazer próximos,
especialmente com o que sofre, e gerar uma sociedade sem excluídos,
seguindo a prática de Jesus que come com publicanos e pecadores (cf. Lc.
5, 29-32), que acolhe os pequenos e as crianças (cf. Mc. 10, 13-16), que
cura os leprosos (cf. Mc. 1, 40-45), que perdoa e liberta a mulher
pecadora (cf. Lc. 7, 36-49; Jo. 8, 1-11), que fala com a Samaritana (cf.
Jo. 4, 1-26).
4.2 Parecidos com o Mestre
151. A admiração pela pessoa de Jesus, seu chamado e seu olhar de amor
despertam uma resposta consciente e livre desde o mais íntimo do coração
do discípulo, uma adesão de toda sua pessoa ao saber que Cristo o chama
por seu nome (cf. Jo. 10, 3). É um “sim” que compromete radicalmente a
liberdade do discípulo a se entregar a Jesus, Caminho, Verdade e Vida
(cf. Jo. 14, 6). É uma resposta de amor a quem o amou primeiro “até o
extremo” (cf. Jo. 13, 1). A resposta do discípulo amadurece neste amor
de Jesus: “Te seguirei por onde quer que vás” (Lc. 9, 57).
152. O Espírito Santo, com o qual o Pai nos presenteia, identifica-nos
com Jesus-Caminho, abrindo-nos a seu mistério de salvação para que
sejamos seus filhos e irmãos uns dos outros; identifica-nos com
Jesus-Verdade, ensinando-nos a renunciar a nossas mentiras e ambições
pessoais, e nos identifica com Jesus-Vida, permitindo-nos abraçar seu
plano de amor e nos entregar para que outros “tenham vida n’Ele”.
153. Para ficar parecido verdadeiramente com o Mestre é necessário
assumir a centralidade do Mandamento do amor, que Ele quis chamar seu e
novo: “Amem-se uns aos outros, como eu os amei” (Jo. 15, 12). Este amor,
com a medida de Jesus, com total dom de si, além de ser o diferencial de
cada cristão, não pode deixar de ser a característica de sua Igreja,
comunidade discípula de Cristo, cujo testemunho de caridade fraterna
será o primeiro e principal anúncio, “todos reconhecerão que sois meus
discípulos” (Jo. 13, 35).
154. No seguimento de Jesus Cristo, aprendemos e praticamos as
bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor e
obediência filial ao Pai, sua compaixão entranhável frente à dor humana,
sua proximidade aos pobres e aos pequenos, sua fidelidade à missão
encomendada, seu amor serviçal até a doação de sua vida. Hoje,
contemplamos a Jesus Cristo tal como os Evangelhos nos transmitiram para
conhecer o que Ele fez e para discernir o que nós devemos fazer nas
atuais circunstâncias.
155. Identificar-se com Jesus Cristo é também compartilhar seu destino:
“Onde eu estiver, aí estará também o meu servo” (Jo. 12, 26). O cristão
vive o mesmo destino do Senhor, inclusive até a cruz: “Se alguém quer
vir após mim, negue-se a si mesmo, carregue a sua cruz e me siga” (Mc.
8, 34). Estimulanos o testemunho de tantos missionários e mártires de
ontem e de hoje em nossos povos que tem chegado a compartilhar a cruz de
Cristo até a entrega de sua vida.
156. A Virgem Maria é a imagem esplêndida da conformação ao projeto
trinitário que se cumpre em Cristo. Desde a sua Concepção Imaculada até
sua Assunção, recorda-nos que a beleza do ser humano está toda no
vínculo do amor com a Trindade, e que a plenitude de nossa liberdade
está na resposta positiva que lhe damos.
157. Na América Latina e no Caribe inumeráveis cristãos procuram buscar
a semelhança do Senhor ao encontrá-lo na escuta orante da Palavra, no
receber seu perdão no Sacramento da Reconciliação, e sua vida na
celebração da Eucaristia e dos demais sacramentos, na entrega solidária
aos irmãos mais necessitados e na vida de muitas comunidades que
reconhecem com alegria o Senhor em meio a eles.
4.3 Enviado a anunciar o Evangelho do Reino da vida
158. Jesus, com palavras e ações e com sua morte e ressurreição inaugura
no meio de nós o Reino de vida do Pai,que alcançará sua plenitude num
lugar onde não haverá mais “morte, nem luto, nem pranto, nem dor, porque
tudo o que é antigo desaparecerá” (Ap. 21, 4). Durante sua vida e com
sua morte na cruz, Jesus permanece fiel a seu Pai e a sua vontade (cf.
Lc. 22, 42). Durante seu ministério, os discípulos não foram capazes de
compreender que em um homem como Ele, radicalmente coerente (cf. Mc. 12,
14), o sentido de sua vida selava o sentido de sua morte. Muito menos
podiam compreender que, segundo o desígnio do Pai, a morte do Filho era
fonte de vida fecunda para todos (cf. Jo. 12, 23-24). O mistério pascal
de Jesus é o ato de obediência e amor ao Pai e de entrega por todos seus
irmãos. Com esse ato, o Messias doa plenamente aquela vida que oferecia
nos caminhos e aldeias da Palestina. Por seu sacrifício voluntário, o
Cordeiro de Deus oferece sua vida nas mãos do Pai (cf. Lc. 23, 46), que
o faz salvação “para nós” (1ª Cor. 1, 30). Pelo mistério pascal, o Pai
sela a nova aliança e gera um novo povo que tem por fundamento seu amor
gratuito de Pai que salva.
159. Ao chamar aos seus para que o sigam, Jesus lhes dá uma missão muito
precisa: anunciar o evangelho do Reino a todas as nações (cf. Mt. 28,
19; Lc. 24, 46-48). Por isto, todo discípulo é missionário, pois Jesus o
faz partícipe de sua missão ao mesmo tempo que o vincula a ele como
amigo e irmão. Desta maneira, como ele é testemunha do mistério do Pai,
assim os discípulos são testemunhas da morte e ressurreição do Senhor
até que ele retorne. Cumprir esta missão não é uma tarefa opcional, mas
parte integrante da identidade cristã, porque é a difusão testemunhal da
própria vocação.
160. Quando cresce no cristão a consciência de se pertencer a Cristo, em
razão da gratuidade e alegria que produz, cresce também o ímpeto de
comunicar a todos o dom desse encontro. A missão não se limita a um
programa ou projeto, mas em compartilhar a experiência do acontecimento
do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa a pessoa,
de comunidade a comunidade e da Igreja a todos os confins do mundo (cf.
At. 1, 8).
161. Bento XVI nos recorda que: “o discípulo, fundamentado assim na
rocha da Palavra de Deus, sente-se motivado a levar a Boa Nova da
salvação a seus irmãos. Discipulado e missão são como os dois lados de
uma mesma moeda: quando o discípulo está enamorado de Cristo, não pode
deixar de anunciar ao mundo que só Ele salva (cf. At. 4, 12). Na
realidade, o discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança,
não há amor, não há futuro” 52. Esta é a tarefa essencial da
evangelização, que inclui a opção preferencial pelos pobres, a promoção
humana integral e a autêntica libertação cristã.
162. Jesus saiu ao encontro de pessoas em situações muito diferentes:
homens e mulheres, pobres e ricos, judeus e estrangeiros, justos e
pecadores... convidando-os a segui-los. Hoje, segue convidando a
encontrar n’Ele o amor do Pai. Por isto mesmo, o discípulo missionário
há de ser um homem ou uma mulher que torna visível o amor misericordioso
do Pai, especialmente aos pobres e pecadores.
163. Ao participar desta missão, o discípulo caminha para a santidade.
Vivê-la na missão o conduz ao coração do mundo. Por isso, a santidade
“não é uma fuga para o intimismo ou para o individualismo religioso,
muito menos um abandono da realidade urgente dos grandes problemas
econômicos, sociais e políticos da América Latina e do mundo e, muito
menos, uma fuga da realidade para um mundo exclusivamente espiritual”
53.
4.4 Animados pelo Espírito Santo
164. No começo de sua vida pública e depois de seu batismo, Jesus foi
conduzido pelo Espírito Santo ao deserto para se preparar para a sua
missão (cf. Mc. 1, 12-13) e, através da oração e do jejum, discerniu a
vontade do Pai e venceu as tentações de seguir outros caminhos. Esse
mesmo Espírito acompanhou Jesus durante toda sua vida (cf. At. 10, 38).
Uma vez ressuscitado, Ele comunicou seu Espírito vivificado aos seus
(cf. At. 2, 33).
165. A partir de Pentecostes, a Igreja experimenta de imediato fecundas
irrupções do Espírito, vitalidade divina que se expressa em diversos
dons e carismas (cf. 1ª Cor. 12, 1-11) e variados ofícios que edificam a
Igreja e servem à evangelização (cf. 1ª Cor. 12, 28-29). Através destes
dons, a Igreja propaga o ministério salvífico do Senhor até que Ele de
novo se manifeste no final dos tempos (cf. 1ª Cor. 1, 6-7). O Espírito
na Igreja forja missionários decididos e valentes como Pedro (cf. At. 4,
13) e Paulo (cf. At. 13, 9),, indica os lugares que devem ser
evangelizados e escolhe aqueles que devem fazê-lo (cf. At. 13, 2).
166. A Igreja, enquanto marcada e selada “com Espírito Santo e fogo”
(Mt. 3, 110, continua a obra do Messias, abrindo para o crente as portas
da salvação (cf. 1ª Cor. 6, 110). Paulo afirma isso desse modo: “Vocês
são uma carta de cristo redigida por nosso ministério e escrita não com
tinta, mas com o Espírito do deus vivo” (2ª Cor. 3, 3). O mesmo e único
Espírito guia e fortalece a Igreja no anúncio da Palavra, na celebração
da fé e no serviço da caridade até que o Corpo de Cristo alcance a
estatura de sua Caneca (cf. Ef. 4, 15-16). Deste modo, pela eficaz
presença de seu Espírito, até a parusia Deus assegura sua proposta de
vida para homens e mulheres de todos os tempos e lugares, impulsionando
a transformação da história e seus dinamismos. Portanto, o Senhor
continua derramando hoje sua Vida pelo trabalho da Igreja que, com
“a força do Espírito Santo enviado desde o céu” (1ª Pe. 1, 12), continua
a missão que Jesus Cristo recebeu de seu pai (cf. Jo. 20, 21).
167. Jesus nos transmitiu as palavras de seu Pai e é o Espírito que
recorda à Igreja as palavras de Cristo (cf. Jo. 14, 26). Desde o
princípio, os discípulos haviam sido formados por Jesus no Espírito
Santo (cf. At. 1, 2) que é, na Igreja, o Mestre interior que conduz ao
conhecimento da verdade total formando discípulos e missionários. Esta é
a razão pela qual os seguidores de Jesus devem se deixar guiar
constantemente pelo Espírito (cf. Gl. 5, 25), e tornar a paixão pelo Pai
e pelo Reino sua própria paixão: anunciar a Boa Nova aos pobres, curar
os enfermos, consolar os tristes, libertar os cativos e anunciar a todos
o ano da graça do Senhor (cf. Lc. 4, 18-19).
168. Esta realidade se faz presente em nossa vida por obra do Espírito
Santo que também, através dos sacramentos, nos ilumina e vivifica. Em
virtude do Batismo e da Confirmação somos chamados a ser discípulos
missionários de Jesus Cristo e entramos na comunhão trinitária na
Igreja. Esta tem seu ponto alto na Eucaristia, que é princípio e projeto
de missão do cristianismo. “Assim, pois, a Santíssima Eucaristia conduz
a iniciação cristã a sua plenitude e é como o centro e fim de toda a
vida sacramental” 54.
CAPÍTULO 5
A COMUNHÃO DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS NA IGREJA
5.1 Chamados a viver em comunhão
169. Jesus, no início de seu ministério, escolhe os doze para viver em
comunhão com Ele (cf. Mc. 3, 14). Para favorecer a comunhão e avaliar a
missão, Jesus lhes pede: “Venham só a um lugar desabitado, para
descansar um pouco” (Mc. 6, 31-32. Em outras oportunidades Jesus passa
um tempo com eles para lhes explicar o mistério do Reino (cf. Mc. 4,11.
33-34). Jesus age da mesma maneira com o grupo dos setenta e dos
discípulos (cf. Lc 10,17-20). Ao que parece, o encontro a sós indica que
Jesus quer lhes falar ao coração (cf. Os. 2, 14). Também hoje o encontro
dos discípulos com Jesus na intimidade é indispensável para alimentar a
vida comunitária e a atividade missionária.
170. Os discípulos de Jesus são chamados a viver em comunhão com o Pai
(1º Jo. 1, 30 e com seu Filho morto e ressuscitado, na “comunhão no
Espírito Santo” (1ª Cor. 13, 13). O mistério da Trindade é a fonte, o
modelo e a meta do mistério da Igreja: “um povo reunido pela unidade do
Pai do Filho e do Espírito”, chamado em Cristo “como sacramento ou sinal
e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero
humano”55. A comunhão dos fiéis e das Igrejas locais do Povo de Deus se
sustenta na comunhão com a Trindade.
171. A vocação ao discipulado missionário é convocação à comunhão em sua
Igreja. Não há discipulado sem comunhão. Diante da tentação, muito
presente na cultura atual de ser cristãos sem Igreja e das novas buscas
espirituais individualistas, afirmamos que a fé em Jesus Cristo nos
chegou através da comunidade eclesial e ela “nos dá uma família, a
família universal de Deus na Igreja Católica. A fé nos liberta do
isolamento do eu, porque nos conduz à comunhão”56. Isto significa que
uma dimensão constitutiva do acontecimento cristão é o fato de pertencer
a uma comunidade concreta na qual podemos viver uma experiência
permanente de discipulado e de comunhão com os sucessores dos Apóstolos
e do Papa.
172. Ao receber a fé e o batismo, os cristãos acolhem a ação do Espírito
Santo que leva a confessar a Jesus como Filho de Deus e a chamar Deus
“Abba”. Como todos os batizados e batizadas da América Latina e do
Caribe “através do sacerdócio comum do Povo de Deus”57, somos chamados a
viver e a transmitir a comunhão com a Trindade, pois “a evangelização é
um chamado à participação da comunhão trinitária” 58.
173. Igual às primeiras comunidades de cristãos, hoje nos reunimos
assiduamente para “escutar o ensinamento dos apóstolos, viver unidos e
participar do partir do pão e nas orações” (At. 2, 42). A comunhão da
Igreja se nutre com o Pão da Palavra de Deus e com o Pão do Corpo de
Cristo. A Eucaristia, participação de todos no mesmo Pão de Vida e no
mesmo Cálice de Salvação, faz-nos membros do mesmo Corpo (cf. 1ª Cor.
10, 17). Ela é a fonte e o ponto mais alto da vida cristã 59, sua
expressão mais perfeita e o alimento da vida em comunhão. Na Eucaristia,
nutrem-se as novas relações evangélicas que surgem do fato de sermos
filhos e filhas do Pai e irmãos e irmãs em Cristo. A Igreja que a
celebra é “casa e escola de comunhão”60 onde os discípulos compartilham
a mesma fé, esperança e amor a serviço da missão evangelizadora.
174. A Igreja, como “comunidade de amor” 61 é chamada a refletir a
glória do amor de Deus que é comunhão e assim atrair as pessoas e os
povos para Cristo. No exercício da unidade desejada por Jesus, os homens
e mulheres de nosso tempo se sentem convocados e recorrem à formosa
aventura da fé. “Que também eles vivam unidos a nós para que o mundo
creia” (Jo. 17, 21). A Igreja cresce, não por proselitismo mas “por
‘atração’: como Cristo ‘atrai tudo a si’ com a força de seu amor” 62. A
Igreja “atrai” quando vive em comunhão, pois os discípulos de Jesus
serão reconhecidos se amarem uns aos outros como Ele nos amou (cf. Rm.
12, 4-13; Jo. 13, 34).
175. A Igreja peregrina vive antecipadamente a beleza do amor que se
realizará no final dos tempos na perfeita comunhão com Deus e com os
homens 63. Sua riqueza consiste em viver, já neste tempo, a “comunhão
dos santos”, ou seja, a comunhão nos bens divinos entre todos os membros
da Igreja, em particular entre os que peregrinam e os que já gozam da
glória 64. Constatamos que em nossa Igreja existem numerosos católicos
que expressam sua fé e seu pertencimento de forma esporádica,
especialmente através da piedade a Jesus Cristo, a Virgem e sua devoção
aos santos. Convidamos a esses a aprofundar sua fé e a participar mais
plenamente na vida da Igreja recordando-lhes que “em virtude do batismo,
estão chamados a ser discípulos e missionários em Jesus Cristo” 65.
176. A Igreja é comunhão no amor. Esta é sua essência através da qual é
chamada a ser reconhecida como seguidora de Cristo e servidora da
humanidade. O novo mandamento é o que une os discípulos entre si,
reconhecendo-se como irmãos e irmãs, obedientes ao mesmo Mestre, membros
unidos à mesma Cabeça e, por isso, chamados a cuidarem uns dos outros
(1ª Cor 13; Cl .3, 12-14).
177. A diversidade de carismas, ministérios e serviços abre o horizonte
para o exercício cotidiano da comunhão através da qual os dons do
Espírito são colocados à disposição dos demais para que circule a
caridade (cf. 1ª Cor. 12, 4-12). Cada batizado, na verdade, é portador
de dons que deve desenvolver em unidade e complementaridade com os dons
dos outros, a fim de formar o único Corpo de Cristo, entregue para a
vida do mundo. O reconhecimento prático da unidade orgânica e da
diversidade de funções assegurará maior vitalidade missionária e será
sinal e instrumento de reconciliação e paz para nossos povos. Cada
comunidade é chamada a descobrir e integrar os talentos escondidos e
silenciosos com os quais o espírito presenteia aos fiéis.
178. No povo de Deus “a comunhão e a missão estão profundamente unidas
entre si... a comunhão é missionária e a missão é para a comunhão”66.
Nas igrejas locais todos os membros do povo de Deus, segundo suas
vocações específicas, são convocados à santidade na comunhão e na
missão.
5.2 Lugares eclesiais para a comunhão
5.2.1 A diocese, lugar privilegiado da comunhão
179. A vida em comunidade é essencial à vocação cristã. O discipulado e
a missão sempre supõe o pertencimento a uma comunidade. Deus não quis
nos salvar isoladamente, mas formando um Povo 67. Este é um aspecto que
distingue a experiência da vocação cristã de um simples sentimento
religioso individual. Por isso a experiência de fé é sempre vivida em
uma Igreja local.
180. Reunida e alimentada pela Palavra e pela Eucaristia, a Igreja
Católica existe e se manifesta em cada Igreja local em comunidade com o
Bispo de Roma 68. Esta é, como afirma o Concílio “uma porção do povo de
Deus confiada a um bispo para que a apascente com seu presbitério” 69.
181. A Igreja local é totalmente Igreja, mas não é toda a Igreja. É a
realização concreta do mistério da Igreja Universal em um determinado
tempo e lugar. Para isso, ela deve estar em comunhão com as outras
igrejas locais e sob o pastoreio supremo do Papa, o bispo de Roma, que
preside todas as Igrejas.
182. O amadurecimento no seguimento de Cristo e a paixão por anunciá-lo
requerem que a Igreja local se renove constantemente em sua vida e ardor
missionário. Só assim pode ser, para todos os batizados, casa e escola
de comunhão, de participação e solidariedade. Em sua realidade social
concreta, o discípulo tem a experiência do encontro com Jesus Cristo
vivo, amadurece sua vocação cristã, descobre a riqueza e a graça de ser
missionário e anuncia a palavra com alegria.
183. A Diocese, em todas suas comunidades e estruturas, é chamada a ser
uma “comunidade missionária” 70. Cada Diocese necessita fortalecer sua
consciência missionária, saindo ao encontro daquele que ainda não crêem
em cristo no espaço de seu próprio território e responder adequadamente
aos grandes problemas da sociedade na qual está inserida. Mas também,
com espírito materno, é chamada a sair em busca de todos os batizados
que não participam na vida das comunidades cristãs.
184. A Diocese, presidida pelo Bispo, é o primeiro espaço da comunhão e
da missão. Ele deve estimular e conduzir uma ação pastoral orgânica e
vigorosa, de maneira que a variedade de carismas, ministérios, serviços
e organizações se orientem em um mesmo projeto missionário para
comunicar vida no próprio território. Este projeto, que surge de um
caminho de variada participação, torna possível a pastoral orgânica,
capaz de dar resposta aos novos desafios. Porque um projeto só é
eficiente se cada comunidade cristã, cada paróquia, cada comunidade
educativa, cada comunidade de vida consagrada, cada associação ou
movimento e cada pequena comunidade se inserirem ativamente na pastoral
orgânica de cada diocese. Cada uma é chamada a evangelizar de um modo
harmônico e integrado no projeto pastoral da Diocese.
5.2.2 A paróquia, comunidade de comunidades
185. Entre as comunidades eclesiais nas quais vivem e se formam os
discípulos e missionários de Jesus Cristo as Paróquias sobressaem. Elas
são células vivas da Igreja 71 e o lugar privilegiado no qual a maioria
dos fiéis tem uma experiência concreta de Cristo e a comunhão eclesial
72. Um dos maiores desejos que se tem expressado nas Igrejas da América
Latina motivando a preparação da V Conferência Geral, é o de uma
corajosa ação renovadora das Paróquias, a fim de que sejam de verdade
“espaços da iniciação cristã, da educação e celebração da fé, abertas à
diversidade de carismas, serviços e ministérios, organizadas de modo
comunitário e responsável, integradoras de movimentos de apostolado já
existentes, atentas à diversidade cultural de seus habitantes, abertas
aos projetos pastorais e supra-paroquiais e às realidades circundantes”
73.
186. Todos os membros da comunidade paroquial são responsáveis pela
evangelização dos homens e mulheres em cada ambiente. O Espírito Santo
que atua em Jesus Cristo é também enviado a todos enquanto membros da
comunidade, porque sua ação não se limita ao âmbito individual. A tarefa
missionária se abre sempre às comunidades, assim como ocorreu no
Pentecostes (cf. At. 2, 1-13).
187. A renovação das paróquias no início do terceiro milênio exige a
reformulação de suas estruturas, para que seja uma rede de comunidades e
grupos capaz de se articular conseguindo que os participantes se sintam
realmente discípulos e missionários de Jesus Cristo em comunhão. A
partir da paróquia é necessário anunciar o que Jesus Cristo “fez e
ensinou” (At. 1, 1) enquanto esteve entre nós. Sua pessoa e sua obra são a
boa nova da salvação anunciada pelos ministros e testemunhas da Palavra
que o Espírito desperta e inspira. A palavra acolhida é salvífica e
reveladora do mistério de Deus e de sua vontade. Toda paróquia é chamada
a ser o espaço onde a escuta da Palavra seja a fonte do discipulado
missionário. Sua própria renovação exige que se deixe iluminar de novo e
sempre pela Palavra viva e eficaz.
188. A V Conferência Geral é uma oportunidade para que todas as nossas
paróquias se tornem missionárias. O número de católicos que chegam a
nossa celebração dominical é limitado, é imenso o número dos
distanciados, assim como o número daqueles que não conhecem a Cristo. A
renovação missionária das paróquias se impõe, tanto na evangelização das
grandes cidades como do mundo rural de nosso Continente, que está
exigindo de nós imaginação e criatividade para chegar às multidões que
desejam o Evangelho de Jesus Cristo. Particularmente no mundo urbano é
urgente a criação de novas estruturas pastorais, visto que muitas delas
nasceram em outras épocas para responder às necessidades do âmbito
rural.
189. Os melhores esforços das paróquias neste início do terceiro milênio
devem estar na convocação e na formação de missionários leigos. Só
através da multiplicação deles poderemos chegar a responder às
exigências missionárias do momento atual. Também é importante recordar
que o campo específico da atividade evangelizadora laica é o complexo
mundo do trabalho, da cultura, das ciências e das artes, da política,
dos meios de comunicação e da economia, assim como as esferas da
família, da educação, da vida profissional, sobretudo nos contextos onde
a Igreja se faz presente somente por eles.
190. Seguindo o exemplo da primeira comunidade cristã (cf At. 2, 46-47),
a comunidade paroquial se reúne para partir o pão da Palavra e da
Eucaristia e perseverar na catequese, na vida sacramental e na prática
da caridade 75. Na celebração eucarística ela renova sua vida em Cristo.
A Eucaristia, na qual se fortalece a comunidade dos discípulos, é para a
Paróquia uma escola de vida cristã. Nela, juntamente com a adoração
eucarística e com a prática do sacramento da reconciliação para comungar
dignamente, seus membros são preparados para dar frutos permanentes de
caridade, reconciliação e justiça para a vida do mundo.
a) A Eucaristia, fonte e ponto alto da vida cristã, faz com que nossas
paróquias sejam sempre comunidades eucarísticas que vivem
sacramentalmente o encontro com o Cristo Salvador. Elas celebram com
alegria:
b) No batismo: a incorporação de um novo membro.
c) Na Confirmação: a perfeição do caráter batismal e o fortalecimento do
pertencimento eclesial e do amadurecimento apostólico.
d) Na Penitência ou Reconciliação: a conversão daqueles membros da
comunidade que reconhecem haver sido incoerentes com seus compromissos.
e) Na Unção dos Enfermos; o sentido evangélico dos membros da
comunidade, seriamente enfermos ou em perigo de morte.
f) No sacramento da Ordem: a opção de alguns cristãos de se colocar
definitivamente a serviço pastoral de seus irmãos, uma vez chamados pelo
Bispo.
g) No Matrimônio: o amor entre o casal que como graça de Deus germina e
cresce até a maturidade e a doação total.
h) Recordando que é a Eucaristia que faz à Igreja, preocupa-nos a
situação de milhares de comunidades cristãs privadas da Eucaristia
dominical por longos períodos de tempo.
191. A Eucaristia, sinal da unidade com todos, que prolonga e faz
presente o mistério do Filho de Deus feito pobre, coloca-nos a exigência
de uma evangelização integral. A imensa maioria dos católicos de nosso
continente vivem sob o flagelo da pobreza. Esta tem diversas expressões:
econômica, física, espiritual, moral, etc. Se Jesus veio para que todos
tenhamos vida em abundância, a paróquia tem a maravilhosa ocasião de
responder às grande necessidades de nossos povos. Para isso tem que
seguir o caminho de Jesus e chegar a ser a boa samaritana como Ele. Cada
paróquia deve chegar a concretizar em sinais solidários seu compromisso
social nos diversos meios em que ela se move, com toda “a imaginação da
caridade” 76. Não pode ser alheia aos grandes sofrimentos que vive a
maioria de nossa gente e que com muita freqüência são pobrezas
escondidas. Toda autêntica missão unifica a preocupação pela dimensão
transcendente do ser humano e por todas suas necessidades concretas,
para que todos alcancem a plenitude que Jesus Cristo oferece.
192. SS. Bento XVI nos recorda que “o amor à Eucaristia leva também a
apreciar cada vez mais o Sacramento da Reconciliação” 77. Vivemos em uma
cultura marcada por um forte relativismo e uma perda do sentido do
pecado que nos leva a esquecer a necessidade do sacramento da
Reconciliação que nos permite aproximar dignamente para receber a
Eucaristia. Como pastores, somos chamados a fomentar a confissão
freqüente. Convidamos nossos presbíteros a dedicar tempo suficiente para
oferecer o sacramento da reconciliação com zelo pastoral e entranhas de
misericórdia, a preparar dignamente os lugares da celebração, de maneira
que sejam expressão do significado deste sacramento. Igualmente, pedimos
a nossos fiéis que valorizem este presente maravilhoso de Deus e se
aproximem dele para renovar a graça batismal e viver, com maior
autenticidade, o chamado de Jesus a serem seus discípulos e
missionários. Nós, bispos e presbíteros, ministros da reconciliação,
somos chamados a viver, de maneira particular, na intimidade com o
Mestre. Somos conscientes de nossa fraqueza e da necessidade de sermos
purificados pela graça do sacramento, que se nos oferece para nos
identificar, cada vez mais, com Cristo, Bom Pastor e missionário do Pai.
Simultaneamente, por gosto e alegria, somos ministros da reconciliação e
da mesma maneira nos aproximamos frequentemente d’Ele e fazemos de nossa
experiência um caminho penitencial.
5.2.2 Comunidades Eclesiais de Base e Pequenas comunidades
193. Na experiência
eclesial da América Latina e do Caribe, as Comunidades Eclesiais de
Base, com freqüência, tem sido verdadeiras escolas que formam discípulos
e missionários do Senhor, como testemunhas de uma entrega generosa, até
mesmo com o derramar do sangue de muitos de seus membros. Elas abraçam a
experiência das primeiras comunidades, como estão descritas nos Atos dos
Apóstolos (At. 2, 42-47). Medellín reconheceu nelas uma célula inicial
de estruturação eclesial e foco de evangelização. Arraigadas no coração
do mundo, são espaços privilegiados para a experiência comunitária da
fé, mananciais de fraternidade e de solidariedade, alternativa á
sociedade atual fundada no egoísmo e na competição brutal.
194. Queremos decididamente reafirmar e dar novo impulso à vida e missão
profética e santificadora das CEBs, no seguimento missionário de Jesus.
Elas tem sido uma das grandes manifestações do Espírito na Igreja da
América Latina e do Caribe depois do Vaticano II. Elas têm a Palavra de
Deus como fonte de sua espiritualidade e a orientação de seus pastores
como guia que assegura a comunhão eclesial. Demonstram seu compromisso
evangelizador e missionário entre os mais simples e afastados e são
expressão visível da opção preferencial pelos pobres. São fonte e
semente de vários serviços e ministérios a favor da vida na sociedade e
na Igreja.
195. As Comunidades Eclesiais de Base, em comunhão com seu Bispo e o
projeto pastoral diocesano, são um sinal de vitalidade na Igreja,
instrumento de formação e de evangelização e ponto de partida válido
para a Missão Continental permanente. Elas poderão revitalizar as
paróquias a partir de dentro fazendo das mesmas uma comunidade de
comunidades. Depois do caminho percorrido até o momento, com conquista e
dificuldades, chegou o momento de uma profunda renovação desta rica
experiência eclesial em nosso continente, para que não percam sua
eficácia missionária, mas que a aperfeiçoem e a acrescentem de acordo
com as sempre novas exigências dos tempos.
196. Junto às CEBs, existem outras várias formas de pequenas comunidades
eclesiais, grupos de vida, de oração e de reflexão da palavra de Deus, e
inclusive redes de comunidades. O Espírito vai fazendo com que elas
floresçam como resposta aos novos desafios da evangelização. A
experiência positiva destas comunidades torna-se necessário que recebam
uma especial atenção para que tenham a Eucaristia como centro de sua
vida e cresçam em solidariedade e integração eclesial e social.
5.2.4 As Conferências Episcopais e a comunhão entre as Igrejas
197. Os bispos, além do serviço à comunhão que prestam em suas igrejas
locais, exercem este ofício junto com as outras igrejas diocesanas.
Deste modo, realizam e manifestam o vínculo de comunhão que as une entre
si. Esta experiência de comunhão episcopal, sobretudo depois do Concílio
Vaticano II, deve ser entendida como um encontro com o Cristo vivo,
presente nos irmãos que estão reunidos em seu nome” 78. Para crescer
nessa fraternidade e na co-responsabilidade pastoral, os bispos devem
cultivar a espiritualidade da comunhão, a fim de acrescentar os vínculos
de colegialidade que os unem aos demais bispos de sua própria
Conferência, e também a todo o Colégio Episcopal e à Igreja de Roma,
presidida pelo sucessor de Pedro: “cum Petro et sub Petro”. Na
Conferência Episcopal, os bispos encontram seu espaço de discernimento
solidário sobre os grandes problemas da sociedade e da Igreja e o
estímulo para oferecer orientações pastorais que animem os membros do
Povo de Deus a assumirem com fidelidade e decisão sua vocação de serem
discípulos missionários.
198. O Povo de Deus se constrói como uma comunhão de Igrejas locais e,
através delas, como um intercâmbio entre as culturas. Neste marco, os
bispos e as Igrejas locais expressam sua solicitude para com todas as
Igrejas, especialmente para com mais próximas, reunidas nas províncias
eclesiásticas, nas conferências regionais e em outras formas de
associação interdiocesana no interior de cada Nação ou entre países de
uma mesma Região ou Continente. Estas várias formas de comunhão
estimulam com vigor as “relações de irmandade entre as dioceses e as
paróquias” 79 e fomentam “uma maior cooperação entre as igrejas irmãs”
80.
199. O CELAM é um organismo eclesial de fraterna colegialidade
episcopal, cuja preocupação fundamental é colaborar para a evangelização
do Continente. Ao longo de seus 50 anos têm oferecido serviços muito
importantes às Conferências Episcopais e às nossas Igrejas locais, entre
as quais destacamos as Conferências Gerais, os Encontros Regionais, os
Seminários de estudo, o ITEPAL e o CEBIPAL. O resultado de todo este
esforço é uma perceptível fraternidade entre os bispos do Continente e
uma reflexão teológica e uma linguagem pastoral comuns que favorecem a
comunhão e o intercâmbio entre as Igrejas.
5.3. Discípulo missionários com vocações específicas
200. A condição do discípulo brota de Jesus Cristo como sua fonte de
fé e pelo batismo e cresce na Igreja, comunidade onde todos os seus
membros adquirem igual dignidade e participam de diversos ministérios e
carismas. Deste modo, realiza-se na Igreja a forma própria e específica
de viver a santidade batismal a serviço do Reino de Deus.
201. No fiel cumprimento de sua vocação batismal, o discípulo deve levar
em consideração os desafios que o mundo de hoje apresenta à Igreja de
Jesus, entre outros: o êxodo de fiéis para seitas e outros grupos
religiosos; as correntes culturais contrárias a Cristo e a Igreja; a
desmotivação de sacerdotes frente ao vasto trabalho pastoral; a escassez
de sacerdotes em muitos lugares; a mudança de paradigmas culturais; o
fenômeno da globalização e a secularização; os graves problemas de
violência, pobreza e injustiça; a crescente cultura da morte que afeta a
vida em todas as suas formas.
5.3.1 Os bispos, discípulos missionários de Jesus Sumo Sacerdote
202. Os bispos, como sucessores dos apóstolos junto com o Sumo Pontífice
e sob sua autoridade 81, com fé e esperança aceitamos a vocação de
servir ao Povo de Deus conforme o coração de Cristo, o Bom Pastor. Junto
com todos os fiéis e em virtude do batismo somos, antes de mais nada,
discípulos e membros do Povo de Deus. Como todos os batizados e, junto
com eles, queremos seguir a Jesus, Mestre de vida e de verdade, na
comunhão da Igreja. Como Pastores, servidores do Evangelho, somos
conscientes de termos sido chamados a viver o amor a Jesus Cristo e à
Igreja na intimidade da oração e da doação de nós mesmos aos irmãos e
irmãs, a quem presidimos na caridade. É como disse santo Agostinho: com
vocês sou cristão, para vocês sou bispo.
203. O Senhor nos chama a promover por todos os meios a caridade e a
santidade dos fiéis. Empenhamo-nos para que o povo de Deus cresça na
graça mediante os sacramentos presididos por nós mesmos e pelos demais
ministros ordenados. Somos chamados a ser mestres da fé e, portanto, a
anunciar a Boa Nova, que é fonte de esperança para todos e a velar e
promover com solicitude e coragem a fé católica. Em virtude da íntima
fraternidade que provêm do sacramento da Ordem, temos o dever de
cultivar de maneira especial os vínculos que nos unem a nossos
presbíteros e diáconos. Servimos a Cristo e à Igreja mediante o
discernimento da vontade do Pai, para refletir o Senhor em nosso modo de
pensar, de sentir, de falar e de se comportar em meio aos homens. Em
síntese, os bispos têm de ser testemunhas próximas e alegres de Jesus
Cristo, Bom Pastor (cf. Jo. 10, 1-18).
204. Os bispos, como pastores, são chamados a “fazer da Igreja uma casa
e escola de comunhão ”82. Como animadores da comunhão, temos a missão de
acolher, discernir e animar carismas, ministérios e serviços na Igreja.
Como padres e centro da unidade, esforçamo-nos por apresentar ao mundo o
rosto de uma Igreja na qual todos se sintam acolhidos como em sua
própria casa. Para todo o Povo de Deus, em especial para os presbíteros,
procuramos ser padres, amigos e irmãos sempre abertos ao diálogo,
especialmente para os presbíteros.
205. Para crescer nestas atitudes, os bispos precisam procurar a união
constante com o Senhor, cultivar a espiritualidade de comunhão com todos
os que crêem em Cristo e promover os vínculos de colegialidade que os
unem ao Colégio Episcopal, particularmente com seu cabeça, o Bispo de
Roma. Não podemos esquecer que o bispo é princípio e construtor da
unidade de sua Igreja Local e santificador de seu povo, testemunha de
esperança e padre dos fiéis, especialmente dos pobres, e que sua
principal tarefa é ser anunciador da Palavra de Deus e da administração
dos sacramentos.
206. Todo o Povo de Deus deve agradecer aos Bispos eméritos que, como
pastores têm entregado sua vida a serviço do Reino de Deus, sendo
discípulos e missionários. A eles acolhemos com carinho e aproveitamos
sua vasta experiência apostólica que, não obstante, pode produzir muitos
frutos. Eles mantêm profundos vínculos com as dioceses que lhes foram
confiadas às quais estão unidos por sua caridade e sua oração.
5.3.2 Os presbíteros, discípulos missionários de Jesus Bom Pastor
5.3.2.1 Identidade e missão dos presbíteros
207. Valorizamos e agradecemos com alegria que a imensa maioria dos
presbíteros vivam seu ministério com fidelidade e sejam modelo para os
demais, que separem tempo para sua formação permanente, que cultivem uma
vida espiritual que estimule os demais presbíteros e seja centrada na
escuta da palavra de Deus e na celebração diária da Eucaristia: “Minha
Missa é minha vida e minha vida é uma Missa prolongada!” 83. Agradecemos
também àqueles que foram enviados a outras Igrejas motivados por um
autêntico sentido missionário.
208. Um olhar ao nosso momento atual nos mostra situações que afetam e
desafiam a vida e o ministério de nossos presbíteros. Entre outras
coisas, a identidade teológica do ministério presbiterial, sua inserção
na cultura atual e situações que incidem em sua existência.
209. O primeiro faz relação com a identidade teológica do ministério
presbiterial. O Concílio Vaticano II estabelece o sacerdócio ministerial
a serviço do sacerdócio comum dos fiéis, e cada um a sua maneira
participa do único sacerdócio de Cristo 84. Cristo, Sumo e Eterno
Sacerdote, tem-nos redimido e nos permitido participar de sua vida
divina. N’Ele, somos todos filhos do mesmo Pai e irmãos entre nós,
também os presbíteros. Antes que padre, o presbítero é um irmão. Esta
dimensão fraterna deve transparecer no exercício pastoral e superar a
tentação do autoritarismo que isola o presbítero da comunidade e da
colaboração com os demais membros da Igreja. Ele não pode, menos ainda,
cair na tentação de se considerar somente um delegado ou representante
da comunidade, mas sim em ser um dom para ela, pela unção do espírito em
sua ordenação e sua especial união com Cristo, que é o Cabeça.
210. O segundo desafio se refere ao ministério do presbítero inserido na
cultura atual. O presbítero é chamado a conhecê-la para semear nela a
semente do Evangelho, ou seja, para que a mensagem de Jesus chegue a ser
uma interpelação válida, compreensível, cheia de esperança e relevante
para a vida do homem e da mulher de hoje, especialmente para os jovens.
Este desafio inclui a necessidade de potencializar adequadamente a
formação inicial e permanente dos presbíteros, em suas quatro dimensões;
humana, espiritual, intelectual e pastoral 85.
211. O terceiro desafio se refere aos aspectos vitais e afetivos, ao
celibato e a uma vida espiritual intensa fundada na experiência de Deus;
também o cultivo de relações fraternas com os demais presbíteros, com o
bispo e com os leigos. Para que o ministério do presbítero seja coerente
e testemunhal, ele deve amar e realizar sua tarefa pastoral em comunhão
com o bispo e com seus pares. O ministério sacerdotal que brota da Ordem
Sagrada tem uma “radical forma comunitária” e só pode ser desenvolvido
como uma “tarefa coletiva” 86.
212. Em particular, o presbítero é convidado a valorizar o celibato,
como um dom de Deus, que lhe possibilita uma especial configuração com o
estilo de vida do próprio Cristo e o faz sinal de sua caridade pastoral
na entrega a Deus e aos homens com o coração pleno e indivisível. “Na
verdade, esta opção do sacerdote é uma expressão singular da entrega que
o configura com Cristo e da entrega de si mesmo pelo Reino de Deus”87. O
celibato solicita assumir com maturidade a própria
afetividade e sexualidade, vivendo-as com serenidade e alegria em um
caminho comunitário 88.
213. Outros desafios são de caráter estrutural, como por exemplo, a
existência de paróquias muito grandes que dificultam o exercício de uma
pastoral adequada, paróquias muito pobres que fazem com que os pastores
se dediquem a outras tarefas para poder subsistir, paróquias situadas em
regiões de extrema violência e insegurança e a falta e má distribuição
de presbíteros nas Igrejas do continente.
214. O presbítero, a imagem do Bom Pastor, é chamado a ser homem de
misericórdia e de compaixão, próximo a seu povo e servidor de todos,
particularmente dos que sofrem grandes necessidades. A caridade
pastoral, fonte da espiritualidade sacerdotal, anima e unifica sua vida
e ministério. Consciente de suas limitações, ele valoriza a pastoral
orgânica e se insere com gosto em seu presbitério.
215. O Povo de Deus sente a necessidade de presbíteros-discípulos: que
tenham uma profunda experiência de Deus, configurados com o coração do
Bom Pastor, dóceis às orientações do Espírito, que se nutram da Palavra
de Deus, da Eucaristia e da oração; de presbíteros-missionários: movidos
pela caridade pastoral, que os leve a cuidar do rebanho a eles confiados
e a procurar aos mais distanciados, sempre em profunda comunhão com seu
Bispo, os presbíteros, diáconos, religiosos, religiosas e leigos; de
presbíteros-servis da vida: que estejam atentos às necessidades dos mais
pobres, comprometidos na defesa dos direitos dos mais fracos e
promotores da cultura da solidariedade. Também de presbíteros cheios de
misericórdia, disponíveis para administrar o sacramento da
reconciliação.
216. Tudo isto requer que nas Dioceses e nas Conferências Episcopais
seja desenvolvida uma pastoral presbiteral que privilegie a
espiritualidade específica e a formação permanente e integral dos
sacerdotes. É oportuno indicar a complementaridade entre a formação
inicial no Seminário e o processo de formação que abrange as diversas
etapas da vida do presbítero. A Exortação Apostólica Pastores Dabo
Vobis, enfatiza que: “A formação permanente é um dever, principalmente
para os sacerdotes jovens e há de ter aquela freqüência e programação de
encontros que, simultaneamente, prolongam a seriedade e a solidez da
formação recebida no seminário”89. Levando em consideração o número de
presbíteros que abandonaram o ministério, cada Igreja local deve
procurar estabelecer com eles relações de fraternidade e de mútua
colaboração conforme as normas prescritas pela Igreja.
5.3.2.2 Os párocos, animadores de uma comunidade de discípulos
missionários
217. A renovação da paróquia exige atitudes novas dos párocos e dos
sacerdotes que estão a serviço dela. A primeira exigência é que o pároco
seja um autêntico discípulo de Jesus Cristo, porque só um sacerdote
enamorado do Senhor pode renovar uma paróquia. Mas ao mesmo tempo, deve
ser um ardoroso missionário que vive o constante desejo de buscar os
afastados e não se contenta com a simples administração.
218. Mas, sem dúvida, não basta a entrega generosa do sacerdote e das
comunidades de religiosos. Requer-se que todos os leigos se sintam
co-responsáveis na formação dos discípulos e na missão. Isto supõe que
os párocos sejam promotores e animadores da diversidade missionária e
que dediquem tempo generosamente ao sacramento da reconciliação. Uma
paróquia renovada multiplica as pessoas que realizam serviços e
acrescenta os ministérios. Igualmente neste campo se requer imaginação
para encontrar resposta aos muitos e sempre mutáveis desafios que a
realidade coloca, exigindo novos serviços e ministérios. A integração de
todos eles na unidade de um único projeto evangelizador é essencial para
assegurar uma comunhão missionária.
219. Uma paróquia, comunidade de discípulos missionários, requer
organismos que superem qualquer tipo de burocracia. Os Conselhos
pastorais paroquiais terão que estar formados por discípulos
missionários constantemente preocupados em chegar a todos. O Conselho de
assuntos Econômicos junto a toda a comunidade paroquial, trabalhará para
obter os recursos necessários, de maneira que a missão avance e se faça
realidade em todos os ambientes. Estes e todos os organismos precisam
estar animados por uma espiritualidade de comunhão missionária: “Sem
este caminho espiritual de pouco serviriam os instrumentos externos da
comunhão. Mais do que modos de expressão e de crescimento, esses
instrumentos se tornariam meios sem alma, máscaras de comunhão” 90.
220. Dentro do território paroquial, a família cristã é a primeira e
mais básica comunidade eclesial. Nela são vividos e transmitidos os
valores fundamentais da vida cristã. Ela é chamada de “Igreja Doméstica”
91. Ali, os pais desempenham o papel de primeiros transmissores da fé a
seus filhos, ensinando-lhes através do exemplo e da palavra, a serem
verdadeiros discípulos missionários. Ao mesmo tempo, quando esta
experiência de discipulado missionário é autêntica, “uma família se faz
evangelizadora de muitas outras famílias e do ambiente em que ela vive”
92. Isto opera na vida diária “dentro e através dos atos, das
dificuldades, dos acontecimentos da existência de cada dia” 93. O
espírito, que tudo faz, novo atua inclusive dentro de situações
irregulares nas quais se realiza um processo de transmissão de fé, mas
temos de reconhecer que, nas atuais circunstâncias, às vezes este
processo se encontra dificultado. Não se propõe que a Paróquia chegue só
a sujeitos afastados, mas à vida de todas as famílias, para fortalecer
sua dimensão missionária.
5.3.3 Os diáconos permanentes, discípulos de Jesus Servo
221. Alguns discípulos e missionários do Senhor são chamados a servir à
Igreja como diáconos permanentes, fortalecidos, em sua maioria, pela
dupla sacramentalidade do matrimônio e da Ordem. Eles são ordenados para
o serviço da Palavra, da caridade e da liturgia, especialmente para os
sacramentos do batismo e do Matrimônio; também para acompanhar a
formação de novas comunidades eclesiais, especialmente nas fronteiras
geográficas e culturais, onde ordinariamente não chega a ação
evangelizadora da Igreja.
222. Cada diácono permanente deve cultivar esmeradamente sua inserção no
corpo diaconal e uma estreita relação com seu bispo, os presbíteros e os
demais membros do povo de Deus. Quando estão a serviço de uma paróquia,
é necessário que os diáconos e presbíteros procurem o diálogo e
trabalhem em comunhão.
223. Eles devem receber uma adequada formação humana, espiritual,
doutrinal e pastoral com programas adequados, que levem em consideração
– no caso dos que estão casados – à esposa e sua família. Sua formação
os habilitará a exercer seu ministério com fruto nos campos da
evangelização, da vida das comunidades, da liturgia e da ação social,
especialmente com os mais necessitados, dando assim, testemunho de
Cristo servindo ao lado dos enfermos, dos que sofrem, dos migrantes e
refugiados, dos excluídos e das vítimas da violência e encarcerados.
224. A presença numérica dos diáconos permanentes cresceu
significativamente em nossas Igrejas, ainda que com desigual
desenvolvimento e valorização. A V Conferência anima os bispos da
América Latina e do Caribe a estimular o diaconato permanente nas
diferentes dioceses, para grupos humanos específicos e pastorais
ambientais, e espera dos diáconos um testemunho evangélico e um impulso
missionário para que sejam apóstolos em suas famílias, em seus
trabalhos, em suas comunidades e nas novas fronteiras da missão.
5.3.4 Os fiéis leigos e leigas, discípulos e missionários de Jesus, Luz
do Mundo
225. Os fiéis leigos são “os cristãos que estão incorporados a Cristo
pelo batismo, que formam o povo de Deus e participam das funções de
Cristo: sacerdote, profeta e rei. Eles realizam, segundo sua condição, a
missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo”94. São “homens da
Igreja no coração do mundo, e homens do mundo no coração da Igreja” 95.
226. Sua missão própria e específica se realiza no mundo, de tal modo
que, com seu testemunho e sua atividade, eles contribuam para a
transformação das realidades e para a criação de estruturas justas
segundo os critérios do Evangelho. “O espaço próprio de sua atividade
evangelizadora é o mundo vasto e complexo da política, da realidade
social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das
artes, da vida internacional, dos ‘mass media’, e outras realidades
abertas à evangelização, como são o amor, a família, a educação das
crianças e adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento”96. Além
disso, eles tem o dever de fazer crível a fé que professam, mostrando a
autenticidade e coerência em sua conduta.
227. Os leigos também são chamados a participar na ação pastoral da
Igreja, primeiro com o testemunho de sua vida e, em segundo lugar, com
ações no campo da evangelização, da vida litúrgica e outras formas de
apostolado segundo as necessidades locais sob a orientação de seus
pastores. Eles estarão dispostos a abrir para eles espaços de
participação e a confiar ministérios e responsabilidades em uma Igreja
onde todos vivam de maneira responsável seu compromisso cristão. Aos
catequistas, delegados da Palavra e animadores de comunidades que
cumprem uma magnífica tarefa dentro da Igreja 97, reconhecemos e
animamos a continuarem o compromisso que adquiriram no batismo e na
confirmação.
228. Para cumprir sua missão com responsabilidade pessoal, os leigos
necessitam de uma sólida formação doutrinal, pastoral, espiritual e um
adequado acompanhamento para darem testemunho de Cristo e dos valores do
reino no âmbito da vida social, econômica, política e cultural.
229. Hoje, toda a Igreja na América e no Caribe querem se colocar em
estado de missão. A evangelização do continente, nos dizia o papa João
Paulo II, não pode se realizar hoje sem a colaboração dos fiéis leigos
98. Eles hão de ser parte ativa e criativa na elaboração e execução de
projetos pastorais a favor da comunidade. Isto exige, da parte dos
pastores, uma maior abertura de mentalidade para que entendam e acolham
o “ser” e o “fazer” do leigo na Igreja, que por seu batismo e sua
confirmação, é discípulo e missionário de Jesus Cristo. Em outras
palavras, é necessário que o leigo seja levado em consideração com um
espírito de comunhão e de participação 99.
230. Neste contexto é um sinal de esperança, o fortalecimento de várias
associações leigas, movimentos apostólicos eclesiais e caminhos de
formação cristã, comunidades eclesiais e novas comunidades, que devem
ser apoiados pelos pastores. Eles ajudam muitos batizados e muitos
grupos missionários a assumir com maior responsabilidade sua identidade
cristã e colaborar mais ativamente na missão evangelizadora. Nas últimas
décadas, várias associações e movimentos apostólicos laicos
desenvolveram um forte protagonismo. É por isso que um adequado
discernimento, incentivo, coordenação e condução pastoral, sobretudo da
parte dos sucessores dos Apóstolos, contribuirá para ordenar este dom
para a edificação da única Igreja 100.
231. Reconhecemos o valor e a eficiência dos Conselhos paroquiais,
Conselhos diocesanos e nacionais de fiéis leigos, porque incentivam a
comunhão e a participação na Igreja e sua presença ativa no mundo. A
construção da cidadania no sentido mais amplo e a construção de
eclesialidade nos leigos, é um só e único movimento.
5.3.5 Os consagrados e consagradas, discípulos missionários de Jesus,
Testemunha do Pai
232. A vida consagrada é um dom do pai, por meio do Espírito, à sua
Igreja 101, e constitui um elemento decisivo para sua missão 102.
Expressa-se na vida monástica, contemplativa e ativa, nos institutos
seculares, nas sociedades de vida apostólica e outras novas formas. É um
caminho de especial seguimento de Cristo, no qual cada um deve
dedicar-se ele com um coração indivisível e, colocar-se, como Ele, a
serviço de Deus e da humanidade, assumindo a forma de vida que Cristo
escolheu para vir a este mundo: uma vida virginal, pobre e obediente
103.
233. Em comunhão com os pastores, os consagrados e consagradas são
chamados a fazer de seus lugares de presença, de sua vida comunitária e
de suas obras, lugares de anúncio explícito do Evangelho, principalmente
aos mais pobres, como tem sido em nosso continente desde o início da
evangelização. Deste modo, segundo seus carismas fundacionais, eles
colaboram com a gestação de uma nova geração de cristãos discípulos e
missionários e de uma sociedade na qual se respeite a justiça e a
dignidade da pessoa humana.
234. A partir do seu ser, a vida consagrada é chamada a ser especialista
em comunhão, tanto no interior da Igreja quanto no interior da
sociedade. A vida e missão dos consagrados devem estar inseridas na
Igreja local e em comunhão com o Bispo. Para isso, é necessário criar
procedimentos comuns e iniciativas de colaboração que levem a um
conhecimento e valorização mútuos e a um compartilhar da missão com
todos os chamados a seguir a Jesus.
235. Em um continente no qual se manifestam sérias tendências de
secularização, a vida consagrada é chamada a dar testemunho da absoluta
primazia de Deus e de seu reino. Ela se converte em testemunha do Deus
da vida em uma realidade que relativiza seu valor (obediência), é
testemunha de liberdade frente ao mercado e às riquezas que valorizam as
pessoas pelo ter (pobreza), e é testemunha de uma entrega no amor
radical e livre a Deus e à humanidade frente à erotização e banalização
das relações (castidade).
236. Na atualidade da América latina e do caribe, a vida consagrada é
chamada a ser uma vida discipular, apaixonada por Jesus-caminho ao Pai
misericordioso, e por isso, de caráter profundamente místico e
comunitário. É chamada a ser uma vida missionária, apaixonada pelo
anúncio de Jesus-verdade do Pai, por isso mesmo, radicalmente profética,
capaz de mostrar a luz de Cristo às sombras do mundo atual e os caminhos
de uma vida nova, para o que se requer um profetismo que aspire até a
entrega da vida em continuidade com a tradição de santidade e martírio
de tantas e tantos consagrados ao longo da história do continente. E, a
serviço do mundo, uma vida apaixonada por Jesus-vida do Pai, que se faz
presente nos mais pequenos e nos últimos a quem serve, a partir do
próprio carisma e espiritualidade.
237. De maneira especial, a América latina e o Caribe necessitam da vida
contemplativa, testemunha de que só deus basta para preencher a vida de
sentido e de alegria. “Em um mundo que continua perdendo o sentido do
divino, diante da supervalorização do material, vocês queridas
religiosas, comprometidas desde seus claustros a serem testemunhas dos
valores pelos quais vivem, sejam testemunhas do Senhor para o mundo de
hoje, infundam com sua oração um novo sopro de vida na Igreja e no homem
atual” 104.
238. O Espírito segue despertando novas formas de vida consagrada nas
Igrejas, aos quais necessitam ser acolhidas e acompanhadas em seu
crescimento e desenvolvimento no interior das Igrejas locais. O Bispo
precisa usar um discernimento sério e ponderado sobre seu sentido,
necessidade e autenticidade.
239. As Confederações de Institutos Seculares (CISAL) e de religiosas e
religiosos (CLAR) e suas Conferências Nacionais são estruturas de
serviço e de animação que, em mútua relação com os Pastores, em comunhão
e diálogo fecundo e amistoso 105, estão convocadas a estimular seus
membros a realizarem a missão como discípulos e missionários a serviço
do reino de Deus.
240. Os povos latino-americanos e caribenhos esperam muito da vida
consagrada, especialmente do testemunho e contribuição das religiosas
contemplativas e de vida apostólica que, junto aos demais irmãos
religiosos, membros de Institutos Seculares e Sociedades de Vida
Apostólica, mostram o rosto materno da Igreja. Seu desejo de escuta,
acolhida e serviço, e seu testemunho dos valores alternativos do Reino,
transformado em Cristo, o Senhor, é possível 106.
5.4 Os que deixaram a Igreja para se unir a outros grupos religiosos
241. Segundo nossa experiência pastoral, muitas vezes a pessoa sincera
que sai de nossa Igreja não o faz pelo que os grupos “não católicos”
crêem, mas fundamentalmente por causa de como eles vivem; não por razões
doutrinais, mas vivenciais; não por motivos estritamente dogmáticos, mas
pastorais; não por problemas teológicos, mas metodológicos de nossa
Igreja. Na verdade, muita gente que passa para outros grupos religiosos
não está procurando sair de nossa Igreja, está, sim, procurando
sinceramente a Deus.
242. Em nossa Igreja temos de reforçar quatro eixos:
a) A experiência religiosa. Em nossa Igreja devemos oferecer a todos os
nossos fiéis um “encontro pessoal com Jesus Cristo”, uma experiência
religiosa profunda e intensa, um anúncio kerigmático e o testemunho
pessoal dos evangelizadores, que leve a uma conversão pessoal e a uma
mudança de vida integral.
b) A vivência comunitária. Nossos fiéis procuram comunidades cristãs,
onde sejam acolhidos fraternalmente e se sintam valorizados, visíveis e
eclesialmente incluídos. É necessário que nossos fiéis se sintam
realmente membros de uma comunidade eclesial e co-responsáveis por seu
desenvolvimento. Isso permitirá um maior compromisso e entrega em e pela
Igreja.
c) A formação bíblico-doutrinal. Junto a uma forte experiência religiosa
e uma destacada convivência comunitária, nossos fiéis necessitam
aprofundar o conhecimento da Palavra de Deus e os conteúdos da fé, visto
que esta é a única maneira de amadurecer sua experiência religiosa.
Neste caminho acentuadamente vivencial e comunitário, a formulação
doutrinal não se experimenta como um conhecimento teórico e frio, mas
como uma ferramenta fundamental e necessária no crescimento espiritual,
pessoal e comunitário.
d) O compromisso missionário de toda a comunidade. Ela sai ao encontro
dos afastados, interessa-se por sua situação, por reencantá-los com a
Igreja e a convidá-los a novamente se envolverem com ela.
5.5 Diálogo ecumênico e interreligioso
5.5.1 Diálogo ecumênico para que o mundo creia
243. A compreensão e a prática da eclesiologia de comunhão nos conduz ao
diálogo ecumênico. A relação com os irmãos e irmãs batizados de outras
Igrejas e comunidades eclesiais é um caminho irrenunciável para o
discípulo e missionário 107, pois a falta de unidade representa um
escândalo, um pecado e um atraso do cumprimento do desejo de Cristo:
“para que todos sejam um, como tu, Pai,estás em mim e eu em ti. E para
que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo acredite que tu me
enviaste” (Jo. 17, 21).
244. O ecumenismo não se justifica por uma exigência simplesmente
sociológica mas evangélica, trinitária e batismal: “expressa a comunhão
real, ainda que imperfeita” que já existe entre “os que foram
regenerados pelo batismo” e o testemunho concreto de fraternidade 108. O
magistério insiste no caráter trinitário e batismal do esforço
ecumênico, onde o diálogo emerge como atitude espiritual e prática, em
um caminho de conversão e reconciliação. Só assim chegará “o dia em
poderemos celebrar, junto com todos os que crêem em Cristo, a divina
Eucaristia”109. Uma via fecunda para avançar para a comunhão é recuperar
em nossas comunidades o sentido do compromisso do Batismo.
245. Hoje, faz-se necessário reabilitar a autêntica apologética que
faziam os pais da Igreja como explicação da fé. A apologética não tem
por que ser negativa ou defensiva “per se”. Implica, na verdade, a
capacidade de dizer o que está em nossas mentes e corações de forma
clara e convincente, como disse São Paulo “fazendo a verdade na
caridade” (Ef 4,15). Mais do que nunca os discípulos e missionários de
Cristo de hoje necessitam de uma apologética renovada para que todos
possam ter vida n’Ele.
246. Às vezes esquecemos que a unidade é, antes de tudo, um dom do
Espírito Santo, e oramos pouco por esta intenção. “Esta conversão do
coração e esta santidade de vida, juntamente com as orações particulares
e públicas pela unidade dos cristãos, hão de ser considerado como a alma
de todo o movimento ecumênico e com razão pode se chamar ecumenismo
espiritual” 110.
247. Faz mais de quarenta anos que o Concílio vaticano II reconheceu a
ação do Espírito Santo no movimento pela unidade dos cristãos. Desde
então, temos colhido muitos frutos. Neste campo, necessitamos de mais
agentes de diálogo e melhor qualificados. É bom tornar mais conhecidas
as declarações que a própria Igreja Católica tem subscrito no campo do
ecumenismo desde o Concílio. Os diálogos bilaterais e multilaterais têm
produzido bons frutos. Também é oportuno estudar o Diretório ecumênico e
suas conseqüências para a catequese, a liturgia, a formação presbiteral
e a Pastoral 111. A mobilidade humana, característica do mundo atual,
pode ser ocasião propícia para o diálogo ecumênico da vida 112.
248. Em nosso contexto, o surgimento de novos grupos religiosos, mais a
tendência a confundir o ecumenismo com o diálogo interreligioso, tem
causado obstáculos na conquista de maiores frutos no diálogo ecumênico.
Por isso mesmo, incentivamos os ministros ordenados, aos leigos e á vida
consagrada a participarem de organismos ecumênicos e a realizarem ações
conjuntas nos diversos campos da vida eclesial, pastoral e social. Na
verdade, o contato ecumênico favorece a estima recíproca, convoca á
escuta comum da palavra de Deus e chama à conversão aqueles que se
declaram discípulos e missionários de Jesus Cristo. Esperamos que a
promoção da unidade dos cristãos, assumida pelas Conferências
Episcopais, consolide-se e frutifique sob a luz do espírito Santo. 249.
Nesta nova etapa evangelizadora, queremos que o diálogo e a cooperação
ecumênica se encaminhem para despertar novas formas de discipulado e
missão em comunhão. Cabe observar que onde se estabelece o diálogo,
diminui o proselitismo, cresce o conhecimento recíproco e o respeito e
se abrem possibilidades de testemunho comum. Um passo nesta direção é o
encontro com interlocutores pentecostais responsáveis e fraternos que
compartilham a estima, a oração e o estudo.
250. Como resposta generosa à oração do Senhor “para que todos sejam um”
(Jo. 17, 21), os Papas nos tem incentivado a avançar pacientemente no
caminho da unidade. João Paulo II nos exorta: “No corajoso caminho para
a unidade, a clareza e prudência da fé nos conduzem a evitar o falso
irenismo e o desinteresse pelas normas da Igreja. Inversamente, a mesma
clareza e a mesma prudência nos recomendam evitar a indiferença na busca
da unidade e, mais ainda, a posição pré-concebida ou o derrotismo que
tende a ver tudo como negativo” 113. Bento XVI abriu seu pontificado
dizendo: “Não bastam as manifestações de bons sentimentos. Fazem falta
gestos concretos que penetrem nos espíritos e sacudam as consciências,
impulsionando cada um à conversão interior, que é o fundamento de todo
progresso no caminho do ecumenismo” 114.
5.5.2 relação com o judaísmo e diálogo interreligioso
251. Reconhecemos com gratidão os laços que nos relacionam com o povo
judeu, que nos une na fé no único Deus e sua palavra revelada no Antigo
Testamento 115. São nossos “irmãos maiores” na fé de Abraão, Isaque e
Jacó. Dói em nós a história de desencontros que eles tem sofrido, também
em nossos países. São muitas as causas comuns que na atualidade exigem
maior colaboração e respeito mútuo.
252. Pelo sopro do Espírito Santo e outros meios conhecidos de Deus, a
graça de Cristo pode alcançar a todos os que Ele redimiu, além da
comunidade eclesial, porém de modos diferentes 116. Explicitar e
promover esta salvação já operante no mundo é uma das tarefas da Igreja
com respeito às palavras do Senhor: “Sejam minhas testemunhas até os
extremos da terra” (At. 1, 8).
253. O diálogo interreligioso, em especial com as religiões monoteístas,
fundamenta-se justamente na missão que Cristo nos confiou, solicitando a
sábia articulação entre o anúncio e o diálogo como elementos
constitutivos da evangelização 117. Com tal atitude, a Igreja,
“sacramento universal de salvação” 118, reflete a luz de Cristo que
“ilumina a todo homem” (Jo. 1, 9). A presença da Igreja entre as
religiões não cristãs é feita de empenho, discernimento e testemunho,
apoiados na fé, esperança e caridade teologais 119.
254. Mesmo quando o
subjetivismo e a identidade pouco definida de certas propostas
dificultam os contatos, isso não nos permite abandonar o compromisso e a
graça do diálogo 120. Em lugar de desistir, é necessário investir no
conhecimento das religiões, no discernimento teológico-pastoral e na
formação de agentes competentes para o diálogo interreligioso, atendendo
às diferentes visões religiosas presentes nas culturas de nosso
continente. O diálogo interreligioso não significa que deixar de
anunciar a Boa Nova de Jesus Cristo aos povos não cristãos, mas com
mansidão e respeito por suas convicções religiosas.
255. O diálogo interreligioso, além de seu caráter teológico, tem um
especial significado na construção da nova humanidade: abre caminhos
inéditos de testemunho cristão, promove a liberdade e dignidade dos
povos, estimula a colaboração para o bem comum, supera a violência
motivada por atitudes religiosas fundamentalistas, educa para a paz e
para a convivência cidadã: é um campo de bem-aventuranças no rastro da
Doutrina Social da Igreja.
CAPÍTULO 6
O CAMINHO DE FORMAÇÃO DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS
6.1 Uma espiritualidade trinitária do encontro com Jesus Cristo
256. Uma autêntica proposta de encontro com Jesus Cristo deve se
estabelecer sobre o sólido fundamento da
Trindade-Amor. Somos filhos da comunhão e não da solidão. A experiência
de um Deus uno e trino, que
é unidade e comunhão inseparável, permite-nos superar o egoísmo para nos encontrar plenamente
no serviço para com o outro. A experiência batismal é o ponto de início
de toda espiritualidade
cristã que se funda na Trindade.
257. É Deus Pai que
nos atrai por meio da entrega eucarística de seu Filho (cf. Jo. 6, 44),
dom de amor com o qual saiu ao
encontro de seus filhos, para que, renovados pela força do Espírito,
possamos chamá-lo de Pai:
“Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu próprio Filho,
nascido de uma mulher, nascido
sob o domínio da lei, para nos libertar do domínio da lei e fazer com
que recebêssemos a condição de filhos adotivos de Deus. E porque já
somos filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho a nossos
corações e o Espírito clama: Abbá! Pai!” (Gl. 4, 4-5). Trata-se de uma
nova
criação, onde o amor
do Pai, do Filho e do Espírito Santo, renova a vida das criaturas.
258. Na história do
amor trinitário, Jesus de Nazaré, homem como nós e Deus conosco, morto e ressuscitado, nos é
dado como Caminho, Verdade e Vida. No encontro de fé com o inaudito
realismo de sua Encarnação,
podemos ouvir, ver com nossos olhos, contemplar e tocar com nossas mãos
a Palavra de vida (cf.
1ª Jo. 1, 1), experimentamos que “o próprio Deus vai atrás da ovelha
perdida, a humanidade doente e
extraviada. Quando em suas parábolas Jesus fala do pastor que vai atrás
da ovelha desgarrada, da
mulher que procura a dracma, do pai que sai ao encontro de seu filho
pródigo e o abraça, não se
trata só de meras palavras, mas da explicação de seu próprio ser e
agir” 121. Esta prova definitiva de
amor tem o caráter de um esvaziamento radical (kenosis), porque Cristo
“se humilhou a si mesmo fazendo-se obediente até a morte e morte de
cruz” (Fl. 2, 8).
6.1.1 O encontro com
Jesus Cristo
259. O acontecimento
de Cristo é, portanto, o início desse sujeito novo que surge na história
e a quem chamamos discípulo: “Não se começa a ser cristão por uma
decisão ética ou uma grande idéia, mas através do encontro com um
acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com
isso, uma orientação decisiva” 122. Isto é justamente o que, com
apresentações diferentes, todos os evangelhos nos tem conservado como
sendo o início do cristianismo: um encontro de fé com a pessoa de Jesus
(cf. Jo. 1, 35-39).
260. A própria
natureza do cristianismo consiste, portanto, em reconhecer a presença de
Jesus Cristo e segui-lo. Essa foi
a maravilhosa experiência daqueles primeiros discípulos que, encontrando
Jesus, ficaram fascinados e
cheios de assombro frente a excepcional idade de quem lhes falava,
diante da maneira como os
tratava, coincidindo com a fome e sede de vida que havia em seus
corações. O evangelista João nos
deixou por escrito o impacto que a pessoa de Jesus produziu nos
primeiros discípulos que o
encontraram, João e André. Tudo começa com uma pergunta: “que procuram?”
(Jo. 1, 38). A essa
pergunta seguiu um convite a viver uma experiência: “venham e verão” (Jo.
1, 39). Esta narração permanecerá
na história como síntese única do método cristão.
261. No hoje do nosso
continente latino-americano, levanta-se a mesma pergunta cheia de
expectativa: “Mestre, onde vives?” (Jo. 1, 38), onde te encontramos de
maneira adequada para “abrir um autêntico processo de conversão,
comunhão e solidariedade?”123 Quais são os lugares, as pessoas, os dons
que nos falam de ti, que nos colocam em comunhão contigo e nos permitem
ser discípulos e teus missionários?
6.1.2 Lugares de
encontro com Jesus Cristo
262. O encontro com
Cristo, graças à ação invisível do Espírito Santo, realiza-se na fé
recebida e vivida na Igreja. Com
as palavras do papa Bento XVI repetimos com certeza: “A Igreja é nossa
casa! Esta é nossa casa” Na
Igreja católica temos tudo o que é bom, tudo o que é motivo de segurança
e de consolo! Quem aceita
a Cristo: Caminho, Verdade e Vida, em sua totalidade, tem garantida a
paz e a felicidade, nesta e
na outra vida!” 124.
263. Encontramos
Jesus na Sagrada Escritura, lida na Igreja. A Sagrada Escritura,
“Palavra de Deus escrita por
inspiração do Espírito Santo” 125, é – com a Tradição – fonte de vida
para a Igreja e alma de sua ação
evangelizadora. Desconhecer a Escritura é desconhecer Jesus Cristo e
renunciar a anunciá-lo. Daí o
convite de Bento XVI: “Ao iniciar a nova etapa que a Igreja missionária
da América Latina e do Caribe se
dispõe a empreender, a partir desta V Conferência em Aparecida, é
condição indispensável o
conhecimento profundo e vivencial da Palavra de Deus, Por isto, é
necessário educar o povo na leitura e
na meditação da palavra: que ela se converta em seu alimento para que,
por experiência própria,
vejam que as palavras de Jesus são espírito e vida (cf. Jo. 6, 63). Do
contrário, como vão anunciar uma mensagem cujo conteúdo e espírito não
conhecem profundamente? É preciso fundamentar nosso compromisso
missionário e toda nossa vida na rocha da Palavra de Deus” 126.
264. Faz-se, pois,
necessário propor aos fiéis a Palavra de Deus como dom do Pai para o
encontro com Jesus Cristo
vivo, caminho de “autêntica conversão e de renovada comunhão e
solidariedade” 127. Esta proposta será mediação de encontro com o Senhor
se for apresentada a Palavra revelada, contida na Escritura, como fonte
de evangelização. Os discípulos de Jesus desejam se alimentar com o Pão
da Palavra: querem chegar à interpretação adequada dos textos bíblicos,
empregá-los como mediação de diálogo com Jesus Cristo e a que sejam alma
da própria evangelização e do anúncio de Jesus a todos. Por isto, a
importância de uma “pastoral bíblica”, entendida como animação bíblica
da pastoral, que seja escola de interpretação ou conhecimento da
Palavra, de comunhão com Jesus ou oração com a Palavra, e de
evangelização inculturada ou de proclamação da Palavra. Isto exige por
parte dos bispos, presbíteros, diáconos e ministros leigos da Palavra
uma aproximação à Sagrada Escritura que não seja só intelectual e
instrumental, mas com um coração “faminto de ouvir a Palavra do Senhor”
(Am. 8, 11).
265. Entre as muitas
formas de se aproximar da Sagrada Escritura existe uma privilegiada à
qual todos estamos
convidados: a Lectio divina ou exercício de leitura orante da Sagrada
Escritura. Esta leitura orante, bem
praticada, conduz ao encontro com Jesus-Mestre, ao conhecimento do
mistério de Jesus-Messias, à
comunhão com Jesus-Filho de Deus e ao testemunho de Jesus-Senhor do universo. Com seus
quatro momentos (leitura, meditação, oração, contemplação), a leitura
orante favorece o encontro
pessoal com Jesus Cristo semelhante ao modo de tantos personagens do evangelho: Nicodemos
e sua ânsia de vida eterna (cf. Jo. 3, 1-21), a Samaritana e seu desejo
de culto verdadeiro (cf. Jo.
4, 1-12), o cego de nascimento e seu desejo de luz interior (cf. Jo. 9),
Zaqueu e sua vontade de ser
diferente (cf. Lc. 19, 1-10)... Todos eles, graças a este encontro,
foram iluminados e recriados porque se
abriram à experiência da misericórdia do Pai que se oferece por sua
Palavra de verdade e vida. Não
abriram seu coração para algo do Messias, mas ao próprio Messias,
caminho de crescimento na
“maturidade conforme a sua plenitude” (Ef. 4, 13), processo de
discipulado, de comunhão com os
irmãos e de compromisso com a sociedade.
266. A Eucaristia é o
lugar privilegiado do encontro do discípulo com Jesus Cristo. Com este Sacramento, Jesus nos
atrai para si e nos faz entrar em seu dinamismo em relação a Deus e ao próximo. A
Eucaristia, fonte inesgotável da vocação divina e lugar de encontro com
Jesus Cristo ressuscitado na
Igreja, é também fonte inextinguível do impulso missionário. Há um
estreito vínculo entre as três
dimensões da vocação cristã: crer, celebrar e viver o mistério de Jesus
Cristo, de tal modo, que a
existência cristã adquira verdadeiramente uma forma eucarística. Por
isso, a vida do cristão se abre a uma
dimensão missionária a partir do encontro eucarístico. Ali, o Espírito
Santo fortalece a
identidade do discípulo e desperta nele a decidida vontade de anunciar
com audácia aos demais o que tem
escutado e vivido.
267. Na Sagrada
Liturgia encontramos Jesus Cristo, de modo admirável,. Ao vivê-la,
celebrando o mistério pascal, os
fiéis realizam de modo excelente sua vocação de discípulos e
missionários de Jesus Cristo. A
Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Vaticano II nos mostra o lugar
e a função da liturgia no
seguimento de Cristo, na ação missionária dos cristãos, na vida de
Cristo e na vida de nossos povos em
Cristo 128. Em cada Eucaristia os cristãos celebram e assumem o mistério
pascal, identificam-se com
Ele. Morrem com Cristo e ressuscitam com Ele. A Eucaristia é, por
excelência, expressão da vida dos
discípulos e missionários do Senhor Jesus, de onde extraem e vivem a plenitude da vida em
Cristo e a compartilham com o próximo. Portanto, os fiéis devem ser
levados a viver sua fé na
centralidade do mistério pascal de Cristo através da Eucaristia, de modo
que toda a vida dos fiéis se
torne cada vez mais vida eucarística. É na liturgia que os discípulos de
Cristo mais penetram nos
mistérios do Reino, onde eles vivem e expressam de modo sacramental sua
vocação de discípulos e
missionários.
268. Assim,
entende-se assim a grande importância do preceito dominical de “viver
segundo o domingo”, com uma
necessidade interior do cristão, da família cristã, da comunidade
paroquial. Sem uma participação
ativa na celebração eucarística dominical e nas festas de preceito não
existirá um discípulo missionário
maduro. Cada grande reforma na Igreja está vinculada ao redescobrimento
da fé na Eucaristia 129.
Por causa disso, é importante promover a “pastoral do domingo” e dar a
ela “prioridade nos
programas pastorais” 130 para um novo impulso na evangelização do povo de
Deus
no continente
latino-americano.
269. Com profundo
afeto pastoral às milhares de comunidades com seus milhões de membros,
que não têm a
oportunidade de participar da Eucaristia dominical, que também elas
podem e devem viver “segundo o domingo”. Elas podem alimentar seu já
admirável espírito missionário participando da “celebração dominical da
Palavra”, que faz presente o Mistério Pascal no amor que congrega (cf. 1ª Jo. 3, 14), na
Palavra acolhida (cf. Jo. 5, 24-25) e na oração comunitária (cf. Mt.
18, 20). Sem dúvida, os fiéis devem desejar a
participação plena na Eucaristia dominical, pela qual também os
motivamos a orar pelas vocações
sacerdotais.
270. A oração pessoal
e comunitária é o lugar onde o discípulo, alimentado pela Palavra e pela Eucaristia, cultiva
uma relação de profunda amizade com Jesus Cristo e procura assumir a
vontade do Pai. A oração diária
é um sinal do primado da graça no caminho do discípulo missionário. Por
isso, “é necessário aprender a
orar, voltando sempre a aprender esta arte dos lábios do Mestre” 131.
271. Jesus está
presente em meio a uma comunidade viva na fé e no amor fraterno. Ali Ele
cumpre sua promessa: “Onde
estão dois ou três reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles”
(Mt. 18, 20). Ele está em todos os discípulos que procuram fazer sua a
existência de Jesus, vida escondida na sua vida (cf. Cl.
3, 3), que experimentam a força de sua ressurreição até se identificar
profundamente com Ele: “Já não vivo eu, mas é Cristo que vive em mim”
(Gl. 2, 20). Jesus está nos Pastores, que
representam o próprio Cristo (cf. Mt 10,40; Lc 10,16). Está naqueles que
dão testemunho de luta por justiça, pela paz e pelo bem comum, algumas
vezes chegando a entregar a própria vida. Está em
todos os acontecimentos da vida de nossos povos, que nos convidam a
procurar um mundo mais justo e mais fraterno. Está em toda realidade
humana, cujos limites às vezes causam dor e nos agoniam.
272. Também o
encontramos de um modo especial nos pobres, aflitos e enfermos (cf. Mt.
25, 37-40), que exigem nosso
compromisso e nos dão testemunho de fé, paciência no sofrimento e
constante luta para continuar
vivendo. Quantas vezes os pobres e os que sofrem realmente nos
evangelizam! No reconhecimento
desta presença e proximidade e na defesa dos direitos dos excluídos
encontra-se a fidelidade da
Igreja a Jesus Cristo 132. O encontro com Jesus Cristo através dos
pobres é uma dimensão constitutiva
de nossa fé em Jesus Cristo. Da contemplação do rosto sofredor de Cristo
neles 133 e do encontro com Ele nos aflitos e marginalizados, cuja
imensa dignidade Ele mesmo nos revela, surge nossa opção por eles. A
mesma união a Jesus Cristo é a que nos faz amigos dos pobres e
solidários com seu destino.
6.1.3 Uma
espiritualidade da ação missionária
273. Quando falamos
de “espiritualidade” nos referimos concretamente ao impulso do Espírito,
a sua potência de vida que
mobiliza e transfigura todas as dimensões da existência. Não é uma
experiência que se limita aos
espaços privados da devoção, mas que procura penetrá-lo completamente
com seu fogo e sua vida. A
ação do discípulo missionário necessita desse impulso e desse ardor que
provêm do Espírito e se
expressam no trabalho, no diálogo, no serviço e na missão cotidiana.
274. Se o impulso do
Espírito impregna e motiva todas as áreas da existência, então também
deve penetrar e configurar
a vocação específica de cada pessoa. Assim se desenvolve a
espiritualidade própria de
presbíteros, de religiosos e religiosas, de pais de família, de
empresários, de catequistas, etc. Cada uma das
vocações tem um modo concreto e diferente de viver a espiritualidade,
que dá profundidade e
entusiasmo para o exercício concreto de suas tarefas. Dessa forma, a
vida no Espírito não nos encerra em
uma intimidade cômoda e fechada, mas sim nos torna pessoas generosas e criativas, felizes no
serviço. Torna-nos comprometidos com os sinais da realidade e capazes de encontrar um profundo
significado a tudo o que nos toca fazer pela Igreja e pelo mundo.
6.1.4 A piedade
popular como lugar de encontro com Cristo
275. O santo padre
destacou a “rica e profunda religiosidade popular, na qual aparece a
alma dos povos
latino-americanos, e a apresentou como “o precioso tesouro da Igreja
católica na América Latina” 134. Convidou
a promovê-la e a protegê-la. Esta maneira de expressar a fé está
presente de diversas formas em
todos os setores sociais, em uma multidão que merece nosso respeito e
carinho, porque sua piedade
“reflete uma sede de Deus que somente os pobres e simples podem conhecer” 135. A
“religião do povo latino-americano é expressão da fé católica. É um
catolicismo popular” 136,
profundamente inculturado, que contem a dimensão mais valiosa da cultura
latino-americana.
276. Entre as
expressões desta espiritualidade contam-se: as festas patronais, as
novenas, os rosários e via crucis, as
procissões, as danças e os cânticos do folclore religioso, o carinho aos
santos e aos anjos, as promessas, as orações em família. Destacamos as
peregrinações onde é possível reconhecer o Povo de Deus no caminho. Ali
o cristão celebra a alegria de se sentir imerso em meio a tantos irmãos,
caminhando juntos para Deus que os espera. O próprio Cristo se faz
peregrino e caminha ressuscitado entre os pobres. A decisão de caminhar
em direção ao santuário já é uma confissão de fé, o caminhar é um
verdadeiro canto de esperança e a chegada é um encontro de amor. O olhar
do peregrino se deposita sobre uma imagem que simboliza a ternura e a
proximidade de Deus. O amor se detém, contempla o silêncio, desfruta
dele em silêncio. Também se comove, derramando todo o peso de sua dor e
de seus sonhos. A súplica sincera, que flui confiadamente, é a melhor
expressão de um coração que renunciou à auto-suficiência, reconhecendo
que sozinho, nada é possível. Um breve instante sintetiza uma viva
experiência espiritual.
277. Ali, o peregrino
vive a experiência de um mistério que o supera, não só da transcendência
de Deus, mas também da
Igreja, que transcende sua família e seu bairro. Nos santuários, muitos peregrinos tomam
decisões que marcam suas vidas. As paredes dos santuários contêm muitas histórias de
conversão, de perdão e de dons recebidos que milhões poderiam contar.
278. A piedade
popular penetra delicadamente a existência pessoal de cada fiel e ainda
que se viva em uma multidão, não
é uma “espiritualidade de massas”. Nos diferentes momentos da luta
cotidiana, muitos recorrem a algum pequeno sinal do amor de Deus: um
crucifixo, um rosário, uma vela que se acende para acompanhar um filho
em sua enfermidade, um Pai Nosso recitado entre lágrimas, um olhar
entranhável a uma imagem querida de Maria, um sorriso dirigido ao Céu em
meio a uma simples alegria.
279. É verdade que a
fé que se encarnou na cultura pode ser aprofundada e penetrar cada vez
mais na forma de viver de
nossos povos. Mas isso só pode acontecer se valorizarmos positivamente o
que o Espírito Santo já
semeou. A piedade popular é um “imprescindível ponto de partida para
conseguir que a fé do povo
amadureça e se faça mais fecunda” 137. Por isso, o discípulo missionário
precisa ser “sensível a ela,
saber perceber suas dimensões interiores e seus valores inegáveis” 138.
Quando afirmamos que é
necessário evangelizá-la ou purificá-la, não queremos dizer que esteja
privada de riqueza evangélica.
Simplesmente desejamos que todos os membros do povo fiel, reconhecendo o testemunho de Maria,
procurem imitá-la cada dia mais. Assim procurarão um contato mais direto com a Bíblia e uma
maior participação nos sacramentos, chegarão a desfrutar da celebração
dominical da Eucaristia e viverão melhor o serviço do amor solidário.
Por este caminho será possível aproveitar o mais rico potencial de
santidade e de justiça social que encerra a mística popular.
280. Não podemos
rebaixar a espiritualidade popular ou considerá-la um modo secundário da
vida cristã, porque seria
esquecer o primado da ação do Espírito e a iniciativa gratuita do amor
de Deus. A piedade popular
contém e expressa um intenso sentido da transcendência, uma capacidade
espontânea de se apoiar em Deus e uma verdadeira experiência de amor
teologal. É também uma expressão de
sabedoria sobrenatural, porque a sabedoria do amor não depende
diretamente da ilustração da mente,
mas da ação interna da graça. Por isso, a chamamos de espiritualidade
popular. Ou seja, uma
espiritualidade cristã que, sendo um encontro pessoal com o Senhor,
integra muito o corpóreo, o sensível,
o simbólico e as necessidades mais concretas das pessoas. É uma espiritualidade
encarnada na cultura dos simples, que nem por isso é menos espiritual,
mas que o é de outra maneira.
281. A piedade
popular é uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte
da Igreja e uma forma de ser
missionários, onde se recolhem as mais profundas vibrações da América
Latina. É parte de uma
“originalidade histórica cultural”139 dos pobres deste Continente, e
fruto de “uma síntese entre as culturas e a fé cristã”140. No ambiente
de secularização que vivem nossos povos, continua sendo uma poderosa
confissão do Deus vivo que atua na história e um canal de transmissão da
fé. O caminhar juntos para os santuários e o participar em outras
manifestações da piedade popular, levando também os filhos ou convidando
a outras pessoas, é em si mesmo um gesto evangelizador pelo qual o povo
cristão evangeliza a si mesmo e cumpre a vocação missionária da Igreja.
282. Nossos povos se
identificam particularmente com o Cristo sofredor, olham-no, beijam-no
ou tocam seus pés
machucados, como se dissessem: Este é “o que me amou e se entregou por
mim” (Gl. 2, 20). Muitos deles
golpeados, ignorados despojados, não abaixam os braços. Com sua
religiosidade característica se
agarram no imenso amor que Deus tem por eles e que lhes recorda
permanentemente sua própria dignidade. Também encontram a ternura e o
amor de Deus no rosto de Maria. Nela vem
refletida a mensagem essencial do Evangelho. Nossa Mãe querida, desde o santuário de
Guadalupe, faz sentir a seus filhos menores que eles estão na dobra de
seu manto. Agora, desde
Aparecida, convida-os a lançar as redes ao mundo, para tirar do
anonimato aqueles que estão submersos no
esquecimento e aproximá-los da luz da fé. Ela, reunindo os filhos,
integra nossos povos ao redor de
Jesus Cristo.
6.1.5 Maria,
discípula e missionária
283. A máxima
realização da existência cristã como um viver trinitário de “filhos no
Filho” nos é dada na Virgem Maria que,
através de sua fé (cf. Lc. 1, 45) e obediência à vontade de Deus (cf. Lc.
1, 38), assim como por sua
constante meditação da Palavra e das ações de Jesus (cf. Lc. 2, 19. 51),
é a discípula mais
perfeita do Senhor 141. Interlocutora do Pai em seu projeto de enviar
seu verbo ao mundo para a salvação
humana, com sua fé, Maria chega a ser o primeiro membro da comunidade dos crentes em
Cristo, e também se faz colaboradora no renascimento espiritual dos
discípulos. Sua figura de mulher
livre e forte, emerge do Evangelho conscientemente orientada para o
verdadeiro seguimento de Cristo.
Ela viveu completamente toda a peregrinação da fé como mãe de Cristo e depois dos
discípulos, sem que fosse livrada da incompreensão e da busca constante
do projeto do Pai. Alcançou, dessa
forma, o fato de estar ao pé da cruz em uma comunhão profunda, para
entrar plenamente no
mistério da Aliança.
284. Com ela,
providencialmente unida à plenitude dos tempos (cf. Gl. 4, 4) chega o
cumprimento da esperança dos pobres
e do desejo de salvação. A Virgem de Nazaré teve papel único na história
da salvação, concebendo,
educando e acompanhando seu filho até seu sacrifício definitivo. Desde a
cruz Jesus Cristo confiou
a seus discípulos, representados por João, o dom da maternidade de
Maria, que nasce diretamente da
hora pascal de Cristo: “E desse momento em diante, o discípulo a recebeu
em sua casa” (Jo. 19, 27).
Perseverando junto aos apóstolos à espera do Espírito (cf. At. 1, 13-14),
ela
cooperou com o
nascimento da Igreja missionária, imprimindo-lhe um selo mariano que a
identifica profundamente. Como
mãe de tantos, fortalece os vínculos fraternos entre todos, estimula a
reconciliação e o perdão e ajuda os discípulos de Jesus Cristo a
experimentarem como uma família, a família de Deus.
285. Como na família
humana, a Igreja-família é gerada ao redor de uma mãe, que confere
“alma” e ternura à convivência
familiar 142. Maria, Mãe da Igreja, além de modelo e paradigma da
humanidade, é artífice de comunhão. Um dos eventos fundamentais da
Igreja é quando o “sim” brotou de Maria. Ela atrai multidões à comunhão
com Jesus e sua Igreja, como experimentamos muitas vezes nos santuários
marianos. Por isso, como a Virgem Maria, a Igreja é mãe. Esta visão
mariana da Igreja é o melhor remédio para uma Igreja meramente funcional
ou burocrática.
286. Maria é a grande
missionária, continuadora da missão de seu Filho e formadora de
missionários. Ela, da mesma forma
como deu à luz ao Salvador do mundo, trouxe o Evangelho a nossa América.
No acontecimento em
Guadalupe, presidiu junto com o humilde João Diego o Pentecostes que nos
abriu aos dons do Espírito.
A partir desse momento são incontáveis as comunidades que encontraram
nela a inspiração mais
próxima para aprender como serem discípulos e missionários de Jesus. Com
alegria constatamos que ela
tem feito parte do caminhar de cada um de nossos povos, entrando
profundamente no tecido de sua história e acolhendo as ações mais nobres
e significativas de sua gente. Os diversos
nomes e os santuários espalhados por todo o Continente testemunham a
presença de Maria próxima às pessoas e, ao mesmo tempo, manifestam a fé
e a confiança que os devotos sentem por ela. Ela pertence a eles e eles
a sentem como mãe e irmã.
287. Hoje, quando em
nosso Continente latino-americano e caribenho se quer enfatizar o
discipulado e a missão, é ela
quem brilha diante de nossos olhos como imagem acabada e fidelíssima do
seguimento de Cristo. Esta é a hora da seguidora mais radical de Cristo,
de seu magistério discipular e missionário conforme
nos envia o Papa Bento XVI: “ Maria Santíssima, a Virgem pura e sem
mancha é para nós escola de fé
destinada a nos conduzir e a nos fortalecer no caminho que conduz ao
encontro com o Criador do céu e da terra. O Papa veio a Aparecida com
viva alegria para nos dizer em primeiro lugar: “Permaneçam na escola de
Maria. Inspirem-se em seus ensinamentos. Procurem acolher e guardar
dentro do coração as luzes que ela, por mandato divino, envia a vocês a
partir do alto” 143.
288. Ela, que
“conservava todas estas recordações e meditava em seu coração” (Lc. 2,
19; cf. 2, 51), ensina-nos o primado
da escuta da Palavra na vida do discípulo e missionário. O Magnificat
“está inteiramente tecido
pelos fios da Sagrada Escritura, os fios tomados da palavra de Deus.
Assim se revela que nela a
Palavra de Deus se encontra de verdade em sua casa, de onde sai e entra
com naturalidade. Ela
fala e pensa com a Palavra de Deus; a Palavra de Deus se faz a sua
palavra e sua palavra nasce da
Palavra de Deus. Além disso, assim se revela que seus pensamentos estão
em sintonia com os
pensamentos de Deus, que seu querer é um querer junto com Deus. Estando intimamente penetrada
pela Palavra de Deus, Ela pode chegar a ser mãe da Palavra encarnada”
144. Esta familiaridade
com o mistério de Jesus é facilitada pela reza do Rosário, onde: “o povo
cristão aprende de Maria a
contemplar a beleza do rosto de Cristo e a experimentar a profundidade
de seu amor. Mediante o
Rosário, o cristão obtém abundantes graças, como recebendo-as das
próprias mãos da mãe do
Redentor” 145.
289. Com os olhos
postos em seus filhos e em suas necessidades, como em Caná da Galiléia,
Maria ajuda a manter vivas
as atitudes de atenção, de serviço, de entrega e de gratuidade que devem distinguir os
discípulos de seu Filho. Indica, além do mais, qual é a pedagogia para
que os pobres, em cada comunidade
cristã, “sintam-se como em sua casa” 146. Cria comunhão e educa para um
estilo de vida compartilhada
e solidária, em fraternidade, em atenção e acolhida do outro,
especialmente se é pobre ou
necessitado. Em nossas comunidades, sua forte presença tem enriquecido e
seguirá enriquecendo a
dimensão materna da Igreja e sua atitude acolhedora, que a converte em
“casa e escola da comunhão”
147 e em espaço espiritual que prepara para a missão.
6.1.6 Os apóstolos e
os santos
290. Também os
apóstolos de Jesus e os santos marcaram a espiritualidade e o estilo de
vida de nossas Igrejas. Seu
testemunho se mantém vigente e seus ensinamentos inspiram o ser e a ação
das comunidades cristãs
do Continente. Entre eles, Pedro o apóstolo, a quem Jesus confiou a
missão de confirmar a fé de
seus irmãos (cf. Lc. 22, 31-32), ajuda a estreitar o vínculo de comunhão
com o Papa, seu sucessor, e a
buscar em Jesus as palavras de vida eterna. Paulo, o evangelizador
incansável, tem indicado o caminho da
audácia missionária e a vontade de se aproximar de cada realidade
cultural com a Boa Nova da
salvação. João, o discípulo amado do Senhor, tem revelado a força
transformadora do mandamento novo e a fecundidade de permanecer em seu
amor.
291. Nossos povos
nutrem um carinho e especial devoção por José, esposo de Maria, homem
justo, fiel e generoso que
sabe se perder para se achar no mistério do Filho. São José, o
silencioso mestre, fascina, atrai e
ensina, não com palavras mas com o resplandecente testemunho de suas
virtudes e de sua firme
simplicidade.
292. Nossas
comunidades levam o selo dos apóstolos e, além disso, reconhecem o
testemunho cristão de tantos
homens e mulheres que espalharam em nossa geografia as sementes do
Evangelho, vivendo valentemente
sua fé, inclusive derramando seu sangue como mártires. Seu exemplo de
vida e santidade constitui
um presente precioso para o caminho cristão dos latino-americanos e, simultaneamente, um
estímulo para imitar suas virtudes nas novas expressões culturais da
história. Com a paixão de seu
amor a Jesus Cristo, eles foram membros ativos e missionários em sua comunidade eclesial.
Com valentia, perseveraram na promoção dos direitos das pessoas, foram perspicazes no
discernimento crítico da realidade à luz do ensino social da Igreja e
críveis pelo testemunho coerente
de suas vidas. Nós, cristãos de hoje, acolhemos sua herança e nos
sentimos chamados a continuar
com renovado ardor apostólico e missionário o estilo evangélico de vida
que nos transmitiram.
6.2. O processo de
formação dos discípulos missionários
293. A vocação e o
compromisso de ser hoje discípulos e missionários de Jesus Cristo na
América Latina e no Caribe,
requerem uma clara e decidida opção pela formação dos membros de nossas comunidades, para
todos os batizados, qualquer que seja a função que desenvolvem na
Igreja. Olhamos para Jesus, o
Mestre que formou pessoalmente a seus apóstolos e discípulos. Cristo nos
dá o método: “Eu sou o
Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo. 14, 6). Com ele podemos desenvolver as potencialidades que
estão nas pessoas e formar discípulos missionários. Com perseverante
paciência e sabedoria, Jesus
convidou a todos para que o seguissem e introduziu aqueles que aceitaram
seguilo no mistério do Reino
de Deus. Depois de sua morte e ressurreição, enviou-os a pregar a Boa
Nova na força do Espírito.
Seu estilo se torna emblemático para os formadores e cobra especial
relevância quando pensamos na
paciente tarefa formativa que a Igreja deve empreender no novo contexto sócio-cultural da
América Latina.
294. O caminho de
formação do seguidor de Jesus lança suas raízes na natureza dinâmica da
pessoa e no convite pessoal
de Jesus Cristo, que chama os seus por seu nome e estes o seguem porque conhecem a sua voz. O
Senhor despertava as aspirações profundas de seus discípulos e os atraía
a si, maravilhados. O
seguimento é fruto de uma fascinação que responde ao desejo de
realização humana, ao desejo de vida plena. O discípulo é alguém
apaixonado por Cristo a quem reconhece como o mestre que o conduz e o
acompanha.
6.2.1 Aspectos do
processo
295. No processo de
formação de discípulos missionários destacamos cinco aspectos
fundamentais que aparecem de
maneira diversa em cada etapa do caminho, mas que se complementam intimamente e se
alimentam entre si:
a) O Encontro com
Jesus Cristo: É o Senhor quem chama (Mc. 1, 14; Mt. 9, 9: “Segue-me”). É
necessário propiciar este
encontro que dá origem à iniciação cristã, mas que deve se renovar
constantemente pelo testemunho
pessoal, pelo anúncio do kerigma e pela ação missionária da comunidade.
O kerygma não é somente uma etapa, mas o fio condutor de um processo que
culmina na maturidade do discípulo de Jesus
Cristo. Sem o kerygma, os demais aspectos deste processo estão
condenados à esterilidade, sem
corações verdadeiramente convertidos ao Senhor. Só a partir do kerygma
acontece
a possibilidade de
uma iniciação cristã verdadeira. Por isso, a Igreja precisa tê-lo
presente em todas as suas ações.
b) A Conversão: É a
resposta inicial de quem escutou o Senhor, crê n’Ele pela ação do
Espírito, decide-se ser seu
amigo e ir após Ele, mudando sua forma de pensar e de viver, aceitando a
cruz de Cristo, consciente de
que morrer para o pecado é alcançar a vida. No Batismo e no sacramento
da reconciliação se
atualiza para nós a redenção de Cristo.
c) O Discipulado: A
pessoa amadurece constantemente no conhecimento, amor e seguimento de Jesus Mestre,
aprofunda no mistério de sua pessoa, seu exemplo e sua doutrina. Para
isso são de fundamental
importância a catequese permanente e a vida sacramental, que fortalecem
a conversão inicial e permitem
que os discípulos missionários possam perseverar na vida cristã e na
missão em meio ao mundo que nos
desafia.
d) A Comunhão: Não
pode existir vida cristã fora da comunidade; sejam as famílias, as
paróquias, as comunidades de base,
outras pequenas comunidades e movimentos. Como os primeiros cristãos, que se reuniam em
comunidade, o discípulo participa na vida da Igreja e no encontro com os
irmãos, vivendo o amor de
Cristo na vida fraterna solidária. Ele também é acompanhado e estimulado
pela comunidade e seus
pastores para amadurecer na vida do Espírito.
e) A Missão: O
discípulo, à medida que conhece e ama a seu Senhor, experimenta a
necessidade de compartilhar com
outros a sua alegria de ser enviado, de ir ao mundo para anunciar Jesus
Cristo, morto e ressuscitado,
a fazer realidade o amor e o serviço na pessoa dos mais necessitados, em
uma palavra, a construir
o Reino de Deus. A missão é inseparável do discipulado, o qual não deve
ser entendido como uma
última etapa da formação, ainda que ela seja realizada de diversas
maneiras de acordo com a própria
vocação e ao momento da maturidade humana e cristã em que se encontre a pessoa.
6.2.2 Critérios
gerais
6.2.2.1 Uma formação
integral, kerygmática e permanente
296. A missão
principal da formação é ajudar os membros da Igreja a se encontrar
sempre com Cristo, e assim
reconhecer, acolher, interiorizar e desenvolver a experiência e os
valores que constituem a própria
identidade e missão cristã no mundo. Por isso, a formação obedece a um processo integral, ou
seja, que compreende várias dimensões, todas harmonizadas entre si em unidade vital. Na
base destas dimensões está a força do anúncio kerygmático. O poder do
Espírito e da Palavra contagia
as pessoas e as leva a escutar a Jesus Cristo, a crer n’Ele como seu
Salvador, a reconhecê-lo como
quem dá o pleno significado a suas vidas e a seguir seus passos. O
anúncio se fundamenta no fato da
presença de Cristo Ressuscitado hoje na Igreja, e é fator imprescindível
no processo de formação
de discípulos e missionários. Ao mesmo tempo, a formação é permanente e dinâmica, de acordo
com o desenvolvimento das pessoas e como serviço que são chamadas a prestar, em meios às
exigências da história.
6.2.2.2 Uma formação
atenta a dimensões diversas
297. A formação
abrange diversas dimensões que deverão ser integradas harmonicamente ao
longo de todo o processo de
formação. Trata-se da dimensão humana, espiritual, intelectual,
comunitária e pastoral-misisonária.
a) A Dimensão Humana e Comunitária. Tende a acompanhar processos de
formação que levam a pessoa a assumir a
própria história e a curá-la, com o objetivo de se tornar capaz de viver
como cristão em um mundo
plural, com equilíbrio, fortaleza, serenidade e liberdade interior.
Trata-se de desenvolver
personalidades que amadureçam em contato com a realidade e abertas ao
Mistério.
b) A Dimensão
Espiritual: É a dimensão formativa que funda o ser cristão na
experiência de Deus manifestado em Jesus
e que o conduz pelo Espírito através dos caminhos de um amadurecimento profundo. Por meio
dos diversos carismas a pessoa se fundamenta no caminho da vida e do
serviço proposto por Cristo,
com um estilo pessoal. Assim como a Virgem Maria, essa dimensão permite
ao cristão aderir de
coração e pela fé aos caminhos alegres, luminosos, dolorosos e gloriosos
de seu Mestre e Senhor.
c) A Dimensão
Intelectual: O encontro com Cristo, Palavra feita carne, potencializa o
dinamismo da razão que procura o
significado da realidade e se abre para o Mistério. Ela se expressa em
uma reflexão séria, feita
diariamente no estudo que abre, com a luz da fé, abre a inteligência à
verdade. Também capacita para
o discernimento, o juízo crítico e o diálogo sobre a realidade e a
cultura. Assegura de uma
maneira especial o conhecimento bíblico-teológico e das ciências humanas
para adquirir a necessária
competência em vista dos serviços eclesiais que se requeira e para a
adequada presença na vida
secular.
d) A dimensão
Pastoral e Missionária: Um autêntico caminho cristão preenche de alegria
e esperança o coração e leva o
cristão a anunciar a Cristo de maneira constante em sua vida e em seu
ambiente. Projeta para a missão
de formar discípulos e missionários para serviço do mundo. Habilita a
propor projetos e estilos de
vida cristão atraentes, com intervenções orgânicas e de colaboração
fraterna com todos os membros
da comunidade. Contribui para integrar evangelização e pedagogia, comunicando vida e
oferecendo itinerários de acordo com a maturidade cristã, a idade e
outras condições próprias
das pessoas ou dos grupos. Incentiva a responsabilidade dos leigos no
mundo para construir o
Reino de Deus. Desperta uma inquietude constante pelos distanciados e
pelos que ignoram o Senhor em
suas vidas.
6.2.2.3 Uma formação
respeitosa dos processos
298. Chegar à altura
de uma vida nova em Cristo, identificando-se profundamente com Ele 148 e
sua missão, é um caminho
longo que requer itinerários diversificados, respeitosos dos processos
pessoais e dos ritmos
comunitários, contínuos e graduais. O eixo central deverá ser um projeto
orgânico de formação, elaborado
pelos organismos diocesanos competentes, levando em consideração todas
as forças vivas da
Igreja local: associações, serviços e movimentos, comunidades
religiosas, pequenas comunidades,
comissões de pastoral social e diversos organismos eclesiais que
ofereçam a visão do conjunto e da
convergência das diversas iniciativas. Requer-se também equipes de
formação convenientemente
preparadas que assegurem a eficácia do próprio processo e que acompanhem
as pessoas com
pedagogias dinâmicas, ativas e abertas. A presença e contribuição de
leigos e leigas nas equipes de formação
apresenta uma riqueza original, pois, a partir de suas experiências e
competências, eles oferecem critérios, conteúdos e testemunhos valiosos
para aqueles que estão se formando.
6.2.2.4 Uma formação
que contempla o acompanhamento dos discípulos
299. Cada setor do
Povo de Deus requer que a pessoa seja acompanhada e formada de acordo
com a peculiar vocação e
ministério para o qual tenha sido chamada: o bispo é o princípio da
unidade na diocese devido a seu
tríplice ministério de ensinar, santificar e governar; os presbíteros
cooperam com o ministério do
bispo, no cuidado do povo de Deus que lhes foi confiado; os diáconos
permanentes no serviço vivificante, humilde e perseverante como ajuda
valiosa para os bispos e presbíteros; os
consagrados e consagradas no seguimento radical do Mestre; os leigos e
leigas cumprem sua
responsabilidade evangelizadora colaborando na formação de comunidades
cristãs e na construção do
Reino de Deus no mundo. Requer-se, portanto, capacitar aqueles que
possam acompanhar espiritual
e pastoralmente a outros.
300. Destacamos que a
formação dos leigos e leigas deve contribuir, antes de mais nada, para
sua atuação como
discípulos missionários no mundo, na perspectiva do diálogo e da
transformação da sociedade. É urgente
uma formação específica para que possam ter uma incidência significativa
nos diferentes campos,
sobretudo, “no mundo vasto da política, da realidade social e da
economia, como também da cultura,
das ciências e das artes, da vida internacional, dos meios de
comunicação e de outras realidades
abertas à evangelização” 149.
6.3 Iniciação à vida cristã e catequese permanente
6.3.1 Iniciação à vida cristã
301. São muitos os
cristãos que não participam na Eucaristia dominical nem recebem com
regularidade os sacramentos, nem se inserem ativamente na comunidade
eclesial. Essa situação nos desafia profundamente
a imaginar e organizar novas formas de aproximação deles para ajudá-los
a valorizar o sentido
da vida sacramental, da participação comunitária e do compromisso
cidadão. Temos uma alta
porcentagem de católicos sem consciência de sua missão de ser sal e
fermento no mundo, com uma
identidade cristã fraca e vulnerável.
302. Isto constitui
um grande desafio que questiona a fundo a maneira como estamos educando
na fé e como estamos
alimentando a experiência cristã; um desafio que devemos encarar com
decisão, com coragem e
criatividade, visto que em muitas partes a iniciação cristã tem sido
pobre e fragmentada. Ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente
em contato com Jesus Cristo e convidando-as para
seu seguimento, ou não cumpriremos nossa missão evangelizadora.
Impõem-se a tarefa
irrenunciável de oferecer uma modalidade de iniciação cristã, que além
de marcar o que, dê também elementos para
o quem, o como e o onde se realiza. Dessa forma, assumiremos o desafio de uma nova
evangelização, à qual temos sido reiteradamente convocados.
303. A iniciação
cristã, que inclui o kerygma, é a maneira prática de colocar alguém em
contato com Jesus Cristo e
iniciá-lo no discipulado. Dá-nos também a oportunidade de fortalecer a
unidade dos três sacramentos e
aprofundar a pessoa em seu rico sentido. A iniciação cristã propriamente
falando, refere-se à primeira
iniciação nos mistérios da fé, seja na forma do catecumenato
pós-batismal para os batizados não
suficientemente catequizados, seja na forma do catecumenato batismal
para os não batizados. Este
catecumenato está intimamente unido aos sacramentos da iniciação:
batismo, confirmação e eucaristia, celebrados solenemente na Vigília
Pascal. Teríamos que distingui-la, portanto, de outros processos
catequéticos e de formação que podem ter a iniciação cristã como base.
6.3.2 Proposta para a iniciação cristã
304. Sentimos a
urgência de desenvolver em nossas comunidades um processo de iniciação
na vida cristã que comece
pelo kerygma que guiado pela Palavra de Deus, permita um encontro
pessoal cada vez maior com Jesus
Cristo, experimentado como plenitude da humanidade e que leve à
conversão, ao seguimento em uma
comunidade eclesial e a um amadurecimento de fé na prática dos
sacramentos, do serviço e da missão.
305. Recordamos que o
caminho de formação do cristão na tradição mais antiga da Igreja “teve
sempre um caráter de experiência, na qual era determinante o encontro
vivo e persuasivo com Cristo, anunciado por autênticas testemunhas”150.
Trata-se de uma experiência que introduz o cristão numa profunda e feliz
celebração dos sacramentos, com toda a riqueza de seus sinais. Deste
modo, a vida vem se transformando progressivamente pelos santos
mistérios que se celebram, capacitando o cristão a transformar o mundo.
Isto é o que se chama “catequese mistagógica”.
306. Ser discípulo é
um dom destinado a crescer. A iniciação cristã dá a possibilidade de uma aprendizagem gradual
no conhecimento, no amor e no seguimento de Cristo. Dessa forma, ela
forja a identidade cristã com
as convicções fundamentais e acompanha a busca do sentido da vida. É necessário assumir o
dinamismo da iniciação cristã. Uma comunidade que assume a iniciação
cristã renova sua vida
comunitária e desperta seu caráter missionário. Isto requer novas
atitudes pastorais por parte dos bispos,
presbíteros, diáconos, pessoas consagradas e agentes de pastoral.
307. Como
características do discípulo que indica a iniciação cristã destacamos;
que ele tenha como centro a pessoa de
Jesus Cristo, nosso Salvador e plenitude de nossa humanidade, fonte de
toda maturidade humana e
cristã. Que tenha o espírito de oração, seja amante da Palavra, pratique
a confissão freqüente e
participe da Eucaristia. Que se insira cordialmente na comunidade
eclesial e social, seja
solidário no amor e um fervoroso missionário.
308. A paróquia
precisa ser o lugar onde se assegure a iniciação cristã e terá como
tarefas irrenunciáveis: iniciar na vida cristã os adultos batizados e
não suficientemente evangelizados; educar na fé as crianças batizadas em
um processo que os leve a completar sua iniciação cristã; iniciar os não
batizados que, havendo escutado o kerygma, querem abraçar a fé. Nesta
tarefa, o estudo e a assimilação do Ritual de Iniciação Cristã de
Adultos é uma referência necessária e um apoio seguro.
309. Assumir esta
iniciação cristã exige não só uma renovação da catequese, mas também uma reestruturação de
toda a vida pastoral da paróquia. Propomos que este processo de
iniciação cristã seja assumido em todo
o Continente como a maneira ordinária e indispensável de introdução na
vida cristã e como a
catequese básica e fundamental. Depois, virá a catequese permanente que
continua o processo de
amadurecimento da fé, na qual se deve incorporar um discernimento
vocacional e a iluminação para
projetos pessoais de vida.
6.3.3 Catequese
permanente
310. Quanto a
situação atual da catequese, é evidente que tem havido um progresso. Tem
crescido o tempo que se dedica à
preparação para os sacramentos. Tem-se tomado maior consciência de sua necessidade tanto nas
famílias como entre os pastores. Compreende-se que ela é imprescindível
em toda formação cristã.
Tem-se constituído ordinariamente comissões diocesanas e paroquiais de
catequese. É admirável o grande número de pessoas que se sentem chamadas
a se fazer catequistas, com grande entrega. A
elas, esta Assembléia manifesta um sincero reconhecimento.
311. No entanto,
apesar da boa vontade, a formação teológica e pedagógica dos catequistas
não costuma ser a
desejável. Os materiais são com freqüência muito variados e não se
integram em uma pastoral de conjunto;
e nem sempre são portadores de métodos pedagógicos atualizados. Os
serviços de catequese das paróquias frequentemente carecem de uma
colaboração próxima das famílias. Os párocos e demais responsáveis não
assumem com maior empenho a função que lhes corresponde como primeiros
catequistas.
312. Os desafios que
apresenta a situação da sociedade na América latina e no Caribe requerem
uma identidade católica
mais pessoal e fundamentada. O fortalecimento desta identidade passa por
uma catequese adequada
que promova uma adesão pessoal e comunitária a Cristo, sobretudo aos
mais fracos na fé 151. É
uma tarefa que incumbida a toda a comunidade de discípulos, mas de
maneira especial a nós que,
como bispos, temos sido chamados a servir à Igreja, pastoreando-a,
conduzindo-a ao encontro com Jesus
e ensinando-a a viver tudo o que Ele nos tem mandado (cf. Mt. 28, 19-20).
313. A catequese não
deve ser só ocasional, reduzida a momentos prévios aos sacramentos ou à iniciação cristã, mas
sim “um itinerário catequético permanente”152. Por isto, compete a cada
Igreja local, com a ajuda
das Conferências Episcopais, estabelecer um processo catequético
orgânico e progressivo que se
propague por toda a vida, desde a infância até a terceira idade, levando
em consideração que o
Diretório Geral de catequese considera a catequese de adultos como a
forma fundamental da
educação na fé. Para que o povo conheça a fundo e verdadeiramente a
Cristo e o siga fielmente, dele
deve ser conduzido especialmente na leitura e meditação da Palavra de
Deus, que é o primeiro
fundamento de uma catequese permanente 153.
314. A catequese não
pode se limitar a uma formação meramente doutrinal, mas precisa ser uma verdadeira escola de
formação integral. Portanto, é necessário cultivar a amizade com Cristo
na oração, o apreço pela
celebração litúrgica, a experiência comunitária, o compromisso
apostólico mediante um
permanente serviço aos demais. Para isso, seriam úteis alguns subsídios
catequéticos elaborados a partir
do Catecismo da Igreja Católica e do Compêndio da Doutrina Social da
Igreja, estabelecendo cursos
e escolas de formação permanente aos catequistas.
315. Deve ser dada
uma catequese apropriada que acompanhe a fé já presente na religiosidade popular. Uma maneira
concreta pode ser oferecer um processo de iniciação cristã em visitas às
famílias, onde não só seja comunicado elas os conteúdos da fé, mas que
também as conduza à prática da oração familiar, à leitura orante da
Palavra de Deus e ao desenvolvimento das virtudes evangélicas, que as
consolidem cada vez mais como Igrejas domésticas. Para este crescimento
na fé, também é conveniente
aproveitar pedagogicamente o potencial educativo presente na piedade
popular mariana. Trata-se de um caminho educativo que provoque a
apropriação progressiva das atitudes de Maria, verdadeira “educadora na
fé” 154 que nos leva a nos assemelhar cada vez mais a Jesus Cristo.
6.4 Lugares de
formação para os discípulos missionários
316. A seguir,
consideraremos brevemente alguns lugares de formação de discípulos
missionários.
6.4.1 A Família,
primeira escola da fé
317. A família,
“patrimônio da humanidade”, constitui um dos tesouros mais valiosos dos
povos latino-americanos.
Ela tem sido e é o lugar e escola de comunhão, fonte de valores humanos
e cívicos, lar no qual a vida humana nasce e se acolhe generosa e
responsavelmente. Para que a família seja “escola de fé” e possa ajudar
os pais a serem os primeiros catequistas de seus filhos, a pastoral
familiar deve oferecer espaços de formação, materiais catequéticos,
momentos celebrativos, que lhes permitam cumprir sua missão educativa. A
família é chamada a introduzir os filhos no caminho da iniciação cristã.
155
318. É, além disso,
um dever dos pais, através especialmente de seu exemplo de vida, a
educação dos filhos para o
amor com dom de si mesmos e a descobrir sua vocação de serviço, seja na
vida laica como na vida
consagrada. Deste modo, opera-se a formação dos filhos como discípulos
de Jesus Cristo, nas experiências da vida diária na família cristã. Os
filhos têm o direito de poder contar com o pai e a mãe para que
cuidem deles e os acompanhem até a plenitude de vida. A “catequese
familiar”, implementada de
diversas maneiras, experimentando ajuda de forma vitoriosa à unidade das
famílias oferece, além disso, uma possibilidade eficiente de formar os
pais de família, os jovens e as crianças, para que sejam testemunhas
firmes da fé em suas respectivas comunidades. A família, pequena Igreja,
deve ser, junto com a paróquia o primeiro lugar para a iniciação cristã
das crianças. Ela oferece aos filhos um sentido cristão da vida e os
acompanha na elaboração de seu projeto de vida como discípulos
missionários.
6.4.2 As Paróquias
319. A dimensão
comunitária é intrínseca ao mistério e à realidade da Igreja que deve
refletir a Santíssima Trindade.
Esta dimensão especial tem sido vivida de diversas maneiras ao longo dos séculos. A Igreja é
comunhão. Portanto, deve se cultivar a formação comunitária
especialmente na paróquia. Com
diversas celebrações e iniciativas, especialmente com a Eucaristia
dominical, que é “momento privilegiado
do encontro das comunidades com o Senhor ressuscitado”156, os fiéis
devem experimentar a paróquia como uma família na fé e na caridade, onde
mutuamente se acompanhem e se ajudem no seguimento de Cristo.
320. As Paróquias são
células vivas da Igreja 157 e os lugares privilegiados em que a maioria
dos fiéis tem uma experiência
concreta de Cristo e de sua Igreja. Encerram uma imensa riqueza
comunitária porque nelas se
encontra uma imensa variedade de situações, de idades, de tarefas.
Sobretudo hoje, quando as crises da
vida familiar afeta a tantas crianças e jovens, as Paróquias oferecem um
espaço comunitário para se
formar na fé e crescer comunitariamente.
321. Se queremos que
as paróquias sejam centros de irradiação missionária em seus próprios
territórios, elas devem ser também lugares de formação permanente. Isto
requer que se organizem nelas várias
instâncias formativas que assegurem o acompanhamento e o amadurecimento
de todos os agentes pastorais
e dos leigos inseridos no mundo. As paróquias vizinhas também podem unir esforços neste
sentido, sem desperdiçar as ofertas formativas da Diocese e da
Conferência Episcopal.
6.4.3 Pequenas
comunidades eclesiais
322. Constata-se que
nos últimos anos está crescendo a espiritualidade de comunhão e que, com diversas
metodologias, não poucos esforços tem sido feitos para levar os leigos a
se integrar nas pequenas comunidades
eclesiais, que vão mostrando frutos abundantes. Nas pequenas comunidades eclesiais temos um
meio privilegiado para chegar a Nova Evangelização e para chegar a que
os batizados vivam como
autênticos discípulos e missionários de Cristo.
323. Elas são um
ambiente propício para se escutar a Palavra de Deus, para viver a
fraternidade, para animar na oração,
para aprofundar processos de formação na fé e para fortalecer o exigente
compromisso de ser apóstolos na sociedade de hoje. Elas são lugares de
experiência cristã e evangelização que, na situação cultural que nos
afeta, secularizada e hostil à Igreja, se fazem muito mais necessários.
324. Se desejamos
pequenas comunidades vivas e dinâmicas, é necessário despertar nelas uma espiritualidade
sólida, baseada na Palavra de Deus, que as mantenham em plena comunhão
de vida e ideais com a Igreja
local e, em particular, com a comunidade paroquial. Por outro lado,
conforme Há anos estamos propondo
na América Latina, a Paróquia chegará a ser “comunidade de comunidades”.
325. Destacamos que é
preciso reanimar os processos de formação de pequenas comunidades no continente, pois
nelas temos uma fonte segura de vocações ao sacerdócio, à vida religiosa
e à vida leiga com especial
dedicação ao apostolado. Através das pequenas comunidades, poderia-se
também conseguir chegar aos afastados, aos indiferentes e aos que
alimentam descontentamento ou ressentimento em relação à Igreja.
6.4.4 Os movimentos
eclesiais e novas comunidades
326. Os novos
movimentos e comunidades são um dom do Espírito Santo para a Igreja.
Neles, os fiéis encontram a
possibilidade de se formar na fé cristã, crescer e se comprometer
apostolicamente até ser verdadeiros
discípulos missionários. Assim exercitam o direito natural e batismal de
livre associação, como o indicou o Concílio vaticano II 159 e confirma o
Código de Direito Canônico. Seria conveniente
incentivar a alguns movimentos e associações que mostram hoje certo
cansaço ou fraqueza e convidá-los a renovar seu carisma original, que
não deixa de enriquecer a diversidade com
que o Espírito se
manifesta e atua no povo cristão.
327. Os movimentos e
novas comunidades constituem uma valiosa contribuição na realização da Igreja local. Por sua
própria natureza expressam a dimensão carismática da Igreja: “na Igreja
não há contraste ou
contraposição entre a dimensão institucional e a dimensão carismática,
da qual os movimentos são uma
expressão significativa, porque ambos são igualmente essenciais para a constituição divina
do Povo de Deus”160. Na vida e na ação evangelizadora da Igreja,
constatamos que no mundo moderno
devemos responder a novas situações e necessidades da vida cristã. Neste contexto também os
movimentos e novas comunidades são uma oportunidade para que muitas
pessoas afastadas possam ter uma experiência de encontro vital com Jesus
Cristo e assim recuperar sua identidade
batismal e sua ativa participação na vida da Igreja 161. Neles “podemos
ver a multiforme presença e
ação santificadora do Espírito”. 162
328. Para aproveitar
melhor os carismas e serviços dos movimentos eclesiais no campo da
formação dos leigos desejamos
respeitar seus carismas e sua originalidade, procurando que se integrem
mais plenamente na
estrutura originária que acontece na diocese. Ao mesmo tempo, é
necessário que a comunidade diocesana
acolha a riqueza espiritual e apostólica dos movimentos. É verdade que
os movimentos devem
manter sua especificidade, mas dentro de uma profunda unidade com a
Igreja local, não só de fé
mas de ação. Quanto mais se multiplicar a riqueza dos carismas, mais os
bispos serão chamados a
exercer o discernimento espiritual para favorecer a necessária
integração dos movimentos na vida
diocesana, apreciando a riqueza de sua experiência comunitária,
formativa e missionária. Convêm
dar especial acolhida e valorização àqueles movimentos eclesiais que já passaram pelo
reconhecimento e discernimento da Santa Sé, considerados como dons e
bens para a Igreja universal.
6.4.5 Os Seminários e
casas de formação religiosa
329. No que se refere
à formação dos discípulos e missionários de Cristo ocupa um lugar
particular a pastoral vocacional,
que acompanha cuidadosamente todos os que o Senhor chama a servir à
Igreja no sacerdócio, na
vida consagrada ou no estado de leigo. A pastoral vocacional que começa
na família e continua na
comunidade cristã, deve se dirigir às crianças e especialmente aos
jovens para ajudá-los a descobrir
o sentido da vida e o projeto que Deus tem para cada um, acompanhando-os em seu processo de
discernimento. A pastoral vocacional é fruto de uma sólida pastoral de
conjunto, na paróquia e nas
demais instituições eclesiais. É necessário intensificar de diversas
maneiras a oração pelas
vocações, com as quais também se contribui para criar uma maior
sensibilidade e receptividade diante
do chamado do Senhor.
330. Diante da
escassez de pessoas que respondam à vocação ao sacerdócio e à vida
consagrada na América Latina e no
Caribe, é urgente dedicar um cuidado especial à promoção vocacional, com
a certeza de que Jesus
continua chamando discípulos e missionários para estar com Ele e para
enviá-los a pregar o Reino de Deus. Esta V Conferência faz um chamado
urgente a todos os cristãos e especialmente aos
jovens para que estejam abertos a uma possível chamada de Deus ao
sacerdócio ou à vida consagrada;
recorda que o Senhor dará a graça necessária para responder com decisão
e
generosidade, apesar
dos problemas gerados por uma cultura secularizada, centralizada no
consumismo e no prazer. Convidamos as famílias a reconhecerem a benção
de ter um filho chamado por Deus para esta
congregação e a apoiar sua decisão e seu caminho de resposta vocacional.
331. Sem dúvida, os
Seminários e as casas de formação de religiosos constituem um lugar
privilegiado – escola e casa - para a formação de discípulos e
missionários. É uma etapa onde os futuros presbíteros compartilham a
vida a exemplo da comunidade apostólica ao redor do Cristo ressuscitado:
oram juntos, celebram a liturgia que culmina na Eucaristia, a partir da
palavra de Deus recebem os ensinamentos que vão iluminando sua mente e
modelando seu coração, prestam serviços pastorais periodicamente a
diversas comunidades, preparando-se assim para serem um sinal pessoal e
atrativo de Cristo no mundo.
332. Reconhecemos o
esforço dos formadores dos Seminários. Seu testemunho e preparação são decisivos para o
acompanhamento dos seminaristas. Neste sentido, os cursos de formadores
que se tem implementado são
um meio eficaz de ajuda a sua missão.
333. A realidade
atual exige de nós maior atenção aos projetos de formação dos
Seminários, pois os jovens são vítimas da
influência negativa da cultura pós-moderna, especialmente dos meios de comunicação, trazendo
consigo a fragmentação da personalidade, a incapacidade de assumir
compromisso definitivos, a ausência de maturidade humana, o
enfraquecimento da identidade espiritual, entre outros, que dificultam o
processo de formação de autênticos discípulos e missionários. Por isso,
antes do ingresso no Seminário, é necessário que os formadores e
responsáveis façam uma esmerada seleção dos candidatos que leve em
consideração o equilíbrio psicológico de uma sã personalidade, uma
motivação genuína de amor a Cristo, à Igreja, ao mesmo tempo que
capacidade intelectual adequada às exigências do ministério no tempo
atual.
334. É necessário um
projeto de formação do Seminário que ofereça aos seminaristas um
verdadeiro processo integral:
humano, espiritual, intelectual e pastoral, centrado em Jesus Cristo,
Bom pastor. Para isto, seria de
boa ajuda que os seminaristas se agrupassem em pequenas comunidades de oração e de vida, mas
sempre mantendo a unidade formativa do Seminário e seu projeto. É
fundamental que, durante os anos de formação, os seminaristas sejam
autênticos discípulos, chegando a realizar um verdadeiro encontro
pessoal com Jesus Cristo na oração com a palavra, para que estabeleçam com
Ele relações de amizade e amor, assegurando um autêntico processo de iniciação cristã,
especialmente, no Ano Propedêutico. A espiritualidade que se promove
deverá responder à
identidade da própria vocação, seja diocesana ou religiosa.
335. Especial atenção
deverá ser prestada ao processo de formação humana para a maturidade, de tal maneira que a
vocação ao sacerdócio ministerial dos candidatos chegue a ser para cada
um deles um projeto de vida
estável e definitivo, em meio a uma cultura que exalta o descartável e o
provisório. Diga-se o mesmo da educação para o amadurecimento da
afetividade e da sexualidade. Esta deve levar a compreender melhor o
significado evangélico do celibato consagrado, a colhê-lo com firme
decisão e a vivê-lo com serenidade e com a devida ascese em um caminho
pessoal e comunitário, como entrega a Deus e aos demais com o coração
pleno e indivisível.
336. Em todo o
processo de formação, o ambiente do Seminário e da pedagogia formativa
deverão cuidar do clima de sã
liberdade e de responsabilidade pessoal, evitando criar ambientes
artificiais ou itinerários impostos.
A opção do candidato pela vida e ministério sacerdotal deve amadurecer e
se apoiar em motivações
verdadeiras e autênticas, livres e pessoais. A isso se orienta a
disciplina nas casas de formação. As
experiências pastorais, discernidas e acompanhadas no processo de
formação são sumamente
importantes para confirmar a autenticidade das motivações no candidato e
a ajudá-lo a assumir o
ministério como um verdadeiro e generoso serviço.
337. Ao mesmo tempo,
o Seminário deverá oferecer uma formação intelectual séria e profunda,
no campo da filosofia,
das ciências humanas e, especialmente, da teologia e da missiologia, a
fim de que o futuro sacerdote
aprenda a anunciar a fé em toda a sua integridade, fiel ao Magistério da
Igreja, atento ao contexto
cultural de nosso tempo e às grandes correntes de pensamento e de
conduta que deverá evangelizar.
Simultaneamente, deverá se reforçar o estudo da palavra de Deus no
currículo acadêmico nos
diversos campos de formação, procurando que a palavra de Deus divina não
se reduza só a noções, mas que seja uma verdade de espírito e vida que
ilumine e alimente toda a existência.
338. É indispensável
confirmar que os candidatos sejam capazes de assumir as exigências da
vida comunitária, o que
implica diálogo, capacidade de serviço, humildade, valorização dos
carismas alheios, disposição para se deixar interpelar pelos outros,
obediência ao bispo e abertura para crescer em comunhão missionária com
os sacerdotes, diáconos, religiosos e leigos, servindo à unidade na
diversidade. A Igreja necessita de sacerdotes e consagrados que nunca
percam a consciência de serem discípulos em comunhão.
339. Os jovens
provenientes de famílias pobres ou de grupos indígenas, requerem uma
formação adaptada, para que
não percam suas raízes e possam ser evangelizadores próximos a seus
povos e culturas.
340. É oportuno
indicar a complementaridade entre a formação iniciada no Seminário e o
processo de formação que
abrange as diversas etapas de vida do presbítero. É necessário despertar
a consciência de que a
formação só termina com a morte. A formação permanente “é um dever, principalmente para
os sacerdotes jovens e precisa ter aquela freqüência e programação de
encontros que, simultaneamente, prolongam a seriedade e a solidez da
formação recebida no seminário” 163. Em relação a isso, requerem-se
projetos diocesanos bem articulados e constantemente avaliados.
Procurar-se-á, ao longo da formação, desenvolver-lhes um amor terno e
filial por Maria, de maneira que cada formando chegue a ter com ela uma
espontânea familiaridade e a “acolha em sua casa” como o discípulo
amado. Ela oferecerá aos sacerdotes fortaleza e esperança nos momentos
difíceis e os motivará a serem incessantemente discípulos missionários
para o Povo de Deus.
341. As casas e os
centros de formação da Vida Religiosa são também lugares privilegiados
de discipulado e de
formação dos missionários e missionárias, segundo o carisma próprio de
cada instituto religioso.
6.4.6 A Educação
Católica
342. A América latina
e o Caribe vivem uma particular e delicada emergência educativa. Na
verdade, as novas formas
educacionais de nosso continente, impulsionadas justamente para se
adaptar às novas exigências que
vão se criando com a mudança global, aparecem centradas prioritariamente
na aquisição de
conhecimentos e habilidades e denotam um claro reducionismo
antropológico, visto que concebem a
educação em função da produção, da competitividade e do mercado. Por
outro lado, com freqüência, elas propiciam a inclusão de fatores
contrários á vida, a família e a uma sã sexualidade. Desta forma, elas
não manifestam os melhores valores do jovens nem seu espírito religioso;
menos ainda ensinam-lhes os caminhos para superar a violência e se
aproximar da felicidade, nem os
ajudam a levar uma vida sóbria e adquirir aquelas atitudes, virtudes e
costumes que tornariam estável
o lar que estabelecessem, e que os converteriam em construtores
solidários da paz e do futuro da
sociedade.
343. Diante desta
situação, e pensando em uma educação de qualidade à que tem direito
todos os alunos e alunas de
nossos povos, sem distinção, recordamos o autêntico objetivo da
educação. Fundamentalmente,
queremos conceber a educação em geral como um processo de formação
integral, mediante a assimilação sistemática e crítica da cultura. E
esta, deve ser entendida não só como rico patrimônio a ser assimilado,
mas também como um elemento vital e dinâmico da educação, qual faz
parte. Isso exige enfrentar e inserir valores perenes no contexto atual.
Deste modo, a cultura se faz educativa.
344. Isto implica
destacar a dimensão ética e religiosa da cultura, precisamente com o
objetivo de ativar o dinamismo
espiritual do sujeito e de ajudá-lo a alcançar a liberdade ética que
pressupõe e aperfeiçoa à
psicológica.. Mas não se dá liberdade ética, a não ser na confrontação
com os valores absolutos dos quais
depende o sentido e o valor da vida do ser humano. Definitivamente
educação, humaniza e
personaliza o ser humano quando consegue que este desenvolva plenamente
seu pensamento e sua
liberdade, fazendo-o frutificar em hábitos de compreensão e de comunhão
com a totalidade da ordem
real, pelas quais o próprio ser humano humaniza seu mundo, produz
cultura, transforma a
sociedade e constrói a história 164.
6.4.6.1 Os centros
educativos católicos
345. A missão
primária da Igreja é anunciar o Evangelho de maneira tal que garanta a
relação entre a fé e a vida tanto na
pessoa individual como no contexto sócio-cultural em que as pessoas
vivem, atuam e se relacionam
entre si, Assim mediante a força do Evangelho, a Igreja procura
“transformar os critérios de
juízo, os valores determinantes, os pontos de interesse, as linhas de
pensamento, as fontes inspiradoras e
os modelos de vida da humanidade que estão em contraste com a Palavra de Deus e o desígnio de
salvação” 165.
346. Portanto, quando
falamos de uma educação cristã, entendemos que o mestre educa para um projeto de ser humano
no qual habite Jesus Cristo com o poder transformador de sua vida nova. Existem muitos
aspectos nos quais se educa e entre os quais consta o projeto educativo.
Existem muitos valores, mas
estes valores nunca estão sozinhos, sempre formam uma constelação
ordenada, explícita ou
implicitamente. Se a ordenação tem a Cristo como fundamento e fim, então
esta
educação está
recapitulando tudo em Cristo e é uma verdadeira educação cristã; se não,
pode falar de Cristo, mas corre
o perigo de não ser cristã 166.
347. Deste modo é
produzida uma identificação entre os dois aspectos. Isto significa que
não se concebe a
possibilidade de se anunciar o Evangelho sem que este ilumine, infunda
alento e esperança e inspire soluções adequadas aos problemas da
existência; muito menos que possa se pensar em uma verdadeira promoção
do ser humano sem abri-lo a Deus e anunciar-lhe Jesus Cristo. 167
348. Em suas escolas,
a Igreja é chamada a promover uma educação centrada na pessoa humana que
é capaz de viver na comunidade. Diante do fato de que muitos se
encontram excluídos, a Igreja deverá estimular uma
educação de qualidade para todos, formal e não-formal, especialmente
para os mais pobres. Uma
educação que ofereça ás crianças, aos jovens e aos adultos o encontro
com os valores culturais do
próprio país, descobrindo ou integrando neles a dimensão religiosa e transcendente. Para
isso, necessitamos de uma pastoral da educação dinâmica e que acompanhe
os processos educativos,
que seja voz, que legitime e salvaguarde a liberdade de educação diante
do Estado e o direito a
uma educação de qualidade para os mais despossuídos.
349. Deste modo,
estamos em condições de afirmar que no projeto educativo da escola
católica, Cristo o Homem
perfeito, é o fundamento onde todos os valores humanos encontram sua
plena realização e, a
partir daí, sua unidade: Ele revela e promove o sentido novo da
existência e a transforma,
capacitando o homem e a mulher a viverem de maneira divina; ou seja,
para pensar, querer e agir segundo
o Evangelho, fazendo das bem-aventuranças a norma de suas vidas. Precisamente pela
referência explícita e compartilhada por todos os membros da comunidade
escolar, a visão cristã – ainda que em grau diverso, e respeitando a
liberdade de consciência e religiosa dos não cristãos presentes nela - a
educação é “católica”, pois os princípios evangélicos se convertem para
ela em normas educativas, motivações interiores e, ao mesmo tempo, em
metas finais. Este é o caráter especificamente católico da educação.
Jesus Cristo, pois, eleva e enobrece a pessoa humana, dá valor a sua
existência e constitui o perfeito exemplo de vida. Esta é a melhor
notícia, proposta pelos centros de formação católica aos jovens. 168
350. Portanto, a meta
que a escola católica se propõe com relação às crianças e jovens, é a de colaborar na
construção de sua personalidade, tendo Cristo como referência no plano
da mentalidade e da vida. Tal referência, ao se fazer progressivamente
explícita e interiorizada, ajudará a ver a história com Cristo a vê, a
julgar a vida como Ele faz, a escolher e amar como Ele, a cultivar a
esperança como ele nos ensina e a viver nele a comunhão com o Pai e o
Espírito Santo. Pela fecundidade misteriosa desta referência, a pessoa
se constrói na unidade existencial, isto é, assume suas
responsabilidades e procura o significado último de sua vida. Situada na
Igreja, comunidade de cristãos, ela consegue com liberdade viver
intensamente a fé, anunciá-la e celebrá-la com alegria na realidade de
cada dia. Como conseqüência, amadurecem e parecem co-naturais as
atitudes humanas que levam a se abrir sinceramente à verdade, a
respeitar e amar as outras pessoas, a expressar sua própria liberdade na
doação de si e no serviço aos demais para a transformação da sociedade.
351. A Escola
católica é chamada a uma profunda renovação. Devemos resgatar a
identidade católica de nossos centros
educativos por meio de um impulso missionário corajoso e audaz, de modo
que chegue a ser uma
opção profética plasmada em uma pastoral da educação participativa. Tais
projetos devem promover a formação integral da pessoa, tendo seu
fundamento em Cristo, com identidade eclesial e cultural, e com
excelência acadêmica. Além disso, há de gerar solidariedade e caridade
para com os mais pobres. O acompanhamento dos processos educativos, a
participação dos pais de família neles e a formação de docentes, são
tarefas prioritárias da pastoral educativa.
352. Propõe-se que
nas instituições católicas a educação na fé seja integral e transversal
em todo o currículo, levando em
consideração o processo de formação para se viver como discípulos e
missionários de Jesus Cristo e inserindo nela verdadeiros processos de
iniciação cristã. Ao mesmo tempo, recomenda-se
que a comunidade educativa (diretores, mestres, pessoal administrativo,
alunos, pais de família, etc) enquanto autêntica comunidade eclesial e
centro de evangelização, assuma seu papel de formadora de discípulos e
missionários em todos seus estratos. Também que, a partir dali, em
comunhão com a comunidade cristã do setor que é sua matriz, promova um
serviço pastoral no setor em que se insere, especialmente aos jovens, à
família, na catequese e na promoção humana dos mais pobres. Estes
objetivos são essenciais nos processos de admissão de alunos, de suas
famílias e na contratação dos docentes.
353. Um princípio
irrenunciável para a Igreja é a liberdade de ensino. O amplo exercício
do direito á educação, como
condição para sua autêntica realização, reivindica por sua vez, a plena
liberdade que deve gozar toda
pessoa na escolha educação de seus filhos que considere mais adequada
aos valores que eles mais estimam
e que consideram indispensáveis. Pelo fato de haver dado a vida aos
filhos, os pais assumiram a
responsabilidade de oferecer a eles condições favoráveis para seu
crescimento e a séria obrigação de
educá-los. A sociedade precisa reconhecê-los como os primeiros e
principais educadores. O dever da educação familiar, como primeira
escola de virtudes sociais, é de tanta transcendência que, quando falta,
dificilmente pode ser suprida. Este princípio é irrenunciável.
354. Este direito
intransferível, que implica uma obrigação e que expressa a liberdade da
família na esfera da educação
por seu significado e alcance precisa ser decididamente garantido pelo
Estado. Por esta razão, o
poder público, a quem compete a proteção e a defesa das liberdades dos
cidadãos, atendendo à justiça
distributiva, deve distribuir as ajudas públicas – que provêm dos
impostos de todos os cidadãos –
de tal maneira que a totalidade dos pais, independente de sua condição
social, possam escolher,
segundo sua consciência, em meio a uma pluralidade de projetos
educativos, as escolas adequadas
para seus filhos. Esse é o valor fundamental e a natureza jurídica que
fundamenta a subvenção escolar.
Portanto, nenhum setor educacional, nem sequer o próprio Estado, tem o privilégio e a
exclusividade de escolher a escola dos mais pobres, sem com isso
infringir importantes direitos. Deste modo,
respeitam-se direitos naturais da pessoa humana, da convivência pacífica
dos cidadãos e do
progresso de todos.
6.4.6.2 As
universidades e centros superiores de educação católica
355. Segundo sua
própria natureza, a Universidade Católica presta uma importante ajuda à
Igreja em sua missão
evangelizadora. Trata-se de um vital testemunho de ordem institucional
de Cristo e de sua mensagem, tão
necessários e importantes para as culturas impregnadas pelo secularismo.
As atividades
fundamentais de uma Universidade Católica deverão se vincular e se
harmonizar com a missão evangelizadora
da Igreja. Essa missão se realiza através de uma pesquisa realizada à
luz da mensagem cristã, que
coloque os novos descobrimentos humanos a serviço das pessoas e da
sociedade. Dessa forma oferece uma formação dada em um contexto de fé,
que prepara pessoas capazes de um juízo
racional e crítico, conscientes da dignidade transcendental da pessoa
humana. Isto implica uma
formação profissional que compreende os valores éticos e a dimensão de
serviço às pessoas e à
sociedade; o diálogo com a cultura, que favoreçe uma melhor compreensão
e transmissão da fé; e a pesquisa teológica que ajuda a fé a se
expressar em linguagem significativa para estes tempos. Porque é cada
vez mais consciente de sua missão salvífica neste mundo, a Igreja quer
sentir estes centros pertos de si mesma e desejaria tê-los presentes e
operantes na difusão da mensagem autêntica de Cristo 169.
356. As Universidades
católicas, por conseguinte, terão que desenvolver com fidelidade sua especificidade
cristã, visto que possuem responsabilidades evangélicas que instituições
de outro tipo não estão obrigadas a
realizar. Entre elas, encontra-se, sobretudo, o diálogo fé e razão, fé e
cultura e a formação de
professores, alunos e pessoal administrativo através da Doutrina Social
e Moral da Igreja, para que
sejam capazes de compromisso solidário com a dignidade humana, de serem
solidários com a comunidade e de mostrar profeticamente a novidade que
representa o cristianismo na vida das
sociedades latino-americanas e caribenhas. Para isso, é indispensável
que se cuide do perfil humano,
acadêmico e cristão dos que são os principais responsáveis pela pesquisa
e docência.
357.É necessária uma
pastoral universitária que acompanhe a vida e o caminhar de todos os
membros da comunidade universitária, promovendo um encontro pessoal e
comprometido com Jesus Cristo e múltiplas iniciativas solidárias e
missionárias. Também deve-se procurar uma presença próxima e dialogante
com membros de outras universidades públicas e centros de estudo.
358. Nas últimas
décadas na América Latina e no Caribe observamos o surgimento de
diversos Institutos de
Teologia e Pastoral, orientados para a formação e atualização de agentes
de pastoral. Neste caminho, tem-se
conseguido criar espaços de diálogo, discussão e busca de respostas
adequadas aos enormes desafios enfrentados pela evangelização no
Continente. Ao mesmo tempo, tem sido possível
formar inumeráveis líderes a serviço das Igrejas locais.
359. Convidamos a se
valorizar a rica reflexão pós-conciliar da Igreja presente na América
Latina e no Caribe, assim como a
reflexão filosófica, teológica e pastoral de nossas Igrejas e de seus
centros de formação e pesquisa,
a fim de fortalecer nossa própria identidade, desenvolver a criatividade
pastoral e potencializar o nosso. É necessário fomentar o estudo e a
pesquisa teológica e pastoral frente aos desafios da nova realidade
social, plural, diferenciada e globalizada, procurando novas respostas
que dêem sustentação à fé e à experiência do discipulado dos agentes de
pastoral. Sugerimos também uma maior utilização dos serviços que
oferecem os institutos de formação teológica pastoral existentes,
promovendo o diálogo entre os mesmos e destinar mais recursos e esforços
conjuntos na formação de leigos e leigas.
360. Esta V
Conferência agradece o inestimável serviço que diversas instituições de
educação católica prestam na promoção
humana e na evangelização das novas gerações, como sua contribuição à
cultura de nossos povos e apoio às Dioceses, congregações religiosas e
organizações de leigos católicos que mantêm escolas, universidades,
institutos de educação superior e de capacitação não formal, a
prosseguirem incansavelmente em sua abnegada e insubstituível missão
apostólica.
TERCEIRA PARTE
A VIDA DE JESUS
CRISTO PARA NOSSOS POVOS
CAPÍTULO 7
A MISSÃO DOS
DISCÍPULOS A SERVIÇO DA VIDA PLENA
361. “A Igreja
peregrina é missionária por natureza, porque toma sua origem da missão
do Filho e do Espírito Santo,
segundo o desígnio do Pai” 170. Por isso, o impulso missionário é fruto
necessário à vida que a Trindade
comunica aos discípulos.
7.1 Viver e comunicar
a vida nova em Cristo a nossos povos
362. A grande novidade que
a Igreja anuncia ao mundo é que Jesus Cristo, o Filho de Deus feito
homem, a Palavra e a Vida,
veio ao mundo para nos fazer “partícipes da natureza divina” (2ª Pe. 1,
4), e para que participemos de sua
própria vida. É a vida que Ele compartilha com o Pai e o Espírito Santo,
a vida eterna. Sua missão é
manifestar o imenso amor do Pai, que quer que sejamos seus filhos. O
anúncio do kerygma convida a
tomar consciência desse amor vivificador de Deus que nos é oferecido em Cristo morto e
ressuscitado. Isto é o que primeiro necessitamos anunciar e também
escutar, porque a graça tem um
primado absoluto na vida cristã e na atividade evangelizadora da Igreja:
“Pela graça de Deus sou o que
sou” (1ª Cor. 15, 10).
363. O chamado de
Jesus no Espírito e o anúncio da Igreja apelam sempre à nossa acolhida, confiados pela fé.
“Aquele que crê em mim tem a vida eterna”. O batismo não só purifica dos pecados. Faz renascer
o batizado, conferindo-lhe vida nova em Cristo, que o incorpora à
comunidade dos discípulos e
missionários de Cristo, à Igreja, e o faz irmão dos filhos do mesmo Pai,
reconhecendo Cristo como
Primogênito e Cabeça de toda a humanidade. Sermos humanos implica
vivermos fraternalmente e
sempre atentos às necessidades dos mais fracos.
364. Nossos povos não
querem andar pelas sombras da morte. Têm sede de vida e de felicidade em Cristo. Buscam-no
como fonte de vida. Desejam essa vida nova em Deus, para a qual o
discípulo do Senhor nasce pelo
batismo e renasce pelo sacramento da reconciliação. Procuram essa vida
que se fortalece, quando é
confirmada pelo Espírito de Jesus e quando o discípulo renova sua
aliança de amor em Cristo, com o
Pai e com os irmãos, em cada celebração eucarística. Acolhendo a Palavra
de vida eterna e
alimentados pelo Pão descido do céu, o povo quer viver a plenitude do
amor e conduzir todos ao encontro com
Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
365. No entanto, no
exercício de nossa liberdade, às vezes recusamos essa vida nova (cf. Jo.
5, 40) ou não perseveramos no
caminho (cf. Hb. 3, 12-14). Com o pecado, optamos por um caminho de morte. Por isso, o anúncio
de Jesus sempre convoca à conversão, que nos faz participar do triunfo
do Ressuscitado e inicia
um caminho de transformação.
366. Dos que vivem em
Cristo se espera um testemunho muito crível de santidade e de
compromisso. Desejando e procurando essa santidade não vivemos menos,
mas melhor, porque, quando Deus pede mais, é porque está oferecendo
muito mais: “Não tenham medo de Cristo! Ele não tira nada e nos dá
tudo!” 171.
7.1.1 Jesus a serviço
da vida
367. Jesus, o bom
pastor, quer nos comunicar a sua vida e se colocar a serviço da vida.
Vemos como ele se aproxima do
cego no caminho (cf. Mc 10,46-52), quando dignifica a samaritana (cf. Jo.
4, 7-26), quando cura os
enfermos (cf. Mt. 11, 2-6), quando alimenta o povo faminto (cf. Mc.
6, 30-44), quando liberta os
endemoninhados (cf. Mc. 5, 1-20). Em seu Reino de vida Jesus inclui a
todos: come e bebe com os pecadores (cf.
Mc. 2, 16), sem se importar que o tratem como comilão e bêbado (cf. Mt. 11, 19); toca
leprosos (cf. Lc. 5, 13), deixa que uma prostituta unja seus pés (cf. Lc.
7, 36-50) e de noite
recebe Nicodemos para
convidá-lo a nascer de novo (cf. Jo. 3, 1-15). Igualmente, convida a seus discípulos à
reconciliação (cf. Mt. 5, 24), ao amor pelos inimigos (cf. Mt. 5, 44) e a
optarem pelos mais pobres (cf. Lc. 14,
15-24).
368. Em sua palavra e
em todos os sacramentos Jesus nos oferece um alimento para o caminho. A Eucaristia é o centro
vital do universo, capaz de saciar a fome de vida e de felicidade:
“Aquele que come de mim, viverá”
(Jo. 6, 57). Nesse banquete feliz participamos da vida eterna e, assim,
nossa existência cotidiana
se converte em uma Missa prolongada. Mas todos os dons de Deus requerem uma disposição
adequada para que possam produzir frutos de mudança. Especialmente, nos
exigem um espírito
comunitário, que abramos os olhos para reconhecê-lo e servi-lo nos mais
pobres: “No mais humilde
encontramos o próprio Jesus” 172. Por isso, São João Crisóstomo exortava:
“Querem em verdade honrar o
corpo de Cristo? Não consintam que esteja nu. Não o honrem no templo com mantos de seda
enquanto fora o deixam passar frio e nudez” 173.
7.1.2 Várias
dimensões da vida em Cristo
369. Jesus Cristo é a
plenitude que eleva a condição humana à condição divina para sua glória:
“Eu vim para dar vida aos
homens e para que a tenham em abundância” (Jo. 10, 10). Sua amizade não
nos exige que renunciemos
a todos nossos desejos de intensidade vital, porque ele ama nossa
felicidade também nesta terra.
Diz o Senhor que Ele criou tudo “para que o desfrutemos” (1ª Tm. 6, 17).
370. A vida nova de
Jesus Cristo atinge o ser humano por inteiro e desenvolve em plenitude a existência humana “em
sua dimensão pessoal, familiar, social e cultural”174. Para isso, faz
falta entrar em um processo
de mudança que transfigure os vários aspectos da própria vida. Só assim
será possível perceber que
Jesus Cristo é nosso salvador em todos os sentidos da palavra. Só assim manifestaremos que a
vida em Cristo cura, fortalece e humaniza. Porque “Ele é o Vivente, que
caminha a nossa lado, manifestando-nos o sentido dos acontecimentos, da
dor e da morte, da alegria e da festa” 175. A
vida em Cristo inclui a alegria de comer juntos, o entusiasmo por
progredir, a paixão por trabalhar
e por aprender, a alegria de servir a quem necessite de nós, o contato
com a natureza, o
entusiasmo dos projetos comunitários, o prazer de uma sexualidade vivida
segundo o Evangelho e todas as
coisas com as quais o Pai nos presenteia como sinais de seu amor
sincero. Podemos encontrar o
Senhor em meio às alegrias de nossa limitada existência e, dessa forma,
brota uma gratidão sincera.
371. Mas o consumismo
hedonista e individualista, que coloca a vida humana em função de um prazer imediato e sem
limites, obscurece o sentido da vida e a degrada. A vitalidade que
Cristo oferece nos convida a
ampliar nossos horizontes e a reconhecer que abraçando a cruz cotidiana entramos nas
dimensões mais profundas da existência. O Senhor que nos convida a
valorizar as coisas e a progredir,
também nos previne sobre a obsessão por acumular: Não amontoem tesouros nesta terra” (Mt.
6, 19). “de que serve ao homem ganhar o mundo, mas perder a sua vida?”
(Mt. 16, 26). Jesus Cristo nos oferece muito, inclusive muito mais do
que esperamos. À samaritana, ele dá mais do que a água do poço. À
multidão faminta ele oferece mais do que o alívio da fome. Entregasse a
si mesmo como a vida em abundância. A vida nova em Cristo é participação
na vida de amor do Deus Uno e Trino.
Começa no batismo e chega a sua plenitude na ressurreição final.
7.1.3 A serviço de
uma vida plena para todos
372. Mas as condições
de vida de muitos abandonados, excluídos e ignorados em sua miséria e
sua dor, contradizem este
projeto do Pai e desafiam os cristãos a um maior compromisso a favor da cultura da vida. O
Reino de vida que Cristo veio trazer é incompatível com essas situações
desumanas. Se pretendemos fechar os olhos diante destas realidades, não
somos defensores da vida do Reino e nos situamos no caminho da morte:
“Nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos.
Aquele que não ama, permanece na morte” (1ª Jo. 3, 14). É necessário
sublinhar “a inseparável relação entre o amor a Deus e o amor ao
próximo” 176, que “convida a todos a suprimir as graves dificuldades
sociais e as enormes diferenças no acesso aos bens” 177. Tanto a
preocupação por desenvolver estruturas mais justas como por transmitir
os valores sociais do Evangelho situam-se neste contexto de serviço
fraterno à vida digna.
373. Descobrimos,
dessa forma, uma lei profunda da realidade: a vida só se desenvolve
plenamente na comunhão fraterna
e justa. Porque “Deus, em Cristo, não redime só a pessoa individual, mas também as relações
sociais entres os seres humanos” 178. Diante de diversas situações que manifestam a ruptura
entre irmãos, compele-nos que a fé católica de nossos povos
latinoamericanos se manifeste em uma
vida mais digna para todos. O rico Magistério social da Igreja nos
indica que não podemos conceber uma oferta de vida em Cristo sem um
dinamismo de libertação integral, de humanização, de reconciliação e de
inserção social.
7.1.4 Uma missão para
comunicar vida
374. A vida se
acrescenta dando-a e se enfraquece no isolamento e na comodidade. De
fato, os que mais desfrutam da
vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam na missão de comunicar vida aos
demais. O Evangelho nos ajuda a descobrir que um cuidado enfermo da
própria vida depõe contra a
qualidade humana e cristã dessa mesma vida. Vive-se muito melhor quando temos liberdade
interior para dá-la a todos: “Quem aprecia sua vida terrena, a perderá”
(Jo. 12, 25).Aqui descobrimos
outra lei profunda da realidade: “ que a vida se alcança e amadurece à
medida que se a entrega para dar
vida aos outros. Isso é, definitivamente, a missão.
375. O projeto de
Jesus é instaurar o Reino de seu Pai. Por isso, pede a seus discípulos:
“Proclamem que está chegando o
Reino dos céus!” (Mt. 10, 7). Trata-se do Reino da vida. Porque a proposta
de Jesus Cristo a nossos
povos, o conteúdo fundamental desta missão, é a oferta de uma vida plena
para todos. Por isso, a doutrina, as normas, as orientações éticas e
toda a atividade missionária das Igrejas, deve deixar transparecer esta
atrativa oferta de uma vida mais digna, em Cristo, para cada homem e
para cada mulher da América Latina e do Caribe.
376. Assumimos o
compromisso de uma grande missão em todo o continente, que nos exigirá aprofundar e
enriquecer todas as razões e motivações que permitam converter a cada
cristão em um discípulo
missionário. Necessitamos desenvolver a dimensão missionária da vida de
Cristo. A Igreja necessita de uma
forte comoção que a impeça de se instalar na comodidade, no estancamento
e na indiferença, à margem
do sofrimento dos pobres do continente. Necessitamos que cada comunidade cristã se transforme
num poderoso centro de irradiação da vida em Cristo. Esperamos um novo Pentecostes que nos
livre do cansaço, da desilusão, da acomodação ao ambiente; esperamos uma vinda do Espírito que
renove nossa alegria e nossa esperança. Por isso, é imperioso assegurar calorosos espaços de
oração comunitária que alimentem o fogo de um ardor incontido e tornem possível um atrativo
testemunho de unidade “para que o mundo creia” (Jo. 17, 21).
377. A força deste
anúncio de vida será fecundo se o fazemos da forma adequada, com as
atitudes do Mestre, tendo
sempre a Eucaristia como fonte e alvo de toda atividade missionária.
Invocamos o Espírito Santo para
poder dar um testemunho de proximidade que entranha proximidade
afetuosa, escuta, humildade,
solidariedade, compaixão, diálogo, reconciliação, compromisso com a
justiça social e capacidade
de compartilhar, como Jesus fez. Ele continua convocando, continua
oferecendo incessantemente uma
vida digna e plena para todos. Nós somos agora, na América Latina, seus discípulos e
discípulas, chamados a navegar mar adentro para uma pesca abundante.
Trata-se de sair de nossa consciência
isolada e de nos lançarmos com ousadia e confiança à missão de toda a
Igreja.
378. Detemos o olhar
em Maria e reconhecemos nela uma imagem perfeita da discípula
missionária. Ela nos exorta a
fazer o que Jesus nos diz (cf. Jo 2,5) para que Ele possa derramar sua
vida na América Latina. Junto com ela queremos estar atentos uma vez
mais à escuta do Mestre, e ao redor dela, voltarmos a receber com
estremecimento ao mandado missionário de seu filho: “Vão e façam, discípulos de todos
os povos” (Mt. 28, 19). Escutamos Jesus como comunidade de discípulos missionários que
experimentaram o encontro vivo com Ele e queremos compartilhar com os
demais essa alegria
incomparável todos os dias.
7.2 Conversão
pastoral e renovação missionária das comunidades
379. Esta firme
decisão missionária deve impregnar todas as estruturas eclesiais e todos
os planos pastorais de
dioceses, paróquias, comunidades religiosas, movimentos e de qualquer
instituição da Igreja. Nenhuma
comunidade deve se isentar de entrar decididamente, com todas suas
forças, nos processos constantes
de renovação missionária, de abandonar as ultrapassadas estruturas que
já não favoreçam a
transmissão da fé.
380. A conversão
pessoal desperta a capacidade de submeter tudo a serviço da instauração
do reino da vida. Os bispos,
sacerdotes, diáconos permanentes, consagrados e consagradas, leigos e
leigas, são chamados a
assumir uma atitude de permanente conversão pastoral, que envolve
escutar com atenção e discernir
“o que o Espírito está dizendo às Igrejas” (Ap. 2, 29) através dos sinais
dos tempos nos quais Deus se
manifesta.
381. A pastoral da
Igreja não pode prescindir do contexto histórico onde vivem seus
membros. Sua vida acontece em
contextos sócio-culturais bem concretos. Estas transformações sociais e
culturais representam
naturalmente novos desafios para a Igreja em sua missão de construir o
Reino de Deus. Em fidelidade ao
Espírito santo que a conduz, nasce dali a necessidade de uma renovação
eclesial, que envolve reformas
espirituais, pastorais e também institucionais.
382. A conversão dos
pastores nos leva também a viver e promover uma espiritualidade de comunhão e
participação, “propondo-a como princípio educativo em todos os lugares
onde se forma o homem e o cristão,,
onde se educam os ministros do altar, as pessoas consagradas e os
agentes pastorais, onde se
constroem as famílias e as comunidades” 179. A conversão pastoral requer
que a Igreja se constitua
em comunidades de discípulos missionários ao redor de Jesus Cristo,
Mestre e Pastor. Dali nasce a
atitude de abertura, de diálogo e de disponibilidade para promover a
corresponsabilidade e participação efetiva de todos os fiéis na vida das
comunidades cristãs. Hoje, mais do que nunca, o testemunho de comunhão
eclesial e de santidade são uma urgência pastoral. A programação pastoral
há de se inspirar no mandamento novo do amor (cf Jo. 13, 35). 180.
383. Encontramos o
modelo paradigmático desta renovação comunitária nas primitivas
comunidades cristãs (cf. At. 2,
42-47), que souberam buscar novas formas para evangelizar de acordo com
as culturas e as
circunstâncias. Ao mesmo tempo, motiva-nos a eclesiologia de comunhão do
Concílio Vaticano II, o
caminho sinodal no pós-concílio e as Conferências Gerais anteriores do
Episcopado Latino-americano e do
Caribe. Não esqueçamos que como nos assegura Jesus, “onde estiverem dois ou três reunidos em
meu nome, ali estarei no meio deles” (Mt. 18, 20).
384. A conversão
pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de
mera conservação para uma
pastoral decididamente missionária. Assim, será possível que “o único programa do Evangelho
siga introduzindo-se na história de cada comunidade eclesial”181 com
novo ardor missionário,
fazendo com que a Igreja se manifeste como uma mãe que nos sai ao
encontro, uma casa acolhedora,
uma escola permanente de comunhão missionária.
385. O projeto
pastoral da Diocese, caminho de pastoral orgânica, deve ser uma resposta
consciente e eficaz para atender
as exigências do mundo de hoje com “indicações programáticas concretas, objetivos e métodos
de trabalho, de formação e valorização dos agentes e da procura dos
meios necessários que
permitam que o anúncio de Cristo chegue às pessoas, modele as
comunidades e incida profundamente
na sociedade e na cultura mediante o testemunho dos valores evangélicos”
182. Os leigos devem participar do discernimento, da tomada de decisões,
do planejamento e da execução 183. Este projeto diocesano exige um
acompanhamento constante por parte do bispo, dos sacerdotes e dos
agentes pastorais, com uma atitude flexível que lhes permita se manter
atentos às exigências da realidade sempre mutável.
386. Levando em
consideração as dimensões de nossas paróquias é aconselhável a
setorização em unidades territoriais
menores, com equipes próprias de animação e de coordenação que permitam uma maior proximidade
com as pessoas e grupos que vivem na região. É recomendável que os agentes missionários
promovam a criação de comunidades de famílias que fomentem a colocação em comum de sua fé
cristã e das respostas aos problemas. Reconhecemos como um fenômeno importante de nosso
tempo o aparecimento e difusão de diversas formas de voluntariado
missionário que se ocupam de uma pluralidade de serviços. A Igreja apóia
as redes e programas de voluntariado nacional e internacional que
surgiram em muitos países, na esfera das organizações da sociedade
civil, para o bem dos mais pobres de nosso continente, à luz dos
princípios de dignidade, subsidiariedade e solidariedade, em
conformidade com a Doutrina Social da Igreja. Não se trata só de
estratégias para procurar êxitos pastorais, mas da fidelidade na
imitação do Mestre, sempre próximo, acessível, disponível a todos,
desejoso de comunicar vida em cada região da terra. 7.3. Nosso
compromisso com a missão ad gentes.
387. Conscientes e
agradecidos porque o Pai amou tanto ao mundo que enviou seu Filho para
salvá-lo (cf. Jo. 3, 16),
queremos ser continuadores de sua missão, visto que esta é a razão de
ser da Igreja e que define sua
identidade mais profunda.
388. Como discípulos
missionários, queremos que a influência de Cristo chegue até aos confins
da terra. Descobrimos a
presença do Espírito Santo em terras de missão mediante sinais:
1) A presença dos
valores do Reino de Deus nas culturas, recriando-as a partir de dentro
para transformar as
situações anti-evangélicas.
2) Os esforços de
homens e mulheres que encontram em suas crenças religiosas o impulso
para seu compromisso
histórico.
3) O nascimento da
comunidade eclesial.
4) O testemunho de
pessoas e comunidades que anunciam Jesus Cristo com a santidade de suas vidas.
389. Sua Santidade
Bento XVI confirmou que a missão “ad gentes” se abre a novas dimensões:
“O campo da Missão ad
gentes tem se ampliado notavelmente e não se pode defini-lo baseando-se
só em considerações
geográficas ou jurídicas. Na verdade, os verdadeiros destinatários da
atividade missionária do povo
de Deus não são só os povos não cristãos e das terras distantes, mas
também nos campos
sócio-culturais e, sobretudo, os corações”. 184
390. Ao mesmo tempo,
o mundo espera de nossa Igreja latino-americana e caribenha um compromisso mais
significativo com a missão universal em todos os continentes. Para não
cair na armadilha de nos
fechar em nós mesmos, devemos nos formar como discípulos missionários
sem fronteiras, dispostos
a ir “á outra margem”, àquela na qual Cristo não é ainda reconhecido
como Deus e Senhor, e a
Igreja não está presente. 185
391. Os discípulos,
que por essência são também missionários pelo batismo, são formados com
um coração universal,
aberto a todas as culturas e a todas as verdades, cultivando a
capacidade de contato humano e de
diálogo. Estamos dispostos com a coragem que nos dá o Espírito, a
anunciar a Cristo onde não é
aceito, com nossa vida, com nossa ação, com nossa profissão de fé e com
sua Palavra. Os
emigrantes são igualmente discípulos e missionários, e são chamados a
ser uma nova semente de
evangelização, a exemplo de tantos emigrantes e missionários que
trouxeram a fé cristã a nossa América.
392. Queremos
estimular as Igrejas locais para que apóiem e organizem os centros
missionários nacionais e atuem em
estreita colaboração com as Obras Missionais Pontifícias e outras
instâncias eclesiais
cooperantes, cuja importância e dinamismo para a animação e a cooperação
missionária reconhecemos e
agradecemos de coração. Por ocasião dos cinqüenta anos da encíclica
Fidei Donum, agradecemos a Deus
pelos missionárias e missionárias que vieram ao Continente e aqueles que
hoje estão presentes nele,
dando testemunho do espírito missionário de suas Igrejas locais ao serem enviados por elas.
393. Nosso desejo é
que esta V Conferência seja um estímulo para que muitos discípulos de
nossas Igrejas vão e
evangelizem na “outra margem”. A fé se fortalece quando é transmitida e
é preciso que entremos em nosso
continente em uma nova primavera da missão “ad gentes”. Somos Igrejas
pobres, mas “devemos dar a partir de nossa pobreza e a partir da alegria
de nossa fé”186 e isto sem colocar sobre alguns poucos enviados o
compromisso que é de toda a comunidade cristã. Nossa capacidade de
compartilhar nossos dons espirituais, humanos e materiais com outras
Igrejas, confirmará a autenticidade de nossa nova abertura missionária.
Por isso, estimulamos a participação na celebração dos congressos
missionários.
CAPÍTULO 8
O REINO DE DEUS E A
PROMOÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA
394. A missão do
anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo tem uma destinação universal. Seu
mandado de caridade alcança
todas as dimensões da existência, todas as pessoas, todos os ambientes
da convivência e todos
os povos. Nada do humano pode lhe parecer estranho. A Igreja sabe, por revelação de Deus e
pela experiência humana da fé, que Jesus Cristo é a resposta total, superabundante e
satisfatória às perguntas humanas sobre a verdade, o sentido da vida e
da realidade, a
felicidade, a justiça e a beleza. São as inquietudes que estão
arraigadas no coração de toda pessoa e que
pulsam no mais profundo da cultura dos povos. Por isso, todo sinal
autêntico de verdade, bem e beleza
na aventura humana vem de Deus e clama por Deus.
395.Procurando
aproximar da vida de Jesus Cristo como resposta aos desejos de nossos
povos, destacamos a seguir
alguns grandes campos de atividade, prioridades e tarefas para a missão
dos discípulos de Jesus
Cristo no hoje da América Latina.
8. 1 Reino de Deus,
justiça social e caridade cristã
396. “O prazo se
cumpriu. O Reino de Deus está chegando. Convertam-se e creiam no
Evangelho” (Mc. 1, 15). A voz do
Senhor continua nos chamando como discípulos missionários e nos desafia
a orientar toda nossa
vida a partir da realidade transformadora do Reino de Deus que se faz
presente em Jesus. Acolhemos
com muita alegria esta boa nova. Deus amor é Pai de todos os homens e mulheres de todos os
povos e raças. Jesus Cristo é o Reino de Deus que procura demonstrar
toda sua força transformadora
em nossas Igrejas e em nossas sociedades. n'Ele, Deus tem nos escolhido
para que sejamos seus
filhos com a mesma origem e destino, com a mesma dignidade, com os
mesmos direitos e deveres
vividos no mandamento supremo do amor. O Espírito colocou este germe do Reino em nosso
Batismo e o faz crescer pela graça da conversão permanente graças à
Palavra de Deus e aos
sacramentos.
397. Sinais evidentes
da presença de Deus são: a experiência pessoal e comunitária das
bemaventuranças, a evangelização dos pobres, o conhecimento e
cumprimento da vontade do Pai, o martírio pela fé, o
acesso de todos aos bens da criação, o perdão mútuo, sincero e fraterno,
aceitando e respeitando a riqueza da pluralidade e a luta para não
sucumbir à tentação e não ser escravos do mal.
398. O fato de ser
discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nossos povos, n'Ele,
tenham vida leva-nos a assumir evangelicamente e a partir da perspectiva
do Reino as tarefas prioritárias que contribuem para a
dignificação do ser humano e a trabalhar junto com os demais cidadãos e
instituições para o bem do ser humano. O amor de misericórdia para com
todos os que vêem vulnerada sua vida em qualquer de suas dimensões, como
bem nos mostra o Senhor em todos seus gestos de
misericórdia, requer que socorramos as necessidades urgentes, ao mesmo
tempo que colaboremos com
outros organismos ou instituições para organizar estruturas mais justas
nas ordens nacionais e
internacionais. É urgente criar estruturas que consolidem uma ordem
social, econômica e política na qual não
haja iniquidade e onde haja possibilidade para todos. Igualmente,
requerem-se novas estruturas que
promovam uma autêntica convivência humana, que impeçam a prepotência de alguns e que
facilitem o diálogo construtivo para os necessários consensos sociais.
399. A misericórdia
sempre será necessária, mas não deve contribuir para criar círculos
viciosos que sejam funcionais a um
sistema econômico iníquo. Requer-se que as obras de misericórdia estejam acompanhadas pela
busca de uma verdadeira justiça social, que vá elevando o nível de vida
dos cidadãos,
promovendo-os como sujeitos de seu próprio desenvolvimento. Em sua
Encíclica Deus Caritas est, o Papa
Bento XVI tratou com clareza inspiradora a complexa relação entre
justiça e caridade. Ali,
disse-nos que “a ordem justa da sociedade e do Estado é uma tarefa
principal da política” e não da
Igreja. Mas a Igreja “não pode nem deve colocar-se à margem na luta pela justiça” 187. Ela
colabora purificando a razão de todos aqueles elementos que ofuscam e
impedem a realização de uma
libertação integral. Também é tarefa da Igreja ajudar com a pregação, a catequese, a denúncia
e o testemunho do amor e da justiça, para que despertem na sociedade as forças espirituais
necessárias e se desenvolvam os valores sociais. Só assim as estruturas
serão realmente mais
justas, poderão ser mais eficazes e sustentar-se no tempo. Sem valores
não há futuro e não haverá
estruturas salvadoras, visto que nelas sempre subjaz a fragilidade
humana.
400. A Igreja tem
como missão própria e específica comunicar a vida de Jesus Cristo a
todas as pessoas, anunciando a
Palavra, administrando os sacramentos e praticando a caridade. É
oportuno recordar que o amor
se mostra nas obras mais do que nas palavras, e isto vale também para
nossas palavras nesta V
Conferência. Nem todo o que diz Senhor, Senhor... Os discípulos
missionários de Jesus Cristo tem a
tarefa prioritária de dar testemunho do amor de Deus e ao próximo com
obras concretas. Dizia São
Alberto Hurtado: “Em nossas obras, nosso povo sabe que compreendemos sua dor”.
8.2 A dignidade
humana
401. A cultura atual
tende a propor estilos de ser e de viver contrários à natureza e a
dignidade do ser humano. O impacto
dominante dos ídolos do poder, da riqueza e do prazer efêmero tem se transformado, acima
do valor da pessoa, na norma máxima de funcionamento e no critério
decisivo na organização
social. Diante desta realidade anunciamos uma vez mais o valor supremo
de cada homem e de cada
mulher. Na verdade, o Criador, ao colocar tudo o que foi criado a
serviço do ser
humano, manifesta a
dignidade da pessoa humana e convida ao cuidado primoroso por cada um
(cf. Gn. 1, 26-30).
402. Proclamamos que
todo humano existe pura e simplesmente pelo amor de Deus que o criou e pelo amor de Deus que
o conserva a cada instante. A criação do homem e da mulher a sua imagem
e semelhança é um
acontecimento divino de vida, e sua fonte é o amor fiel do Senhor. Por
conseguinte, só o Senhor é o autor e o dono da vida, e o ser humano, sua
imagem vivente, é sempre consagrado, desde sua concepção, em todas as
etapas da existência, até sua morte natural e depois da morte. O olhar
cristão sobre o ser humano permite perceber seu valor que transcende
todo o universo: “Deus nos mostrou de modo insuperável como ama cada
homem, e com isso confere a ele uma dignidade infinita”. 188
403. Nossa missão,
para que nossos povos tenham vida n'Ele, manifesta nossa convicção de
que o sentido, a
fecundidade e a dignidade da vida humana se encontra no Deus vivo
revelado em Jesus. É urgente a tarefa de
entregar a nossos povos a vida plena e feliz que Jesus nos traz, para
que cada pessoa humana viva de
acordo com a dignidade que Deus lhe deu. Fazemos isso com a consciência de que essa dignidade
alcançará sua plenitude quando Deus for tudo em todos. Ele é o Senhor da vida e da história,
vencedor do mistério do mal e acontecimento salvífico que nos faz
capazes de emitir um juízo
verdadeiro sobre a realidade, que salvaguarde a dignidade das pessoas e
dos povos.
404. Nossa fidelidade
ao Evangelho, exige que proclamemos a verdade sobre o ser humano e sobre
a dignidade de toda
pessoa humana em todos os espaços públicos e privados do mundo de hoje e
a partir de todas as
instâncias da vida e da missão da Igreja.
8.3 A opção
preferencial pelos pobres e excluídos
405. Dentro desta
ampla preocupação pela dignidade humana, situa-se nossa angústia pelos
milhões de latino-americanos
e latino-americanas que não podem levar uma vida que responda a essa dignidade. A opção
preferencial pelos pobres é uma das peculiaridades que marca a
fisionomia da Igreja
Latino-americana e Caribenha. De fato, João Paulo II, dirigindo-se a
nosso Continente, sustentou que
“converter-se ao Evangelho para o povo cristão que vive na América,
significa revisar
todos os ambientes e
dimensões de sua vida, especialmente tudo o que pertence a ordem social
e á obtenção do bem
comum”.189
406. Nossa fé
proclama que “Jesus Cristo é o rosto humano de Deus e o rosto divino do
homem” 190. Por isso, “a opção
preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus
que se fez pobre por nós, para
nos enriquecer com sua pobreza” 191. Esta opção nasce de nossa fé em
Jesus Cristo, o Deus feito
homem, que se fez nosso irmão (cf. Hb. 2, 11-12).
407. Se esta opção
está implícita na fé cristológica, os cristãos, como discípulos e
missionários, são chamados a contemplar
nos rostos sofredores de nossos irmãos, o rosto de Cristo que nos chama
a servi-lo neles: “Os
rostos sofredores dos pobres são rostos sofredores de Cristo” 192. Eles
desafiam o núcleo do trabalho da
Igreja, da pastoral e de nossas atitudes cristãs. Tudo o que tenha
relação com Cristo, tem relação
com os pobres e tudo o que está relacionado com os pobres reivindica a
Jesus Cristo: “Quando
fizeram a um deste meus irmãos menores, fizeram a mim” (Mt. 25, 40). João
Paulo II
destacou que este
texto bíblico “ilumina o mistério de Cristo” 193. Porque em Cristo, o
Maior se fez menor, o Forte se fez
fraco, o Rico se fez pobre.
408. De nossa fé em
Cristo nasce também a solidariedade como atitude permanente de encontro, irmandade e serviço.
Ela há de se manifestar em opções e gestos visíveis, principalmente na
defesa da vida e dos
direitos dos mais vulneráveis e excluídos, e no permanente
acompanhamento em seus esforços por serem
sujeitos de mudança e de transformação de sua situação. O serviço de
caridade da Igreja entre os
pobres “é um campo de atividade que caracteriza de maneira decisiva a
vida cristã, o estilo eclesial e a
programação pastoral”.194
409. O Santo Padre
nos recorda que a Igreja está convocada a ser “advogada da justiça e
defensora dos pobres” 195 diante
das “intoleráveis desigualdades sociais e econômicas”196, que “clamam ao céu” 197. Temos muito
que oferecer, visto que “não há dúvida de que a Doutrina Social da
Igreja é capaz de despertar
esperança em meio às situações mais difíceis, porque se não há esperança
para os pobres, não haverá
para ninguém, nem sequer para os chamados ricos” 198. A opção
preferencial pelos pobres exige
que prestemos especial atenção àqueles profissionais católicos que são responsáveis pelas
finanças das nações, naqueles que fomentam o emprego, nos políticos que devem criar as
condições para o desenvolvimento econômico dos países, a fim de lhes dar orientações éticas
coerentes com sua fé.
410. Comprometemo-nos
a trabalhar para que a nossa Igreja Latino-americana e Caribenha
continue sendo, com maior
afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive
até o martírio. Hoje
queremos ratificar e potencializar a opção preferencial pelos pobres
feita nas Conferências
anteriores 199. Que sendo preferencial implique que deva atravessar
todas nossas estruturas e
prioridades pastorais. A Igreja Latino-americana é chamada a ser
sacramento de amor, de solidariedade e de
justiça entre nossos povos.
411. Nesta época
costuma acontecer de defendermos de forma demasiada nossos espaços de privacidade e lazer,
e nos deixemos contagiar facilmente pelo consumismo individualista. Por
isso, nossa opção pelos
pobres corre o risco de ficar em um plano teórico ou meramente emotivo,
sem verdadeira incidência
em nossos comportamentos e em nossas decisões. É necessária uma atitude permanente que se
manifeste em opções e gestos concretos 200, e evite toda atitude
paternalista. É solicitado que
dediquemos tempo aos pobres, prestar a eles uma amável atenção,
escutá-los com interesse,
acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar
horas, semanas ou anos de nossas vidas
e, procurando, a partir deles, a transformação de sua situação. Não
podemos esquecer que o
próprio Jesus propôs isso com seu modo de agir e com suas palavras:
“Quando deres um banquete, convida
os pobres, os inválidos, os coxos e os cegos” (Lc. 14, 13).
412. Só a proximidade
que nos faz amigos nos permite apreciar profundamente os valores dos pobres de hoje, seus
legítimos desejos e seu modo próprio de viver a fé. A opção pelos pobres
deve nos conduzir à
amizade com os pobres. Dia a dia os pobres se fazem sujeitos da
evangelização e da promoção humana
integral: educam seus filhos na fé, vivem uma constante solidariedade
entre parentes e vizinhos,
procuram constantemente a Deus e dão vida ao peregrinar da Igreja. À luz
do Evangelho
reconhecemos sua imensa dignidade e seu valor sagrado aos olhos de
Cristo, pobre como eles e excluído como
eles. Desta experiência cristã compartilharemos com eles a defesa de
seus direitos.
8.4 Uma renovada
pastoral social para a promoção humana integral
413. Assumindo com
nova força esta opção pelos pobres, manifestamos que todo processo evangelizador envolve
a promoção humana e a autêntica libertação “sem a qual não é possível
uma ordem justa na
sociedade” 201. Entendemos, além disso, que a verdadeira promoção humana
não pode se reduzir a
aspectos particulares: “Deve ser integral, isto é, promover a todos os
homens e a todo homem”202, a
partir da vida nova em Cristo que transforma a pessoa de tal maneira que
“a faz sujeito de seu
próprio desenvolvimento”203. Para a Igreja, o serviço da caridade, assim
como o anúncio da Palavra e
a celebração dos sacramentos, “é expressão irrenunciável da própria essência”.
204
414. Portanto, a
partir de nossa condição de discípulos e missionários, queremos
estimular o Evangelho da vida e
da solidariedade em nossos planos pastorais, à luz da Doutrina Social da
Igreja. Além disso, promover
caminhos eclesiais mais efetivos, com a preparação e compromisso dos
leigos para intervir nos
assuntos sociais. As palavras de João Paulo II nos enchem de esperança:
“Ainda que imperfeito e
provisório, nada do que se possa realizar mediante o esforço solidário
de todos e a graça divina em um
momento dado da história, para fazer mais humana a vida dos homens, terá
sido perdido ou terá sido
em vão”. 205
415. As Conferências
episcopais e as igrejas locais tem a missão de promover renovados
esforços para fortalecer uma
Pastoral Social estruturada, orgânica e integral que, com a assistência
e a promoção humana 206,
faça-se presente nas novas realidades de exclusão e de marginalização em que vivem os grupos
mais vulneráveis, onde a vida está mais ameaçada. No centro dessa ação
está cada pessoa, que é
acolhida e servida com cordialidade cristã. Nesta atividade a favor da
vida de nossos povos, a
Igreja católica apóia a colaboração mútua com outras comunidades
cristãs.
416. A globalização
faz emergir em nossos povos, novos rostos pobres. Com especial atenção e
em continuidade com a
Conferências Gerais anteriores, fixamos nosso olhar nos rostos dos novos excluídos: os
migrantes, as vítimas da violência, os deslocados e refugiados, as
vítimas do tráfico de pessoas e seqüestros,
os desaparecidos, os enfermos de HIV e de enfermidades endêmicas, os toxico-dependentes,
idosos, meninos e meninas que são vítimas da prostituição, pornografia e
violência ou do
trabalho infantil, mulheres maltratadas, vítimas da violência, da
exclusão e do tráfico para a exploração
sexual, pessoas com capacidades diferentes, grandes grupos de
desempregados (as), os excluídos
pelo analfabetismo tecnológico, as pessoas que vivem na rua das grandes
cidades, os indígenas e
afro-descendentes, agricultores sem terra e os mineiros. A Igreja, com
sua Pastoral Social, deve dar
acolhida e acompanhar esta pessoas excluídas nas esferas a que
correspondam.
417. Nesta tarefa e
com criatividade pastoral, devem-se elaborar ações concretas que tenham incidência nos
Estados para a aprovação de políticas sociais e econômicas que atendam
as várias necessidades da
população e que conduzam para um desenvolvimento sustentável. Com a
ajuda de diferentes instâncias
e organizações, a Igreja pode fazer uma permanente leitura cristã e uma aproximação pastoral
à realidade de nosso Continente, aproveitando o rico patrimônio da
Doutrina Social da Igreja.
Desta maneira, terá elementos concretos para exigir daqueles que têm a
responsabilidade de elaborar e aprovar as políticas que afetam nossos
povos, que o façam a partir de uma perspectiva
ética, solidária e autenticamente humanista. Nesse aspecto os leigos(as)
possuem um papel fundamental,
assumindo tarefas pertinentes na sociedade.
418. Estimulamos os
empresários que dirigem as grandes e médias empresas e aos
microempresários, os agentes econômicos da gestão produtiva e comercial,
tanto da ordem privada quanto comunitária, por serem criadores de
riqueza em nossas nações, quando se esforçam em gerar emprego digno, em
facilitar a democracia e em promover a aspiração a uma sociedade mais
justa e a uma convivência cidadã com bem-estar e em paz. Igualmente
estimulamos os que não investem seu capital em ação especulativas mas em
criar fontes de trabalho, preocupando-se com os trabalhadores,
considerando-os 'a eles e a suas famílias' a maior riqueza da empresa,
que, como cristãos, vivem modestamente por terem feito da austeridade um
valor inestimável, que colaboram com os governos na preocupação e
conquista do bem comum e se forem pródigos em obras de solidariedade e
de misericórdia.
419. Por fim, não
podemos nos esquecer que a maior pobreza é a de não reconhecer a
presença do mistério de Deus na
vida do homem e seu amor, que é o único que verdadeiramente salva e
liberta. Na verdade, “quem
exclui a Deus de seu horizonte falsifica o conceito de realidade e,
consequentemente,só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas
destrutivas 207. A verdade desta tese
parece evidente diante do fracasso de todos os sistemas que colocam Deus
entre parêntesis.
8.5 Globalização da
solidariedade e justiça internacional
420. A Igreja na
América Latina e no Caribe sente que tem uma responsabilidade em formar
cristãos e sensibilizá-los a
respeito das grandes questões da justiça internacional. Por isso, tanto
os pastores como os construtores
da sociedade têm que estar atentos aos debates e normas internacionais
sobre a matéria. Isto é
especialmente importante para os leigos que assumem responsabilidades
públicas, solidários com a vida dos povos. Por isso, propomos o
seguinte.
421. Apoiar a
participação da sociedade civil para a re-orientação e conseqüente
reabilitação ética da política. Por isso,
são muito importantes os espaços de participação da sociedade civil para
a vigência da democracia, uma
verdadeira economia solidária e um desenvolvimento integral, solidário e sustentável.
422. Formar na ética
cristã que estabelece como desafio a conquista do bem comum a criação de oportunidades para
todos, a luta contra a corrupção, a vigência dos direitos do trabalho e
sindicais; é necessário colocar
como prioridade a criação de oportunidades econômicas para setores da população
tradicionalmente marginalizados, como as mulheres e os jovens, a partir
do reconhecimento de sua
dignidade. Por isso, é necessário trabalhar por uma cultura da responsabilidade em
todo nível que envolva pessoas, empresas, governos e o próprio sistema internacional.
423. Trabalhar pelo
bem comum global é promover uma justa regulação da economia, das
finanças e do comércio mundial.
É urgente prosseguir no desendividamento externo para favorecer os
investimentos em desenvolvimento e gasto social 208, prever regulações
globais para prevenir e controlar os
movimentos especulativos de capitais, para a promoção de um comércio
justo e a diminuição das barreiras protecionistas dos poderosos, para
assegurar preços adequados das matérias primas que
os países empobrecidos produzem e de normas justas para atrair e regular
os investimentos e
serviços entre outros.
424. Examinar
atentamente os Tratados inter-governamentais e outras negociações a
respeito do livre comércio. A
Igreja do país latino-americano envolvido, à luz de um balanço de todos
os fatores que estão em jogo,
precisa encontrar os caminhos mais eficazes para alertar os responsáveis
políticos e a opinião pública a
respeito das eventuais conseqüências negativas que podem afetar os
setores mais desprotegidos e
vulneráveis da população.
425. Chamar todos os
homens e mulheres de boa vontade a colocarem em prática princípios fundamentais como o
bem comum (a casa é de todos), a subsidiariedade, a solidariedade intergeracional e
intrageracional.
8.6 Alguns rostos
sofredores que doem em nós
8.6.1 Pessoas que
vivem na rua nas grandes cidades
426. Nas grandes
cidades é cada vez maior o número das pessoas que vivem na rua, que
requerem cuidado especial,
atenção e trabalho de promoção humana por parte da Igreja, de tal modo
que enquanto se lhes
proporciona ajuda no necessário para a vida, que também sejam incluídos
em projetos de
participação e promoção nos quais eles próprios sejam sujeitos de sua
re-inserção social.
427. Queremos chamar
a atenção dos governos locais e nacionais para que elaborem políticas
que favoreçam a atenção a
estes seres humanos, assim como atendam as causas que produzem este flagelo que afeta
milhões de pessoas em toda nossa América Latina e Caribe.
428. A opção
preferencial pelos pobres nos impulsiona, como discípulos e missionários
de Jesus, a procurar caminhos
novos e criativos a fim de responder à realidade crescente de pobres. A
situação precária e a
violência familiar com freqüência obrigam muitos meninos e meninas a
procurarem recursos econômicos
na rua para sua sobrevivência pessoal e familiar, expondo-se também a
graves riscos morais e
humanos.
429. É dever social
do Estado criar uma política inclusiva da problemática das pessoas da
rua. Nunca se aceitará como
solução a esta grave problemática social a violência e inclusive o
assassinato dos meninos e jovens da
rua, como tem sucedido lamentavelmente em alguns países de nosso Continente.
8.6.2 Enfermos
430. A Igreja tem
feito uma opção pela vida. Esta nos projeta necessariamente para as
periferias mais profundas da
existência: o nascer e o morrer, a criança e o idoso, o são e o enfermo.
São Irineu nos diz que “a glória de
Deus é o homem vivo”, inclusive o fraco, o recém-nascido, o envelhecido
pelos anos e o enfermo.
Cristo enviou seus apóstolos a pregar o Reino de Deus e a curar os
enfermos, verdadeiras catedrais
do encontro com o Senhor Jesus.
431. Desde o início
da evangelização este duplo mandado tem sido cumprido. O combate à enfermidade tem como
finalidade conseguir a harmonia física, psíquica, social e espiritual
para o cumprimento da missão
recebida. A Pastoral da Saúde é a resposta às grandes interrogações da
vida, como são o sofrimento
e a morte, à luz da morte e da ressurreição do Senhor.
432. A saúde é um
tema que move grandes interesses no mundo, mas não proporciona uma finalidade que a
transcenda. Na cultura atual a morte não cabe e, diante de sua
realidade, trata-se de ocultá-la. Abrindo a
sua dimensão espiritual e transcendente, a Pastoral da Saúde se
transforma no anúncio da morte e
ressurreição do Senhor, única e verdadeira saúde. Ela unifica na
economia sacramental de Cristo
o amor de muitos “bons samaritanos”, sacerdotes, diáconos, leigos e profissionais da
saúde. As 32.116 instituições católicas dedicadas à Pastoral da Saúde na
América Latina representam um
recurso para a evangelização que se deve aproveitar.
433. A maternidade da
Igreja se manifesta nas visitas aos enfermos nos centros de saúde, na companhia silenciosa
ao enfermo, no carinhoso trato, na delicada atenção às necessidades da
enfermidade, através dos profissionais e voluntários discípulos do
Senhor. Ela abriga com sua ternura, fortalece o coração e, no caso do
moribundo, acompanha-o no trânsito definitivo. O enfermo recebe com amor
a Palavra, o perdão, o Sacramento da unção e os gestos de caridade dos
irmãos. Os enfermos são verdadeiros missionários, pois, com seu
sofrimento completam a paixão de Cristo em seu corpo que é a Igreja (cf.
Cl. 1, 24). O sofrimento humano é uma experiência especial da cruz e, ao
mesmo tempo, uma oportunidade de encontro consigo mesmo, com os demais e
com deus. O testemunho de fé, paciência e esperança dos enfermos
evangeliza a todos.
434. Deve-se,
portanto, estimular nas Igrejas locais a pastoral da saúde que inclua
diferentes campos de atenção.
Consideramos de grande prioridade fomentar uma pastoral da Aids, em seu
amplo contexto e em seus
significados pastorais: que promova o acompanhamento compreensivo, misericordioso e a
defesa dos direitos das pessoas infectadas; que implemente a informação, promova a educação e
a prevenção, com critérios éticos, principalmente entre as novas
gerações para que desperte a
consciência de todos para conter a pandemia. A partir desta V
Conferência pedimos aos governos
o acesso gratuito e universal aos medicamentos para a Aids e a doses oportunas.
8.6.3 Dependentes de
drogas
435. É muito dolorosa
a situação de tantas pessoas, em sua maioria jovens, que são vítimas da voragem insaciável de
interesses econômicos daqueles que comercializam com a droga.
436. Na América
Latina e no Caribe, a Igreja deve promover uma luta frontal contra o
consumo e tráfico de drogas,
insistindo no valor da ação preventiva e reeducativa, assim como
apoiando os governos e entidades
civis que trabalham neste sentido, exortando o estado em sua responsabilidade de
combater o narcotráfico e prevenir o uso de todo tipo de droga. A
ciência tem indicado a
religiosidade como um fator de proteção e recuperação importante para o
usuário de drogas.
437. Denunciamos que
a comercialização da droga se tornou algo cotidiano em alguns de nossos países devido aos
enormes interesses econômicos ao redor dela. Conseqüência disso é o
grande número de pessoas, em
sua maioria crianças e jovens, que agora se encontram escravizados e vivendo em situações
muito precárias, tendo que se drogar para acalmar sua fome ou para
escapar da cruel e
desesperadora realidade em que vivem. 209
438. É
responsabilidade do Estado combater com firmeza e com base legal, a
comercialização indiscriminada da
droga e o consumo ilegal da mesma. Lamentavelmente, a corrupção também
se faz presente nesta
esfera, e aqueles que deveriam estar na defesa de uma vida mais digna,
às vezes fazem uso ilegítimo
de suas funções para se beneficiar economicamente.
439. Estimulamos
todos os esforços que se realizam a partir do Estado, da sociedade civil
e das Igrejas em acompanhar
estas pessoas. A Igreja Católica tem muitas obras que respondem a esta problemática a partir
do nosso ser discípulos e missionários de Jesus, ainda que não de
maneira suficiente diante da
magnitude do problema; são experiências que reconciliam os dependentes
com a terra, com o
trabalho, com a família e com Deus. Merecem especial atenção, neste
sentido, as Comunidades
terapêuticas, por sua visão humanística e transcendente da pessoa.
8.6.4 Migrantes
440. É expressão de
caridade, também eclesial, o acompanhamento pastoral dos migrantes. Há milhões de pessoas
que por diferentes motivos estão em constante mobilidade. Na América
Latina e Caribe os emigrantes,
deslocados e refugiados sobretudo por causas econômicas, políticas e de violência constituem
um fato novo e dramático.
441. A Igreja, como
Mãe, deve se sentir como Igreja sem fronteiras, Igreja familiar, atenta
ao fenômeno crescente da
mobilidade humana em seus diversos setores. Considera indispensável o desenvolvimento de
uma mentalidade e uma espiritualidade a serviço pastoral dos irmãos em mobilidade,
estabelecendo estruturas nacionais e diocesanas apropriadas, que
facilitem o encontro do estrangeiro com a
Igreja local de acolhida. As Conferências Episcopais e as Dioceses devem assumir
profeticamente esta pastoral específica com a dinâmica de unir critérios
e ações que favoreçam uma
permanente atenção aos migrantes, que devem chegar a ser também
discípulos e missionários.
442. Para conseguir
este objetivo, faz-se necessário reforçar o diálogo e a cooperação de
saída e de acolhida entre as
Igrejas, a fim de dar uma atenção comunitária e pastoral aos que estão
em mobilidade, apoiando-os em sua religiosidade e valorizando suas
expressões culturais em tudo aquilo que se refira ao
Evangelho. É necessário que nos Seminários e casas de formação se tome
consciência sobre a realidade da mobilidade humana, para dar a esse
fenômeno uma resposta pastoral. Também se
requer a preparação de leigos que com sentido cristão, profissionalismo
e capacidade de
compreensão, possam acompanhar aqueles que chegam, como também as
famílias que deixam nos
lugares de saída. 210 Cremos que “a realidade das migrações não deve
nunca ser vista só como um
problema, mas também e sobretudo, como um grande recurso para o caminho
da humanidade”. 211
443. Entre as tarefas
da Igreja a favor dos migrantes está indubitavelmente a denúncia
profética dos atropelos que sofrem
frequentemente, como também o esforço por incidir, junto aos organismos
da sociedade civil, nos
governos dos países, para conseguir uma política migratória que leve em consideração os
direitos das pessoas em mobilidade. Deve ter presente também os
deslocados pela violência. Nos países
açoitados pela violência se requer a ação pastoral para acompanhar as
vítimas e oferecer-lhes
acolhida e capacitá-los para que possam viver de seu trabalho. Ao mesmo
tempo, deverá aprofundar seu
esforço pastoral e teológico para promover uma cidadania universal na
qual não haja distinção de
pessoas.
444. Os migrantes
devem ser acompanhados pastoralmente por suas Igrejas de origem e
estimulados a se fazer discípulos
e missionários nas terras e comunidades que os acolhem, compartilhando
com eles as riquezas de
sua fé e de suas tradições religiosas. Os migrantes que partem de nossas comunidades podem
oferecer uma valiosa contribuição missionária às comunidades que os
acolhem.
445. As generosas
remessas enviadas pelos imigrantes latino-americanos a partir dos
Estados Unidos, Canadá, países
europeus e outros, evidencia sua capacidade de sacrifício e amor
solidário a favor das próprias famílias e
pátrias de origem. É, geralmente, ajuda dos pobres para os pobres.
8.6.5 Presos
446. Uma realidade
que golpeia a todos os setores da população, mas principalmente o mais
pobre, é a violência produto
das injustiças e outros males que durante longos anos está sendo semeado
nas comunidades. Isto
induz a uma maior criminalidade e, por fim, a que sejam muitas as
pessoas que tem que cumprir penas
em recintos penitenciários desumanos, caracterizados pelo comércio de armas, drogas,
aglomeração, torturas, ausência de programas de reabilitação, crime
organizado que impede um processo de
reeducação e de inserção na vida produtiva da sociedade. No momento atual, os cárceres
são com freqüência, lamentavelmente, escolas para aprender a delinquir.
447. É necessário que
os Estados considerem com seriedade e verdade a situação do sistema de justiça e a realidade
carcerária. É necessário uma maior agilidade nos procedimentos
judiciais, assim como o reforço da
ética e dos valores no pessoal civil e militar que trabalham nos
recintos penitenciários.
448. A Igreja
agradece aos capelães e voluntários que, com grande entrega pastoral,
trabalham nos recintos carcerários.
Contudo, deve-se fortalecer a pastoral penitenciária, onde se incluam a
tarefa evangelizadora e de
promoção humana por parte dos capelães e do voluntariado carcerário. Tem prioridade as equipes
de Direitos Humanos que garantem o devido processo aos privados de liberdade e uma
atenção muito próxima à família dos presos.
449. Recomenda-se às
Conferências Episcopais e Dioceses fomentar as comissões de pastoral penitenciária, que
sensibilizem a sociedade sobre a grave problemática carcerária,
estimulem processos de
reconciliação dentro do recinto penitenciário e incidam nas políticas
locais e nacionais no que se refere à
segurança cidadã e à problemática penitenciária.
CAPÍTULO 9
FAMÍLIA, PESSOAS E
VIDA
450. Não podemos nos
deter aqui para analisar todas as questões que integram a atividade
pastoral da Igreja, nem
podemos propor projetos acabados ou linhas de ação exaustivas. Só nos
deteremos a fim de mencionar
algumas questões que alcançaram particular relevância nos últimos
tempos, para que posteriormente as
Conferências Episcopais e outros organismos locais avancem em considerações mais
amplas, concretas e adaptadas às necessidades do próprio território.
9.1 O matrimônio e a
família
451. A família é um
dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos e é patrimônio
da humanidade inteira.
Em nossos países, uma parte importante da população está afetada por
difíceis condições de vida que
ameaçam diretamente a instituição familiar. Em nossa condição de
discípulos e missionários de
Jesus Cristo somos chamados a trabalhar para que esta situação seja
transformada e que a família
assuma seu ser e sua missão 212 no âmbito da sociedade e da Igreja.
452. A família está
fundada no sacramento do matrimônio entre uma mulher e um homem, sinal
do amor de Deus pela
humanidade e da entrega de Cristo por sua esposa, a Igreja. A partir
desta aliança se manifestam a
paternidade e a maternidade, a filiação e a fraternidade e o compromisso
dos dois por uma sociedade
melhor.
453. Cremos que “a
família é imagem de Deus que, em seu mistério mais íntimo não é uma
solidão, mas uma família”.213
Na comunhão de amor das três Pessoas divinas, nossas famílias tem sua origem, seu modelo
perfeito, sua motivação mais bela e seu último destino.
454. Visto que a
família é o valor mais querido por nossos povos, cremos que se deve
assumir a preocupação por ela
como um dos eixos transversais de toda ação evangelizadora da Igreja. Em
toda diocese se requer uma
pastoral familiar “intensa e vigorosa”214 para proclamar o evangelho da família, promover a
cultura da vida e trabalhar para que os direitos das famílias sejam
reconhecidos e respeitados.
455. Esperamos que os
legisladores, governantes e profissionais da saúde, conscientes da
dignidade da vida humana e do
fundamento da família em nossos povos, defendam-na e protejam-na dos
crimes abomináveis do aborto e da eutanásia; esta é sua
responsabilidade. Por isso, diante de leis e disposições governamentais
que são injustas segundo a luz da fé, deve-se favorecer a objeção de consciência. Devemos
nos ater à “coerência eucarística”, isto é, ser conscientes que não
podemos receber a sagrada
comunhão e ao mesmo tempo agir com atos ou palavras contra os
mandamentos, em particular quando
se propicia o aborto, a eutanásia e outros graves delitos contra a vida
e a família. Esta
responsabilidade pesa de maneira particular sobre os legisladores,
governantes e os profissionais da
saúde. 215
456. Para tutelar e
apoiar a família, a Pastoral familiar pode estimular, entre outras, as
seguintes ações:
a) Comprometer de uma
maneira integral e orgânica ás outras pastorais, os movimentos e associações
matrimoniais e familiares a favor das famílias.
b) Estimular projetos
que promovam famílias evangelizadas e evangelizadoras.
c) Renovar a
preparação remota e próxima para o sacramento do matrimônio e da vida
familiar com itinerários
pedagógicos de fé.
d) Promover, em
diálogo com os governos e a sociedade, políticas e leis a favor da vida,
do matrimônio e da
família.
e) Estimular e
promover a educação integral dos membros da família, integrando a
dimensão do amor e da
sexualidade.
f) Estimular centros
paroquiais e diocesanos com uma pastoral de atenção integral à família, especialmente aquelas
que estão em situações difíceis: mães adolescentes e solteiras, viúvas e viúvos, pessoas da
terceira idade, crianças abandonadas, etc.
g) Estabelecer
programas de formação, atenção e acompanhamento para a paternidade e a maternidade
responsáveis.
h) Estudar as causas
das crises familiares para encará-las em todos os seus fatores.
i) Oferecer formação
permanente, doutrinal e pedagógica para os agentes de pastoral familiar.
j) Acompanhar com
cuidado, prudência e amor compassivo os matrimônios que vivem em
situação irregular 216,
seguindo as orientações do Magistério 217. Requerem-se mediações que
tornem possível que chegue a
mensagem de salvação para todos. É urgente estimular ações eclesiais, em
um trabalho
interdisciplinar de teologia e ciências humanas, que ilumine a pastoral
e a preparação de agentes
especializados para o acompanhamento destes irmãos.
k) Diante das
petições de nulidade matrimonial, procurar que os Tribunais
eclesiásticos sejam acessíveis e tenham
uma correta e rápida atuação. 218
l) Ajudar a criar
possibilidades para que os meninos e meninas órfãos e abandonados
consigam, pela caridade cristã,
condições de acolhida e adoção e possam viver em família.
m) Organizar casas de
acolhida e um acompanhamento específico para socorrer com compaixão e solidariedade ás
meninas e adolescentes grávidas, ás mães “solteiras”, os lares
incompletos.
n) Ter presente que a
Palavra de Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, solicita-nos uma atenção especial
em relação às viúvas. Procurar uma maneira para que elas recebam uma pastoral que as ajude
a enfrentar esta situação, muitas vezes de desamparo e de solidão.
9.2 As crianças
457. A infância hoje
em dia deve ser sujeito de uma ação prioritária da Igreja, da família e
das instituições do
Estado, tanto pelas possibilidades que oferece como pela vulnerabilidade
a que se encontra exposta. As
crianças são dom e sinal da presença de Deus em nosso mundo por sua capacidade de acolher
com simplicidade o que será o fundamento de suas vidas e aqueles a quem Jesus presenteou como
seus prediletos no Reino e como modelo para entrar nele.
458. Vemos com dor a
situação de pobreza, de violência intra-familiar (sobretudo em famílias
irregulares ou desintegradas), de abuso sexual, pela qual passa um bom
número de nossas crianças, assim como os setores
de infância trabalhadora, crianças de rua, crianças portadora de HIV,
órfãos, soldados, e crianças
enganadas e expostas à pornografia e prostituição forçada, tanto virtual
quanto real. A primeira
infância (0 a 6 anos) requer um cuidado e atenção especiais.
459. Por outro lado,
a infância, ao ser a primeira etapa da vida do recém-nascido, constitui
uma ocasião maravilhosa
para a transmissão da fé. Vemos com gratidão a valiosa ação de tantas instituições a
serviço da infância.
460. A esse respeito,
propomos algumas orientações pastorais:
a) Inspirar-se na
atitude de Jesus para com as crianças, de respeito e acolhida como os
prediletos do Reino, atendendo a
sua formação integral.
b) Estabelecer, onde
não existam, O Departamento ou Seção da Infância para desenvolver ações pontuais e orgânicas
a favor dos meninos e meninas.
c) Promover processos
de reconhecimento da infância como um setor decisivo de especial cuidado por parte da Igreja,
da Sociedade e do Estado.
d) Tutelar a
dignidade e os direitos naturais inalienáveis das crianças, sem prejuízo
dos legítimos direitos dos pais.
e) Apoiar as
experiências pastorais de atenção à primeira infância.
f) Estudar e
considerar as pedagogias adequadas para a educação na fé das crianças,
especialmente em tudo aquilo
relacionado à iniciação cristã, privilegiando o momento da primeira
comunhão, como também na afetividade
e sexualidade humana.
g) Valorizar a
capacidade missionária das crianças, que não só evangelizam seus
próprios companheiros, mas que
também podem ser evangelizadores de seus próprios pais.
h) Promover e
difundir processos permanentes de pesquisa sobre a infância, que façam
sustentável, tanto o
reconhecimento de seu cuidado, como as iniciativas a favor da defesa e
de sua promoção humana.
i) Fomentar a
instituição da infância missionária.
461. Os adolescentes
não são crianças nem são jovens, mas estão na idade da procura de sua
própria identidade, de
independência frente a seus pais, de descobrimento do grupo. Nesta
idade, facilmente podem ser vítimas de falsos líderes constituindo
grupos. É necessário estimular a pastoral dos adolescentes, com suas
próprias características, que garanta sua perseverança na fé. O
adolescente procura uma experiência de amizade com Jesus.
9.3 Os jovens
462. Os jovens e
adolescentes constituem a grande maioria da população da América latina
e do caribe, por isso
representam um enorme potencial para o presente e futuro da Igreja e de
nossos povos como discípulos
e missionários do Senhor Jesus. Os jovens são sensíveis para descobrir
sua vocação a ser amigos
e discípulos de Cristo. São chamados a ser “sentinelas da manhã”,
comprometendo-se na renovação do mundo à luz do Plano de Deus. Não temem
o sacrifício nem a entrega da própria
vida, mas sim uma vida sem sentido. Por sua generosidade, são chamados a
servir a seus irmãos,
especialmente aos mais necessitados, com todo seu tempo e sua vida. Tem capacidade para se
opor às falsas ilusões de felicidade e aos paraísos enganosos das
drogas, do prazer, do álcool e
de todas as formas de violência. Em sua procura pelo sentido da vida,
são capazes e sensíveis para
procurar descobrir o chamado particular que o Senhor Jesus lhes faz.
Como discípulos missionários, as novas gerações são chamadas a
transmitir a seus irmãos jovens, sem distinção alguma, a
corrente de vida que procede de Cristo e a compartilhá-la em comunidade, construindo Igreja e
sociedade.
463. Por outro lado,
constatamos com preocupação que a juventude do nosso Continente passa
por situações que a
afetam significativamente: os efeitos da pobreza, que limitam o
crescimento harmônico de suas
vidas e gera exclusão; a socialização, que com sua transmissão de
valores já não acontece
prioritariamente nas instituições tradicionais, mas em novos ambientes
não isentos de uma forte carga de
alienação; e sua permeabilidade às formas novas de expressões culturais,
produto da globalização, que
afeta sua própria identidade pessoal e social. São presa fácil das novas
propostas religiosas e
pseudo-religiosas. As crises pelas quais passa a família hoje em dia,
produz profundas carências afetivas e
conflitos emocionais.
464. Estão muito
afetados por uma educação de baixa qualidade, que os deixa por baixo dos
níveis necessários de
competitividade, somado aos enfoques antropológicos reducionistas, que
limitam seus horizontes de
vida e dificultam a tomada de decisões duradouras. Vê-se uma ausência
dos jovens no político
devido á desconfiança que geram as situações de corrupção, o
desprestígio dos políticos e a procura
de interesses pessoais frente ao bem comum. Constata-se com preocupação suicídios de jovens.
Outros não tem possibilidades de estudar ou trabalhar e muitos deixam
seus países por não
encontrar neles um futuro, dando aos fenômenos da mobilidade humana e da migração um rosto
juvenil. Preocupa também o uso indiscriminado e abusivo que muitos
jovens podem fazer do mundo
da comunicação virtual.
465. Diante destes
desafios sugerimos algumas linhas de ação:
a) Renovar de maneira
eficaz e realista uma opção preferencial pelos jovens, em continuidade
com as Conferências
Episcopais anteriores, dando novo impulso à Pastoral da Juventude nas
comunidades eclesiais (dioceses,
paróquias, movimentos, etc).
b) Estimular os
Movimentos eclesiais que tem uma pedagogia orientada à evangelização dos
jovens e convidá-los a colocar
mais generosamente suas riquezas carismáticas, educativas e missionárias
a serviço das Igrejas
locais.
c) Propor aos jovens
o seguimento de Cristo na Igreja, à luz do Plano de Deus, que garanta a
realização plena de sua dignidade de ser humano e proponha a eles uma
opção vocacional específica: o sacerdócio, a vida
consagrada ou o matrimônio. Durante o processo de acompanhamento
vocacional, irá aos poucos introduzindo os jovens na oração pessoal e na
lectio divina, na freqüência aos sacramentos da Eucaristia e da
Reconciliação, da direção espiritual e do apostolado.
d) Privilegiar na
Pastoral da Juventude processos de educação e amadurecimento na fé como
resposta de sentido e orientação da vida e garantia de compromisso
missionário. De maneira especial, buscar-se-á implementar uma catequese
atrativa para os jovens que os introduza no conhecimento do mistério de
Cristo, buscando mostrar a eles a beleza da Eucaristia dominical que os
leve a descobrir nela Cristo vivo e o mistério fascinante da Igreja.
e) A pastoral da
Juventude ajudará também a formar os jovens de maneira gradual, para a
ação social política e a
mudança de estruturas, conforme a Doutrina Social da Igreja, fazendo
própria a opção preferencial e
evangélica pelos pobres e necessitados.
f) É imperativa a
capacitação dos jovens para que tenham oportunidades no mundo do
trabalho e evitar que caiam na
droga e na violência.
g) Nas metodologias
pastorais, procurar uma maior sintonia entre o mundo adulto e o mundo
dos jovens.
h) Assegurar a
participação em peregrinações de jovens, nas Jornadas nacionais e
mundiais da Juventude, com a
devida preparação espiritual e missionária e com a companhia dos
Pastores.
9.4 O bem-estar dos
idosos
466. O acontecimento
da apresentação no templo (cf. Lc. 2, 41-50) coloca-nos diante do encontro
das gerações: as crianças
e os anciãos. A criança que surge para a vida, assumindo e cumprindo a
Lei, e os anciãos, que a festejam com a alegria do Espírito Santo.
Crianças e anciãos são o futuro dos povos. As crianças porque levarão
adiante a história, os anciãos porque transmitem a sabedoria presente em suas vidas.
467. A Palavra de
Deus nos desafia de muitas maneiras a respeitar e valorizar os mais
velhos e anciãos. Convida-nos,
inclusive, a aprender deles, com gratidão e a acompanhá-los em sua
solidão ou fraca condição. A
frase de Jesus: “aos pobres sempre terão com vocês e poderão socorrê-los
quando quiserem” (Mc. 14,
7), pode muito bem ser entendida, porque fazem parte de cada família,
povo e nação. No entanto,
muitas vezes, são esquecidos ou descuidados, pela sociedade e até mesmo
por seus próprios
familiares.
468. Muitos de nossos
idosos gastaram sua vida pelo bem de sua família e da comunidade, a
partir de seu lugar e
vocação. Muitos são verdadeiros discípulos missionários de Jesus, por
seu testemunho e suas obras. Merecem
ser reconhecidos como filhos e filhas de Deus, chamados a compartilhar a plenitude do amor e a
serem queridos em particular pela cruz de suas doenças, da capacidade diminuída ou da
solidão. A família não deve olhar só as dificuldades que traz conviver
com eles ou o ter que atendê-los. A
sociedade não pode considerá-los como um peso ou uma carga. É lamentável que em alguns países
não haja políticas sociais que se ocupem suficientemente dos idosos já aposentados,
pensionistas, enfermos ou abandonados. Portanto, exortamos a criação de
políticas sociais justas e
solidárias, que atendam a estas necessidades.
469. A Igreja se
sente comprometida a procurar a atenção humana integral de todas as
pessoas idosas, também
ajudando-as a viver o seguimento de Cristo em sua atual condição e
incorporando-as à missão
evangelizadora o quanto possível. Por isso, enquanto se agradece o
trabalho que já vem realizando
religiosas, religiosos e voluntários, a Igreja quer renovar suas
estruturas pastorais e preparar inclusive mais agentes, a fim de ampliar
este valioso serviço de amor.
9.5 A dignidade e
participação das mulheres
470. A partir da
antropologia cristã, ressalta-se a igual identidade entre homem e mulher
em razão de terem sido criados
a imagem e semelhança de Deus. O mistério da Trindade nos convida a
viver uma comunidade de
iguais na diferença. Em uma época marcada pelo machismo, a prática de
Jesus foi decisiva para
significar a dignidade da mulher e de seu valor indiscutível: falou com
elas (cf Jo. 4, 27), curou-as (cf.. Mc. 5, 25-34), reivindicou sua
dignidade (cf Jo. 8, 1-11), escolheu-as como primeiras testemunhas de sua
ressurreição (cf. Mt. 28, 9-10) e incorporou-as em seu grupo (cf. Lc. 8,
1-3). A figura de Maria, discípula por excelência entre discípulos, é
fundamental na recuperação da identidade da mulher e de seu valor na
Igreja. O canto do magnificat mostra Maria como mulher capaz de se comprometer com sua
realidade e de ter uma voz profética diante dela.
471. A relação entre
a mulher e o homem é de reciprocidade e de colaboração mútua. Trata-se
de harmonizar,
complementar e trabalhar somando esforços. A mulher é co-responsável,
junto com o homem, diante do
presente e do futuro de nossa sociedade humana.
472. Lamentamos que
inumeráveis mulheres de toda condição não são valorizadas em sua
dignidade, ficam com freqüência sozinhas e abandonadas, não se reconhece
nelas suficientemente seu abnegado sacrifício e inclusive heróica
generosidade no cuidado e educação dos filhos nem na transmissão da fé na
família. Não se valoriza nem se promove adequadamente sua indispensável
e peculiar participação
na construção de uma vida social mais humana e na edificação da Igreja.
Ao mesmo tempo, sua
urgente dignificação e participação pretende ser distorcida por
correntes ideológicas, mascadas pela marca cultural das sociedades de
consumo e do espetáculo, que é capaz de submeter as
mulheres a novas formas de escravidão. Na América Latina é necessário
superar uma mentalidade machista
que ignora a novidade do cristianismo, onde se reconhece e proclama a
“igual dignidade e
responsabilidade da mulher em relação ao homem”. 219
473. Nesta hora da
América Latina é imperativo escutar o clamor muitas vezes silenciado das mulheres que são
submetidas a muitas formas de exclusão e de violência em todas as suas
formas e em todas as etapas de
sua vida. Entre elas, as mulheres pobres, indígenas e afro-descendentes
tem sofrido uma dupla
marginalização. É necessário que todas as mulheres possam participar
plenamente na vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica,
criando espaços e estruturas que favoreçam uma maior inclusão.
474. As mulheres
constituem, geralmente, a maioria de nossas comunidades. São as
primeiras transmissoras da fé e
colaboradoras dos pastores, que devem atendê-las, valorizá-las e
respeitá-las.
475. É necessário
valorizar a maternidade como missão excelente das mulheres. Isto não se
opõe a seu desenvolvimento
profissional e ao exercício de todas as suas dimensões, o qual nos
permite ser fiéis ao plano
original de Deus que dá ao casal humano de forma conjunta a missão de
melhorar a terra. A mulher é
insubstituível no lar, na educação dos filhos e na transmissão da fé.
Mas isto não exclui a necessidade
de sua participação ativa na construção da sociedade. Para isso é
necessário propiciar uma
formação integral de maneira que as mulheres possam cumprir sua missão
na família e na sociedade.
476. A sabedoria do
plano de Deus nos exige favorecer o desenvolvimento de sua identidade
feminina em reciprocidade e complementaridade à identidade do homem. Por
isso a Igreja é chamada a compartilhar, orientar e acompanhar projetos
de promoção da mulher com organismos sociais já existentes, reconhecendo
o ministério essencial e espiritual que a mulher leva em suas entranhas:
receber a vida, acolhê-la, alimentá-la, dar-lhe a luz, sustentá-la,
acompanhá-la e exercitar seu ser mulher criando espaços habitáveis de
comunidade e de comunhão. A maternidade não é uma realidade
exclusivamente biológica, mas se expressa de diversas maneiras. A
vocação materna se cumpre através de muitas formas de amor, contenção e
serviço aos demais. A dimensão maternal também se concretiza,
por exemplo, na adoção de crianças, oferecendo-lhes proteção e lar. O
compromisso da Igreja nesta esfera é ético e profundamente evangélico.
477. Propomos algumas
ações pastorais:
a) Estimular a
organização da pastoral de maneira que ajude a descobrir e desenvolver
em cada mulher e nos âmbitos
eclesiais e sociais o “gênio feminino” e promova o mais amplo
protagonismo das mulheres.
b) Garantir a efetiva
presença da mulher nos ministérios que na Igreja são confiados aos
leigos, assim como também nas
instâncias de planejamento e decisão pastorais, valorizando sua
contribuição.
c) Acompanhar as
associações femininas que lutam para superar situações difíceis, de vulnerabilidade ou de
exclusão.
d) Promover o diálogo
com autoridade para a elaboração de programas, leis e políticas públicas
que permitam harmonizar a
vida de trabalho da mulher com seus deveres de mãe de família.
9.6 A
responsabilidade do homem e pai de família
478. O homem, a
partir de sua especificidade, é chamado pelo Deus da vida a ocupar um
lugar original e necessário
na construção da sociedade, na geração de cultura e na realização da
história. Profundamente
motivados pela bela realidade do amor que tem sua fonte em Jesus Cristo,
muitos se sentem fortemente
convidados a formar uma família. Ali, em uma essencial disposição de
reciprocidade e complementaridade, vivem e valorizam para a plenitude de
sua vida, a ativa e insubstituível
riqueza da contribuição da mulher, que lhes permite reconhecer mais
nitidamente sua própria identidade.
479. Enquanto
batizado, o homem deve se sentir enviado pela Igreja a todos e cada um
dos campos de atividade que
constituem sua vocação e missão dando testemunho como discípulo e
missionário de Jesus Cristo na
família. No entanto, em não poucos casos, termina delegando esta
responsabilidade para as mulheres ou esposas.
480.
Tradicionalmente, devemos reconhecer que uma porcentagem significativa
deles na América latina e Caribe, se
mantém á margem da Igreja e do compromisso que nela são chamados a
realizar. Deste modo,
afastam-se de Jesus Cristo, da vida plena que tanto desejam e procuram.
Esta condição de distância ou
indiferença por parte dos homens, que questiona fortemente o estilo de
nossa pastoral convencional, contribui para que vá crescendo a separação
entre fé e cultura, a gradual perda do que interiormente é essencial e
doador de sentido, a fragilidade para resolver adequadamente conflitos e
frustrações, à fraqueza para resistir ao embate e seduções de uma
cultura consumista, frívola e competitiva, etc. Tudo isto os faz
vulneráveis diante da proposta de estilos de vida que, propondo-se como
atrativos, terminam sendo desumanizadores. Em um número cada vez mais
freqüente deles, vai se abrindo passagem à tentação de ceder à
violência, infidelidade, abuso do poder, dependência de drogas,
alcoolismo, machismo, corrupção e abandono de seu papel de pais.
481. Por outro lado,
uma grande porcentagem deles se sentem exigidos na família, no trabalho
e socialmente. Carentes
de maior compreensão, acolhida e afeto da parte dos seus, de serem
valorizados de acordo com o que contribuíram materialmente e sem espaços
vitais onde compartilhar seus sentimentos mais profundos com toda
liberdade, eles são expostos a uma situação de profunda insatisfação que
os deixa a mercê do poder desintegrador da cultura atual. Diante desta
situação, e em consideração às conseqüências mencionadas traz para a
vida matrimonial e para os filhos, faz-se necessário estimular em todas
nossas Igrejas locais uma pastoral para o pai de família.
482. Propõem-se
algumas ações pastorais:
a) Revisar os
conteúdos das diversas catequeses preparatórias aos sacramentos, como as
atividades e movimentos
eclesiais relacionados com a pastoral familiar, para favorecer o anúncio
e a reflexão ao redor da vocação que
o homem é chamado e viver no matrimônio, na família, na Igreja e na sociedade.
b) Aprofundar nas
instâncias pastorais pertinentes, o papel específico que cabe ao homem
na construção da família
enquanto Igreja Doméstica, especialmente como discípulo e missionário evangelizador de seu
lar e filhos.
c) Promover em todos
os campos de atividade da educação católica e da pastoral de jovens, o anúncio e o
desenvolvimento dos valores e atitudes que facilitem aos jovens e às
jovens gerarem competências que lhes
permitam favorecer o papel de homem na vida matrimonial, no exercício da paternidade e na
educação da fé de seus filhos.
d) Desenvolver no
interior das Universidades católicas, à luz da antropologia e da moral
cristã, a pesquisa e a reflexão
necessárias que permitam conhecer a situação atual do mundo dos homens, das conseqüências do
impacto dos atuais modelos culturais em sua identidade e papel, e pistas
que possam colaborar no
projeto de orientações pastorais a respeito.
e) Denunciar uma
mentalidade neoliberal que não vê no pai de família mais do que um
instrumento de produção e
ganância, relegando-o inclusive na família a um papel de mero provedor.
A crescente prática de políticas
públicas e iniciativas privadas de promover inclusive o domingo como dia
de trabalho, é uma
medida profundamente destrutiva da família e do pai.
f) Favorecer na vida
da Igreja a ativa participação dos homens, gerando e promovendo espaços
e serviços que
colaborem neste serviço.
9.7 A cultura da vida
e sua defesa
483. O ser humano,
criado a imagem e semelhança de Deus, também possui uma altíssima
dignidade que não podemos
pisotear e que somos convocados a respeitar e a promover. A vida é
presente gratuito de Deus, dom
e tarefa e devemos cuidar dela com sagrada atenção desde a concepção, em todas as suas etapas
até a morte natural, sem relativismos.
484. A globalização
também irrompeu nas ciências, em seus métodos e em seus limites e nós,
os discípulos de Jesus,
temos que levar o Evangelho ao grande cenário das mesmas, em um diálogo entre ciência e fé
que nos permita apresentar a defesa da vida no concerto das ciências. A
bioética trabalha com esta
base epistemológica, de maneira interdisciplinar, onde cada ciência
contribui com suas conclusões.
485. Não podemos
escapar deste desafio de diálogo entre a fé, a razão e as ciências.
Nossa prioridade pela vida
e pela família, carregadas de problemáticas que são debatidas na
bioética, conduz-nos a iluminar
com o Evangelho e o Magistério da Igreja a realidade da vida.
486. Hoje, assistimos
hoje a novos desafios que nos pedem para ser vozes dos que não têm voz.
A criança que está
crescendo no seio materno e nas pessoas que se encontram no ocaso, são
uma voz de vida digna que
grita ao céu e que não pode deixar de nos estremecer. A liberalização e
banalização das práticas abortivas são crimes abomináveis, assim como a
eutanásia, a manipulação genética e embrionária, ensaios médicos em
seres humanos, pena de morte e tantas outras maneiras de atentar contra
a dignidade e a vida. Se quisermos sustentar um fundamento sólido e
inviolável para os direitos humanos, é indispensável reconhecer que a
vida humana deve ser defendida sempre, desde o momento da fecundação. De
outra maneira, as circunstâncias e conveniências dos poderosos sempre
encontrarão desculpas para maltratar as pessoas.
487. Os desejos de
vida, de paz, de fraternidade e de felicidade que não encontram resposta
em meios aos ídolos do
lucro e da eficácia, da insensibilidade diante do sofrimento alheio, dos
ataques à vida intra-uterina, a
mortalidade infantil, a deterioração de alguns hospitais e todas as
modalidade de violência contra
crianças, jovens e mulheres, indicam a importância da luta pela vida e
pela dignidade e
integridade da pessoa humana.
488. A fim de que
discípulos e missionários louvem a Deus dando graças pela vida e
servindo à mesma, propomos as
seguintes ações:
a) Promover e
planejar nas dioceses cursos de bioética para os agentes de pastorais
que possam ajudar a fundamentar
com solidez os diálogos a respeito dos problemas e situações
particulares sobre a vida.
b) Procurar que
sacerdotes, diáconos, religiosos e leigos busquem estudos universitários
de bioética. 95
c) Promover foros,
painéis, seminários e congressos que estudem, reflitam e analisem temas concretos da
atualidade sobre a vida em suas diversas manifestações e sobretudo o ser
humano, especialmente no que
se refere ao respeito pela vida desde a concepção até sua morte natural.
d) Convocar as
Universidades católicas para organizar programas de bioética acessíveis
a todos e tomem posição pública
diante dos grandes temas da bioética.
e) Criar em nível
nacional um comitê de bioética, com pessoas preparadas no tema, que
garantam fidelidade e respeito
à doutrina do Magistério da Igreja sobre a vida, para que seja a
instância que pesquise, estude,
discuta e atualize a comunidade no momento que o debate público seja
necessário. Este comitê enfrentará as realidades que se apresentarão na
localidade, no país ou no mundo, para defender e promover a vida no
momento oportuno.
f) Oferecer aos
matrimônios programas de formação em paternidade responsável e sobre o
uso dos métodos naturais de
regulação da natalidade.
g) Apoiar e
acompanhar pastoralmente e com misericórdia as mulheres que decidiram
não abortar e acolher com
misericórdia aquelas que abortaram para ajudá-las a curar suas graves
feridas e convidá-las a ser defensoras da vida. O aborto faz duas
vítimas: certamente, a criança, mas também a mãe.
h) Promover a
formação e ação de leigos competentes que se organizem para defender a
vida e a família e que
participem de organismos nacionais e internacionais.
i) Assegurar que se
incorpore a objeção de consciência nas legislações e no que diz respeito
às administrações
públicas.
9.8 O cuidado com o
meio-ambiente
489. Como discípulos
de Jesus, sentimo-nos convidados a dar graças pelo dom da criação,
reflexo da sabedoria e da beleza
do Logos criador. No desígnio maravilhoso de Deus, o homem e a mulher
são convocados a viver em
comunhão com Ele, em comunhão entre eles e com toda a criação. O Deus da vida encomendou ao
ser humano sua obra criadora para que “a cultivasse e a guardasse” (Gn.
2, 15). Jesus conhecia bem a
preocupação do Pai pelas criaturas que ele alimenta (cf. Lc. 12, 24) e
embeleza (cf. Lc. 12, 27). E
enquanto andava pelos caminhos de sua terra não só se detinha para
contemplar a beleza da natureza,
mas também convidava seus discípulos a reconhecer a mensagem escondida
nas coisas (cf. Lc.
12, 24-27; Jo. 4, 35). As criaturas do Pai dão glória “somente com sua
existência” 220, e por isso o ser humano
deve fazer uso delas com cuidado e delicadeza. 221
490. A América Latina
está se conscientizando da natureza como uma herança gratuita que
recebemos para proteger, como espaço precioso da convivência humana e
como responsabilidade cuidadosa do senhorio
do homem para o bem de todos. Esta herança muitas vezes se manifesta frágil e indefesa
diante dos poderes econômicos e tecnológicos. Por isso, como profetas da
vida, queremos insistir
que, nas intervenções humanas nos recursos naturais, não predominem os
interesses de grupos econômicos que arrasam irracionalmente as fontes de
vida, em prejuízo de nações inteiras e da
própria humanidade. As gerações que nos sucederão têm direito a receber
um mundo habitável e não
um planeta com ar contaminado, com águas envenenadas e com recursos naturais esgotados.
491. A Igreja
agradece a todos os que se ocupam da defesa da vida e do ambiente. Ela
está próxima aos homens do campo
que, com amor generoso, trabalham duramente a terra para tirar, em condições
extremamente difíceis, o sustento para suas famílias e contribuir com
todos os frutos da terra. Valoriza
especialmente os indígenas por seu respeito à natureza e pelo amor à mãe
terra como fonte de alimento,
casa comum e altar do compartilhar humano.
492. A riqueza
natural da América Latina experimenta hoje uma exploração irracional que
vai deixando um rastro de
dilapidação, e inclusive de morte por toda nossa região. Em todo esse processo o atual
modelo econômico tem uma enorme responsabilidade pois privilegia o
desmedido afã pela riqueza,
acima da vida das pessoas e dos povos e do respeito racional da
natureza. A devastação de nossas
florestas e da biodiversidade mediante uma atitude predatória e egoísta,
envolve a
responsabilidade moral daqueles que a promovem, porque coloca em perigo
a vida de milhões de pessoas e,
em especial, do habitat dos homens do campo e indígenas, que são
expulsos para as terras
improdutivas e para as grandes cidades para viverem amontoados nos
cinturões de miséria. A América
Latina tem necessidade de progredir em seu desenvolvimento
agro-industrial para valorizar as
riquezas de suas terras e suas capacidades humanas a serviço do
bem-comum. Porém, não podemos
deixar de mencionar os problemas que uma industrialização selvagem e descontrolada causa
em nossas cidades e no campo, que vai contaminando o ambiente com todo tipo de dejetos
orgânicos e químicos. Da mesma maneira é preciso alertar a respeito das
indústrias extrativas de
recursos que, quando não tem procedimentos para controlar e neutralizar
seus efeitos danosos sobre o
ambiente circundante, produzem a eliminação das florestas, a
contaminação da água e transformam as
regiões exploradas em imensos desertos.
493. Diante desta
situação, oferecemos algumas propostas e orientações:
a) Evangelizar nossos
povos para descubram o dom da criação, sabendo contemplá-la e cuidar
dela como casa de todos os
seres vivos e matriz da vida do planeta, a fim de exercitar
responsavelmente o senhorio humano sobre
a terra e sobre os recursos para que possam render todos os seus frutos
em uma destinação
universal, educando para um estilo de vida de sobriedade e austeridade
solidárias.
b) Aprofundar a
presença pastoral nas populações mais frágeis e ameaçadas pelo
desenvolvimento predatório e
apoiá-las em seus esforços para conseguir uma eqüitativa distribuição da
terra, da água e dos espaços
urbanos.
c) Procurar um modelo
de desenvolvimento alternativo 222, integral e solidário, baseado em uma ética que inclua a
responsabilidade por uma autêntica ecologia natural e humana, que se
fundamente no evangelho da justiça, da solidariedade e do destino
universal dos bens, e que supere a lógica utilitarista e individualista,
que não submete os poderes econômicos e tecnológicos a critérios éticos.
Portanto, estimular nossos homens do campo a se organizarem de tal
maneira que possam conseguir sua justa reivindicação.
d) Empenhar nossos
esforços na promulgação de políticas públicas e participações cidadãs
que garantam a proteção,
conservação e restauração da natureza.
e) Determinar medidas
de monitoramento e de controle social sobre a aplicação dos padrões ambientais
internacionais nos países.
494. Criar nas
Américas consciência sobre a importância da Amazônia para toda a
humanidade. Estabelecer entre as
Igrejas locais de diversos países sul-americanos que estão na bacia
amazônica uma pastoral de
conjunto com prioridades diferenciadas para criar um modelo de
desenvolvimento que privilegie os
pobres e sirva ao bem comum. Apoiar a Igreja que vive na Amazônia, com
os recursos humanos e
financeiros necessários para que siga proclamando o evangelho da vida e desenvolva seu
trabalho pastoral na formação de leigos e sacerdotes através de
seminários, cursos, intercâmbios, visitas
às comunidades e material educativo.
CAPÍTULO 10
NOSSOS POVOS E A
CULTURA
10.1 A cultura e sua
evangelização
495. A cultura, em
sua compreensão maior, representa o modo particular com o qual os homens
e os povos cultivam sua
relação com a natureza e com seus irmãos, com eles mesmos e com Deus, a
fim de conseguir uma
existência plenamente humana 223. Enquanto tal, a cultura é patrimônio
comum dos povos e também da
América Latina.
496. A V Conferência
em Aparecida olha positivamente e com verdadeira empatia as diferentes formas de cultura
presentes em nosso continente. A fé só é adequadamente professada,
entendida e vivida quando
penetra profundamente no substrato cultural de um povo 224. Deste modo,
toda a importância da
cultura para a evangelização aparece, pois a salvação dada por Jesus
Cristo deve ser luz e força para
todos os desejos, para as situações alegres ou sofridas e para as
questões presentes nas culturas
respectivas dos povos. O encontro da fé com as culturas purifica-as,
permite que desenvolvam suas
virtualidades, enriquece-as, pois todas elas procuram em sua última
instância a verdade, que é Cristo
(Jo. 14, 6).
497. Com o Santo
Padre damos graças pelo fato de que a Igreja, “ajudando os fiéis
cristãos a viverem sua fé com alegria e
coerência” tem sido, ao longo de sua história, neste Continente criadora
e animadora de cultura:
“A fé em Deus tem animado a vida e a cultura destes povos durantes mais
de cinco séculos”. Esta
realidade foi expressa na “arte, na música, na literatura e, sobretudo,
nas tradições religiosas e na idiossincrasia de suas gentes, unidas por
uma mesma história e por um mesmo credo, formando uma grande sintonia na
diversidade de culturas e de línguas!. 225
498.Com a
inculturação da fé, a Igreja se enriquece com novas expressões e
valores, exprimindo e celebrando cada vez
melhor o mistério de Cristo, conseguindo unir mais a fé à vida e
contribuindo, assim, para uma
catolicidade mais plena, não só geográfica, mas também cultural. No
entanto, este patrimônio cultural
latino-americano se vê confrontado com a cultura atual, que apresenta
luzes e sombras. Devemos
considerá-la com empatia para entendê-la, mas também com uma postura
crítica para descobrir o que
nela é fruto da limitação humana e do pecado. Ela apresenta muitas e
sucessivas mudanças, provocadas por novos conhecimentos e descobertas da
ciência e da tecnologia. Assim se desvanece uma única imagem do mundo
que oferecia orientação para a vida cristã. Recai, portanto, sobre o
indivíduo toda a responsabilidade de construir sua personalidade e
plasmar sua identidade social. Assim temos, por um lado, a emergência da
subjetividade, do respeito à dignidade e à liberdade de cada um, sem
dúvida uma importante conquista da humanidade. Por outro lado, este
mesmo pluralismo de ordem cultural e religiosa, propagado fortemente por
uma cultura globalizada, acaba por erigir o individualismo como
característica dominante da atual sociedade, responsável pelo
relativismo ético e pela crise da família.
499. Muitos católicos
se encontram desorientados frente a esta mudança cultural. Compete á
Igreja denunciar claramente
“estes modelos antropológicos incompatíveis com a natureza e a dignidade
do homem” 226. É
necessário apresentar a pessoa humana como o centro de toda a vida
social por sua dignidade de filha de
Deus, chamada a compartilhar sua vida por toda a eternidade. A fé cristã
nos mostra Jesus Cristo
como a verdade última do ser humano 227. Anunciá-lo integralmente em
nossos dias exige coragem e
espírito profético. Neutralizar a cultura de morte com a cultura cristã
da solidariedade é um imperativo que diz respeito a todos nós e que foi
um objetivo constante do ensino social da Igreja. No entanto, o anúncio
do Evangelho não pode prescindir da cultura atual. Esta deve ser
conhecida, avaliada e, em certo sentido, assumida pela Igreja, como uma
linguagem compreendida por nossos contemporâneos. Somente assim a fé
cristã poderá aparecer aos olhos desses católicos como realidade
pertinente e significativa de salvação. Mas esta mesma fé deverá gerar
padrões culturais alternativos para a sociedade atual. Os cristãos que
receberam talentos próprios deverão ser criativos em seus campos de
atuação: mundo da cultura, da política, da opinião pública, da arte e da
ciência.
10.2 A educação como
bem público
500. Anteriormente
nos referimos à educação católica, mas como pastores não podemos ignorar
a missão do Estado no
campo educativo, velando de um modo particular pela educação das
crianças e dos jovens. Estes
centros educativos não deveriam ignorar que a abertura à transcendência
é uma dimensão da vida
humana, através da qual a formação integral das pessoas reivindica a
inclusão de conteúdos religiosos.
501. A Igreja crê que
“as crianças e os adolescentes têm direito de ser estimulados a apreciar
com reta consciência os
valores morais, prestando a esses valores sua adesão pessoal e também de
ser estimulados a
conhecer e amar mais a Deus. A Igreja roga, pois, encarecidamente a
todos os que governam os povos, ou
que estão à frente da educação, que procurem nunca permitir que a juventude seja
privada deste sagrado direito”. 228
502. Diante das
dificuldade que encontramos em vários países a esse respeito, queremos
nos empenhar na formação religiosa dos fiéis que assistem às escolas
públicas de gestão estatal, procurando acompanhá-los também através de
outras instâncias formativas em nossas paróquias e Dioceses. Ao mesmo
tempo, agradecemos a dedicação dos professores de religião nas escolas públicas e os
animamos nesta tarefa. Estimulamo-los para que procurem uma capacitação
doutrinal e pedagógica.
Agradecemos também àqueles que, pela oração e pela vida comunitária,
procuram ser testemunho de fé e de
coerência nestas escolas.
10.3 Pastoral da
Comunicação social
503. A revolução
tecnológica e os processos de globalização formatam o mundo atual como
uma grande cultura
midiática. Isto envolve uma capacidade para reconhecer as novas
linguagens, que podem favorecer uma
maior humanização global. Estas novas linguagens configuram um elemento articulador das
mudanças na sociedade.
504. “Nosso século
tem sido influenciado pelos meios de comunicação social, por isso, o
primeiro anúncio, a catequese
ou o posterior aprofundamento da fé, não podem prescindir desses meios”. “Colocados a serviço
do Evangelho, eles oferecem a possibilidade de difundir quase sem
limites o campo de audição da
Palavra de Deus, fazendo chegar a Boa Nova a milhões de pessoas. A
Igreja se sentiria culpada
diante de Deus se não empregasse esses poderosos meios, que a
inteligência humana aperfeiçoa
cada vez mais. Com eles, a Igreja ‘prega sobre os telhados’ (cf. Mt. 10,
27; Lc. 12, 3) a mensagem de que é depositária. Neles, encontra uma
versão moderna e eficaz do ‘púlpito’. Graças a eles, pode falar às
multidões”. 229
505. A fim de formar
discípulos e missionários neste campo, nós, bispos reunidos na V
Conferência, comprometemo-nos a
acompanhar os comunicadores, procurando:
a) Conhecer e
valorizar esta nova cultura da comunicação.
b) Promover a
formação profissional de todos os agentes e cristãos na cultura da
comunicação;
c) Apoiar e otimizar,
por parte da Igreja, a criação de meios de comunicação social próprios,
tanto nos setores
televisivos e de rádio, como nos sites de Internet e nos meios
impressos;
d) Estar presente nos
MCS: imprensa, rádio e tv, sites de internet, fóruns e tantos outros
sistemas para introduzir neles
o mistério de Cristo.
e) Educar na formação
crítica quanto ao uso dos meios de comunicação a partir da primeira
idade;
f) Animar as
iniciativas existentes ou a serem criadas neste campo, com espírito de
comunhão.
g) Formar
comunicadores profissionais competentes e comprometidos com os valores
humano cristãos na transformação
evangélica da sociedade.
h) Promover leis para
criar nova cultura que protejam as crianças, jovens e aqueles mais
vulneráveis para que a
comunicação não transgrida os valores e, ao contrário, criem critérios
válidos de discernimento.
i) Desenvolver uma
política de comunicação capaz de ajudar tanto as pastorais de
comunicação como os meios de
comunicação de inspiração católicos a encontrar seu lugar na missão evangelizadora da
Igreja.
506. A internet,
vista dentro do panorama da comunicação social, deve ser entendida na
linha já proclamada no
Concílio Vaticano II como uma das “maravilhosas invenções da tecnologia”
230. “Para a Igreja, o novo
mundo do espaço cibernético é uma exortação à grande aventura da
utilização de seu potencial para
proclamar a mensagem evangélica. Este desafio está no centro do que
significa, no início do milênio,
seguir o mandado do Senhor, de “avançar”: Dunc in altum! (Lc. 5, 4)”.
231
507. “A Igreja se
aproxima deste novo meio com realismo e confiança. Como os outros
instrumentos de comunicação, ele é
um meio e não um fim em si mesmo. A Internet pode oferecer magníficas oportunidades de
evangelização, se usada com competência e uma clara consciência de suas
forças e fraquezas”. 232
508. Os meios de
comunicação em geral não substituem as relações pessoais nem a vida
comunitária. No entanto, os sites podem reforçar e estimular o
intercâmbio de experiências e de informações que intensifiquem a prática
religiosa através de acompanhamentos e orientações. Também na família,
cabe aos pais alertar seus filhos para o uso consciente dos conteúdos
disponíveis na Internet, de forma a complementar sua formação
educacional e moral.
509. Visto que a
exclusão digital é evidente, as paróquias, comunidades, centros
culturais e instituições
educacionais católicas poderiam ser estimuladoras da criação de pontos
de rede e de salas digitais para
promover a inclusão, desenvolvendo novas iniciativas e aproveitando, com
um olhar positivo,
aquelas que já existem. Na América Latina e no Caribe existem revistas,
jornais, sites, portais e serviços on
line de conteúdos informativos e formativos, além de orientações
religiosas e sociais diversas,
tais como “sacerdote”, “orientador espiritual”, “orientador vocacional”,
“professor”, “médico”, entre
outros. Existem inumeráveis escolas e instituições católicas que
oferecem cursos a distância de Teologia
e de cultura bíblica.
10.4 Novos lugares e
centros de decisão
510. Queremos
felicitar e incentivar a tantos discípulos e missionários de Jesus
Cristo que, com sua presença ética
coerente, continuam semeando os valores evangélicos nos ambientes onde tradicionalmente se
faz cultura e nos novos lugares: o mundo das comunicações, a construção
da paz, o
desenvolvimento e a libertação dos povos, sobretudo das minorias, a
promoção da mulher e das crianças, a
ecologia e a proteção da natureza. E “o vastíssimo lugar da cultura, da
experimentação científica, das relações internacionais” 233. Evangelizar
a cultura, longe de abandonar a opção preferencial pelos pobres e pelo
compromisso com a realidade, nasce do amor apaixonado por Cristo, que
acompanha o Povo de Deus na missão de inculturar o Evangelho na
história, ardente e infatigável em sua caridade humana.
511. Uma tarefa de
grande importância é a formação de pensadores e pessoas que estejam nos níveis de decisão.
Para isso, devemos empregar esforço e criatividade na evangelização de
empresários, políticos e formadores de opinião no mundo do trabalho,
dirigentes sindicais, cooperativos e comunitários.
512. Na cultura
atual, estão se abrindo novos campos missionários e pastorais que se
abrem. Um deles é, sem dúvida,
a pastoral do turismo e do entretenimento, que tem um campo imenso de realização nos
clubes, nos esportes, no cinema, centros comerciais e outras opções que
diariamente chamam a atenção e
pedem para ser evangelizados.
513. Diante da falsa
visão de uma incompatibilidade entre fé e ciência tão difundida em
nossos dias, a Igreja proclama que
a fé não é irracional. “Fé e razão são duas asas pelas quais o espírito
humano se eleva na
contemplação da verdade”234. Por isto, valorizamos a tantos homens e
mulheres de fé e ciência, que
aprenderam a ver na beleza da natureza os sinais do Mistério, do amor e
da bondade de Deus, e são sinais
luminosos que ajudam a compreender que o livro da natureza e da Sagrada Escritura falam do
mesmo Verbo que se fez carne.
514. Queremos
valorizar sempre mais os espaços de diálogo entre fé e ciência,
inclusive nos meios de comunicação. Uma
forma de fazê-lo é através da difusão da reflexão e da obra dos grandes pensadores católicos,
especialmente do século XX, como referências para a justa compreensão da ciência.
515. Deus não é só a
suma Verdade. Ele é também a suma Bondade e a suprema Beleza. Por isso,
“a sociedade tem a
necessidade de artistas da mesma maneira que necessita de cientistas,
técnicos, trabalhadores,
especialistas, testemunhas da fé, professores, pais e mães, que garantam
o crescimento da pessoa e o progresso da comunidade, através daquela
forma sublime de arte que é a “arte de educar”. 235
516. É necessário
comunicar os valores evangélicos de maneira positiva e propositiva. São
muitos os que se dizem
descontentes, não tanto com o conteúdo da doutrina da Igreja, mas com a
forma como ela é apresentada.
Para isso, na elaboração de nossos Planos Pastorais queremos:
a) Favorecer a
formação de um laicato capaz de atuar como verdadeiro sujeito eclesial e
competente interlocutor entre a
Igreja e a sociedade e entre a sociedade e a Igreja;
b) Otimizar o uso dos
meios de comunicação católicos, fazendo-os mais atuantes e eficazes,
seja para a comunicação da fé,
seja para o diálogo entre a Igreja e a sociedade;
c) Atuar com os
artistas, esportistas, profissionais da moda, jornalistas, comunicadores
e apresentadores, assim
como com os produtores de informação nos meios de comunicação, com os intelectuais,
professores, líderes comunitários e religiosos;
d) Resgatar o papel
do sacerdote como formador de opinião.
517. Aproveitando as
experiências dos Centros de Fé e Cultura ou Centros Culturais Católicos, trataremos de criar
ou dinamizar os grupos de diálogo entre a Igreja e os formadores de
opinião dos diversos campos.
Convocamos nossas Universidades Católicas para que sejam cada vez mais
lugar de produção e irradiação do diálogo entre fé e razão e do
pensamento católico.
518. Cabe também às
Igrejas da América Latina e do Caribe criar oportunidades para a
utilização da arte na catequese de
crianças, adolescentes e adultos, assim como nas diferentes pastorais da
Igreja. É necessário também
que as ações da Igreja nesse campo sejam acompanhadas por um melhora técnica e
profissional exigida pela própria expressão artística. Por outro lado, é
também necessária a formação de uma
consciência crítica que permita julgar com critérios objetivos a
qualidade artística do que realizamos.
519. É fundamental
que as celebrações litúrgicas incorporem em suas manifestações elementos artísticos que possam
transformar e preparar a assembléia para o encontro com Cristo. A
valorização dos espaços de
cultura existente, onde se incluem os próprios templos, é uma tarefa
essencial para a evangelização pela
cultura. Nessa linha, também se deve incentivar a criação de centros
culturais católicos,
necessários especialmente nas áreas mais carentes onde o acesso à
cultura é mais urgente e melhora o sentido
do humano.
10.5 Discípulos e
missionários na vida pública
520. Os discípulos e
missionários de Cristo devem iluminar com a luz do Evangelho todos os
espaços da vida social. A
opção preferencial pelos pobres, de raiz evangélica, exige uma atenção
pastoral atenta aos
construtores da sociedade. Se muitas das estruturas atuais geram
pobreza, em parte é devido à falta de
fidelidade a compromissos evangélicos de muitos cristãos com especiais responsabilidades
políticas, econômicas e culturais.
521. A realidade
atual de nosso continente manifesta que existe “uma notável ausência no
âmbito político,
comunicativo e universitário, de vozes e iniciativas de líderes
católicos de forte personalidade e de vocação abnegada que sejam
coerentes com suas convicções éticas e religiosas”. 236
522. Entre os sinais
de preocupação, destaca-se, como uma das mais relevantes a concepção que
se tem formado do ser
humano, homem e mulher. Agressões à vida, em todas as suas instâncias,
em especial contra os
mais inocentes e fracos, pobreza aguda e exclusão social, corrupção e
relativismo ético, entre outros
aspectos, tem como referência um ser humano, na prática, fechado a Deus
e ao outro.
523. Os fortes
poderes, animados ou por um antigo laicismo exacerbado, ou por um
relativismo ético que se propõe como
fundamento da democracia, pretende refutar toda presença e contribuição
da Igreja na vida
pública das nações e a pressionam para que se retire para os templos e
para seus serviços
“religiosos”. Consciente da distinção entre a comunidade política e
comunidade religiosa, base de sã laicidade,
a Igreja não deixará de se preocupar pelo bem comum dos povos e, em
especial, pela defesa de princípios éticos não negociáveis porque estão
arraigados na natureza humana.
524. São os leigos de
nosso continente, conscientes de sua chamada à santidade em virtude de
sua vocação batismal, que
têm de atuar à maneira de um fermento na massa para construir uma cidade temporal que esteja
de acordo com o projeto de Deus. A coerência entre fé e vida no âmbito
político, econômico e social
exige a formação da consciência, que se traduz em um conhecimento da
Doutrina Social da Igreja.
Para uma adequada formação na mesma, será de muita utilidade o Compêndio
da Doutrina Social da
Igreja. A V Conferência se compromete a levar a cabo uma catequese
social incisiva, porque “a
vida cristã não se expressa somente nas virtudes pessoais, mas também
nas virtudes sociais e
políticas”. 237
525. O discípulo e
missionário de Cristo que trabalha nos âmbitos da política, da economia
e nos centros de decisões
sofre a influência de uma cultura frequentemente dominada pelo
materialismo, pelos interesses
egoístas e por uma concepção do homem contrária à visão cristã. Por
isso, é imprescindível que o
discípulo se fundamente no seguimento do Senhor que concede a ele a
força necessária, não só
para não sucumbir diante das insídias do materialismo e do egoísmo, mas
para construir ao redor
dele um consenso moral sobre os valores fundamentais que tornam possível
a construção de uma
sociedade justa.
526. Pensemos em quão
necessário seria a integridade moral nos políticos. Muitos dos países
latinoamericanos, mas também em outros continentes vivem na miséria, por
problemas endêmicos de corrupção. Quanta
disciplina de integridade moral necessitamos, entendendo essa disciplina
no sentido cristão do
auto-domínio para fazer o bem, para ser servidor da verdade e do
desenvolvimento de nossas tarefas sem nos deixar corromper por favores,
interesses e vantagens. É necessário muita força e muita perseverança
para conservar esta honestidade que deve surgir de uma nova educação que
rompa o círculo vicioso desta tradição de corrupção que reina absoluta.
Realmente necessitamos de muito esforço para avançar na criação de uma
verdadeira riqueza moral que nos permita pré-ver nosso próprio futuro.
527. Nós, bispos
reunidos na V Conferência, queremos acompanhar os construtores da
sociedade. Nesse setor,
corresponde à Igreja e é a vocação fundamental formar as consciências,
ser advogada da justiça e da
verdade, educar nas virtudes individuais e políticas 238. Queremos
chamar ao sentido de responsabilidade
dos leigos para que estejam presentes na vida pública e mais
concretamente “na formação dos consensos necessários e na oposição
contra a injustiça”. 239
10.6 A Pastoral
Urbana
528. O cristão de
hoje não se encontra mais na linha de frente da produção cultural, mas
recebe sua influência e seus
impactos. As grandes cidades são laboratórios dessa cultura
contemporânea complexa e plural.
529. A cidade se
converteu no lugar próprio das novas culturas que estão sendo geradas e
se impondo, com uma nova linguagem e uma nova simbologia. Esta
mentalidade urbana se difunde, também, no próprio mundo rural.
Definitivamente, a cidade procura harmonizar a necessidade de
desenvolvimento com o desenvolvimento das necessidades, fracassando
normalmente neste propósito.
530. No mundo urbano
acontecem complexas transformações sócio-econômicas, culturais,
políticas e religiosas que
fazem impacto em todas as dimensões da vida. É composto de cidades
satélites e de bairros periféricos.
531. Na cidade
convivem diferentes categorias sociais tais como as elites econômicas,
sociais e políticas; a classe
média com seus diferentes níveis e a grande multidão dos pobres. Nela,
coexistem binômios que a
desafiam cotidianamente: tradição e modernidade; globalidade e
particularidade; inclusão e exclusão;
personalização e despersonalização; linguagem secular e linguagem
religiosa; homogeneidade e
pluralidade, cultura urbana e pluri-multiculturalismo.
532. A Igreja em seu
início se formou nas grandes cidades de seu tempo e se serviu delas para
se propagar. Por isso,
podemos realizar com alegria e coragem a evangelização da cidade atual.
Diante da nova realidade
novas experiências se realizam na Igreja, tais como a renovação das
paróquias, setorização, novos
ministérios, novas associações, grupos, comunidades e movimentos. Mas se percebem atitudes de
medo em relação à pastoral urbana; tendência a se fechar nos métodos antigos e de tomar
uma atitude de defesa diante da nova cultura, com sentimentos de
impotência diante das grandes
dificuldades das cidades.
533. A fé nos ensina
que Deus vive na cidade, em meio as suas alegrias, desejos e esperanças,
com também em meio as
suas dores e sofrimentos. As sombras que marcam o cotidiano das cidades, como exemplo, a
violência, pobreza, individualismo e exclusão, não podem nos impedir de
buscar e contemplar ao Deus da
vida também nos ambientes urbanos. As cidades são lugares de liberdade e de oportunidade.
Nelas, as pessoas tem a possibilidade de conhecer mais pessoas,
interagir e conviver com elas.
Nas cidades é possível experimentar vínculos de fraternidade,
solidariedade e universalidade.
Nelas, o ser humano é constantemente chamado a caminhar sempre mais ao encontro do outro,
conviver com o diferente, aceitá-lo e ser aceito por ele.
534. O projeto de
Deus é “a Cidade Santa, a nova Jerusalém”, que desce do céu, de junto a
Deus, “vestida como uma
noiva que se adorna para seu esposo”, que é “a tenda que Deus instalou
entre os homens. Acampará com
eles; eles serão seu povo e o próprio Deus estará com eles. Enxugará as lágrimas de seus
olhos e não haverá morte nem luto, nem pranto, nem dor, porque tudo o
que é antigo terá
desaparecido” (Ap. 21, 2-4). Este projeto em sua plenitude é futuro, mas
já está se realizando em Jesus
Cristo, “o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim” (Ap. 21, 6), que nos diz
“Eu faço novas todas as
coisas” (Ap. 21, 5).
535. A Igreja está a
serviço da realização desta Cidade Santa, através da proclamação e da
vivência da Palavra, da celebração da Liturgia, da comunhão fraterna e
do serviço, especialmente aos mais pobres e aos que mais
sofrem e, dessa forma, através de Cristo como fermento do Reino vai transformando a
cidade atual.
536. Reconhecendo e
agradecendo o trabalho renovador que já se realiza em muitos centros urbanos, a V
Conferência propõe e recomenda uma nova pastoral urbana que:
a) Responda aos
grandes desafios da crescente urbanização;
b) Seja capaz de
atender às variadas e complexas categorias sociais, econômicas,
políticas e culturais: elites, classe média
e pobres;
c) Desenvolva uma
espiritualidade da gratidão, da misericórdia, da solidariedade fraterna,
atitudes próprias de quem ama
desinteressadamente e sem pedir recompensa;
d) Abra-se a novas
experiências, estilos e linguagens que possam encarnar o Evangelho na
cidade;
e) Transforme as
paróquias cada vez mais em comunidades de comunidades;
f) Aposte mais
intensamente na experiência de comunidades ambientais, integradas em
nível supraparoquial e diocesano;
g) Integre os
elementos próprios da vida cristã: a Palavra, a Liturgia, a comunhão
fraterna e o serviço, especialmente aos que
sofrem pobreza econômica e novas formas de pobreza;
h) Difunda a Palavra
de Deus, anuncie-a com alegria e ousadia e realize a formação dos leigos
de tal modo que possam
responder as grandes perguntas e aspirações de hoje e se inseriram nos
diferentes ambientes, estruturas e centros de decisão da vida urbana;
i) Fomente a Pastoral
da acolhida aos que chegam à cidade e aos que já vivem nela, passando de
um passivo esperar a um
ativo buscar e chegar aos que estão longe com novas estratégias tais
como visitas às casas, o
uso dos novos meios de comunicação social e a constante proximidade ao
que constitui para cada
pessoa a sua cotidianidade;
j) Ofereça atenção
especial ao mundo do sofrimento urbano, isto é, que cuide dos caídos ao
longo do caminho e dos que se
encontram nos hospitais, encarcerados, excluídos, dependentes das
drogas, habitantes das novas
periferias, nas novas urbanizações e das famílias que, desintegradas,
convivem de fato;
k) Procure a presença
da Igreja, por meio de novas paróquias e capelas, comunidades cristãs e
centros de pastoral, nas novas concentrações humanas que crescem
aceleradamente nas periferias urbanas das grandes
cidades devido às migrações internas e situações de exclusão.
537. Para que os
habitantes dos centros urbanos e de suas periferias, cristãos ou não
cristãos possam encontrar em Cristo a plenitude de vida, sentimos a
urgência de que os agentes de pastoral, enquanto discípulos e
missionários, esforcem-se em desenvolver:
a) Um estilo pastoral
adequado à realidade urbana com atenção especial a linguagem, às
estruturas e práticas pastorais
assim como aos horários;
b) Um plano de
pastoral orgânico e articulado que se integre a um projeto comum às
Paróquias, comunidades de vida
consagrada, pequenas comunidades, movimentos e instituições que incidem
na cidade, e que seu
objetivo seja chegar ao conjunto da cidade. Nos casos de grandes cidades
nas quais existem várias Dioceses, faz-se necessário um plano
inter-diocesano;
c) Uma setorização
das Paróquias em unidade menores que permitam a proximidade e um serviço mais eficaz;
d) Um processo de
iniciação cristã e de formação permanente que retroalimente a fé dos
discípulos do Senhor integrando
o conhecimento, o sentimento e o comportamento;
e) Serviços de
atenção, acolhida pessoal, direção espiritual e do sacramento da
reconciliação, respondendo á
sociedade, ás grandes feridas psicológicas que sofrem muitos nas
cidades, levando em consideração as
relações inter-pessoais;
f) Uma atenção
especializada aos leigos em suas diferentes categorias profissionais,
empresariais e trabalhadores;
g) Processos graduais
de formação cristã com a realização de grandes eventos de multidões, que mobilizem a cidade,
que façam sentir que a cidade é um conjunto, que é um todo, que saibam responder á
afetividade de seus cidadãos e, em uma linguagem simbólica, saibam
transmitir o Evangelho a todos e a
todas que vivem na cidade;
h) Estratégias para
chegar aos lugares fechados das cidades como grandes aglomerados de
casas, condomínios, prédios
residenciais ou nas favelas;
i) Uma presença
profética que saiba levantar a voz em relação a questões de valores e
princípios do Reino de Deus, ainda
que contradiga todas as opiniões, provoque ataques e se fique só no
anúncio. Isto é, que seja
farol, cidades colocada no alto para iluminar;
j) Uma maior presença
nos centros de decisão da cidade, tanto nas estruturas administrativas
como nas organizações
comunitárias, profissionais e de todo tipo de associação para velar pelo
bem comum e promover os
valores do Reino;
k) A formação e
acompanhamento de leigos e leigas que, influindo nos centros de opinião, organizem-se entre si
e possam ser assessores para toda a ação social;
l) Uma pastoral que
leve em consideração a beleza no anúncio da Palavra e nas diversas
iniciativas, ajudando a descobrir
a plena beleza que é Deus;
m) Serviços especiais
que respondam às diferentes atividades da cidade: trabalho, descanso,
esportes, turismo, arte...
n) Uma
descentralização dos serviços eclesiais de modo que sejam muito mais os
agentes de pastoral que se integrem a
esta missão, levando em consideração as categorias profissionais;
o) Uma formação
pastoral dos futuros presbíteros e agentes de pastoral capaz de
responder aos novos desafios da
cultura urbana.
538. No entanto, tudo
o que foi dito anteriormente não tira a importância, de uma renovada
pastoral rural que fortaleça
os habitantes do campo e seu desenvolvimento econômico e rural,
neutralizando as migrações. Deve-se
anunciar a eles a Boa Nova para que enriqueçam suas próprias culturas e
as relações comunitárias
e sociais.
10.7 A serviço da
unidade e da fraternidade de nossos povos
539. Na nova situação
cultural afirmamos que o projeto do Reino está presente e é possível, e
por isso aspiramos a uma América Latina e Caribe unidos, reconciliados e
integrados. Esta casa comum é habitada por uma complexa mestiçagem e uma
pluralidade étnica e cultural, “na qual o Evangelho tem se transformado
(...) no elemento chave de uma síntese dinâmica que, com cores diversas
segundo as nações, expressa de todas as formas a identidade dos povos
latino-americanos”. 240
540. Os desafios que
enfrentamos hoje na América Latina e no mundo tem uma característica
peculiar. Eles não afetam a todos os nossos povos de maneira similar mas
que, para ser enfrentados, requerem uma compreensão global e uma ação
conjunta. Cremos que “um fator que pode contribuir notavelmente para
superar os urgentes problemas que hoje afetam este continente é a
integração latino-americana”. 241
541. De um lado,
vai-se configurando uma realidade global que torna possível novos modos
de conhecer, aprender e se comunicar, que nos coloca em contato diário
com a diversidade de nosso mundo e cria
possibilidades para uma união e solidariedade mais estreitas em níveis
regionais e em nível mundial. De
outro lado, geram-se novas formas de empobrecimento, exclusão e
injustiça. O continente da
esperança deve conseguir sua integração sobre os fundamentos da vida, do
amor e da paz.
542. Reconhecemos uma
profunda vocação à unidade no “coração” de cada homem, por terem todos a
mesma origem e Pai, por levarem em si a imagem e semelhança do próprio
Deus em sua comunhão trinitária (cf. Gn. 1, 26). A Igreja se reconhece nos
ensinos do Concílio Vaticano II como “sacramento de unidade do gênero
humano”, consciente da vitória pascal de Cristo, mas vivendo no mundo
que está ainda sob o poder do pecado, com sua seqüela de contradições,
dominações e morte. A partir desta leitura cristã da história,
percebe-se a ambigüidade do atual processo de globalização.
543. A Igreja de Deus
na América latina e no Caribe é sacramento de comunhão de seus povos. É morada de seus povos;
é casa dos pobres de Deus. Convoca e congrega todas as suas diferentes pessoas em seu
mistério de comunhão, sem discriminações nem exclusões por motivo de
sexo, raça, condição social e
identidade nacional. Quanto mais a Igreja reflete, vive e comunica este
dom de inaudita unidade, que
encontra na comunhão trinitária sua fonte, modelo e destino, parece mais significativo e
incisivo seu operar como sujeito de reconciliação e comunhão na vida de
nossos povos. Maria Santíssima é a
presença materna indispensável e decisiva na gestação de um povo de
filhos e irmãos, de discípulos
e missionários de seu Filho.
544. A dignidade de
nos reconhecer como uma família de latino-americanos e caribenhos
envolve uma experiência
singular de proximidade, fraternidade e solidariedade. Não somos um mero continente, apenas um
fato geográfico com um mosaico incomponível de conteúdos. Muito menos somos uma soma de
povos e de etnias que se justapõem. Uma e plural, a América Latina é a
casa comum, a grande
pátria de irmãos e – como afirmou S.S. João Paulo II em Santo Domingo
242 – “de alguns povos a quem a
mesma geografia, a fé cristã, a língua e a cultura uniram
definitivamente no caminho da história”.
É, pois, uma unidade que está muito longe de se reduzir a uniformidade,
mas que se enriquece com
muitas diversidades locais, nacionais e culturais.
545. A III
Conferência Geral do Episcopado Latino-americano já se propunha a
“retomar com renovado vigor a evangelização da cultura de nossos povos e
dos diversos grupos étnicos” para que “a fé evangélica, como base de
comunhão, projete-se no sentido de formar uma integração justa nos
quadros respectivos de uma nacionalidade, de uma grande pátria
latino-americana (...)”243. A IV Conferência em Santo
Domingo voltava a propor “o permanente rejuvenescimento do ideal de
nossos próceres sobre a Pátria Grande”. A V Conferência em Aparecida
expressa sua firme vontade de prosseguir nesse compromisso.
546. Não há,
certamente, outra região que conte com tantos fatores de unidade como a
América latina – dos quais a vigência da tradição católica é o cimento
fundamental de sua construção – mas trata-se de uma unidade
comprometida, porque é atravessada por profundas dominações e
contradições, e é incapaz de incorporar a si “todos os sangues” e de
superar a brecha de estridentes desigualdades e marginalizações. Nossa
pátria é grande, mas será realmente “grande” quando a for para todos,
com maior justiça. Na verdade, é uma contradição dolorosa que o
continente com o maior número de católicos seja também o de maior
iniqüidade social.
547. Nos últimos 20
anos apreciamos os avanços significativos e promissores nos processos e sistemas de
integração de nossos países. As relações comerciais e políticas tem se
intensificado. Uma comunicação e
solidariedade muito estreita entre o Brasil e os países
hispano-americanos e os caribenhos é nova. Há
graves bloqueios que travam esses processos. Uma mera integração
comercial é frágil e ambígua.
Também é frágil e ambígua quando essa integração se reduz a questão de
cúpulas políticas e
econômicas e não se fundamenta na vida e na participação dos povos. Os
atrasos na integração tendem a
aprofundar a pobreza e as desigualdades, enquanto as redes de
narcotráfico se integram mais das
fronteiras. Não obstante que a linguagem política abunde sobre a
integração, a dialética da
contraposição parece prevalecer sobre o dinamismo da solidariedade e
amizade. A unidade não se constrói pela contraposição a inimigos comuns,
mas pela realização de uma identidade comum.
10.8 A integração dos
indígenas e afro-descendentes
548. Como discípulos
de Jesus Cristo, encarnado na vida de todos os povos descobrimos e
reconhecemos a partir da fé as “sementes do Verbo”244 presentes nas
tradições e culturas dos povos indígenas da América Latina. Deles
valorizamos seu profundo apreço comunitário pela vida, presente em toda
a criação, na existência cotidiana e na milenária experiência religiosa,
que dinamiza suas culturas, e que chega a sua plenitude na revelação do
verdadeiro rosto de Deus por Jesus Cristo.
549. Como discípulos
e missionários a serviço da vida, , acompanhamos os povos indígenas e originários no
fortalecimento de suas identidades e organizações próprias, na defesa do
território e em uma educação
intercultural bilíngüe e na defesa de seus direitos. Comprometemo-nos
também a criar consciência na
sociedade a respeito da realidade indígena e seus valores, através dos
meios de comunicação social e
outros espaços de opinião. A partir dos princípios do Evangelho,
apoiamos a denúncia de atitudes
contrárias à vida plena em nossos povos de origem e nos comprometemos a prosseguir na obra de
evangelização dos indígenas, assim como a procurar as aprendizagens educativas e de
trabalho com as transformações culturais que isso implica.
550. A Igreja está
atenta diante das tentativas de desarraigar a fé católica das
comunidades indígenas; com isso elas ficariam em situação de falta de
defesa e de confusão frente aos embates das ideologias e de alguns
grupos alienantes, e isso atentaria contra o bem das mesmas comunidades.
551. O seguimento de
Jesus no Continente passa também pelo reconhecimento dos
afro-descendentes como um desafio que nos desafia para viver o
verdadeiro amor a Deus e ao próximo. Ser discípulos e
missionários significa assumir a atitude de compaixão e cuidado do Pai,
que se manifesta na ação
libertadora de Jesus. “A Igreja defende os autênticos valores culturais
de todos os povos, especialmente
dos oprimidos, indefesos e marginalizados, diante da força dominadora
das estruturas de pecado
manifestas na sociedade moderna”245. Conhecer os valores culturais, a história e as
tradições dos afro-descendentes, entrar em diálogo fraterno e respeitoso
com eles, é um passo importante
na missão evangelizadora da Igreja. Acompanha-nos nele o testemunho de
São Pedro Claver.
552. Por isto, a
Igreja denuncia a prática da discriminação e do racismo em suas
diferentes expressões, pois ofende no mais profundo a dignidade humana
criada a “imagem e semelhança de Deus”. Preocupa-nos que poucos
afro-descendentes cheguem à educação superior, sem a qual se torna mais
difícil seu acesso às esferas de decisão na sociedade. Em sua missão de
advogada da justiça e dos pobres a Igreja se faz solidária aos
afro-descendentes nas reivindicações pela defesa de seus territórios, na
afirmação de seus direitos, na cidadania, nos projetos próprios de
desenvolvimento e consciência de negritude. A Igreja apóia o diálogo
entre cultura negra e fé cristã e suas lutas pela justiça social, e
incentiva a participação ativa dos afro-descendentes nas ações pastorais
de nossas Igrejas e do CELAM.
10.9 Caminhos de
reconciliação e solidariedade
553. A Igreja precisa
animar cada povo a transformar sua pátria numa casa de irmãos onde todos tenham uma casa para
viver e conviver com dignidade. Essa vocação requer a alegria de querer
ser e fazer uma nação, um
projeto histórico sugestivo de vida em comum. A Igreja precisa educar e
conduzir cada vez mais à reconciliação com Deus e com os irmãos. Precisa
somar e não dividir. Importa cicatrizar as feridas, evitar maniqueísmos,
perigosas exasperações e polarizações. Os dinamismos de integração
digna, justa e eqüitativa no interior de cada um dos países favorece a
integração regional e, ao mesmo tempo, é incentivada por ela.
554. É necessário
educar e favorecer nossos povos em todos os gestos, obras e caminhos de reconciliação e de
amizade social, de cooperação e de integração. A comunhão alcançada no
sangue reconciliador de
Cristo nos dá a força para sermos construtores de pontes, anunciadores
da verdade, bálsamos para as
feridas. A reconciliação está no coração da vida cristã. Ela é
iniciativa própria de Deus em busca de
nossa amizade, que comporta consigo a necessária reconciliação com o
irmão. Trata-se de uma
reconciliação da qual necessitamos nos diversos âmbitos e em todos e
entre todos os países. Esta
reconciliação fraterna pressupõe a reconciliação com Deus, fonte única
de graça e de perdão, que alcança
sua expressão e realização no sacramento da penitência que Deus nos
concede através da Igreja.
555. No coração e na
vida de nossos povos pulsa um forte sentido de esperança, não obstante
as condições de vida que
parecem ofuscar toda esperança. Ela se experimenta e se alimenta no
presente, graças aos dons e sinais de vida nova que se compartilha;
compromete-se na construção de um futuro de maior dignidade e justiça e
aspira “os novos céus e nova terra” que Deus nos prometeu em sua morada
eterna.
556. A América Latina
e o Caribe não devem ser só o continente da esperança. Além disso, devem também abrir caminhos
para a civilização do amor. Assim se expressou o Papa Bento XVI no
santuário mariano de Aparecida 246: para que nossa casa comum seja um
continente da esperança e do amor há que se ir, como bons samaritanos ao
encontro das necessidades dos pobres e dos que sofrem e criar “as
estruturas justas que são uma condição sem a qual não é possível uma
ordem justa na sociedade...” Estas estruturas, continua o Papa, “não
nascem nem funcionam sem um consenso moral da sociedade sobre os valores
fundamentais e sobre a necessidade de viver estes valores com as
necessárias renúncias, inclusive contra o interesse pessoal”, e “onde
Deus está ausente (...) estes valores não se
mostram com toda sua força nem se produz um consenso sobre eles” 247.
Este consenso moral e mudança de estruturas importam para diminuir a
dolorosa iniqüidade que hoje existe em nosso continente, entre outras
coisas através de políticas públicas e gastos sociais bem orientados,
assim como do controle de lucros desproporcionais de grandes empresas. A
Igreja estimula e propicia o exercício de uma “imaginação da caridade”
que permita soluções eficazes.
557. Todas as
autênticas transformações se forjam no coração das pessoas e se irradiam
em todas as dimensões de sua
existência e convivência. Não há novas estruturas se não há homens novos
e mulheres novas que
mobilizem e façam convergir nos povos ideais e poderosas energias morais
e religiosas. Formando
discípulos e missionários, a Igreja dá resposta a esta exigência.
558. A Igreja
estimula e favorece a reconstrução da pessoa e de seus vínculos de
pertencimento e convivência, a partir
de um dinamismo de amizade, gratuidade e comunhão. Deste modo,
neutralizam-se os processos de desintegração e atomização sociais. Para
isso, é necessário aplicar o princípio da subsidiariedade em todos os
níveis e estruturas da organização social. Na verdade, o Estado e o
mercado não satisfazem nem podem satisfazer todas as necessidades
humanas. Cabe, portanto, apreciar e estimular os voluntariados sociais,
as diversas formas de livre auto-organização e participação populares e
as obras de caridade, educativas, hospitalares, de cooperação no
trabalho e outras promovidas
pela Igreja, que respondem adequadamente a estas necessidades.
559. Os discípulos e
missionários de Cristo promovem uma cultura do compartilhar em todos os
níveis, em contraposição à cultura dominante de acumulação egoísta,
assumindo com seriedade a virtude da pobreza como estilo de vida sóbrio
para ir ao encontro e ajudar as necessidades dos irmãos que vivem na
indigência.
560. Compete também à
Igreja colaborar na consolidação das frágeis democracias, no positivo processo de
democratização na América latina, ainda que existam atualmente graves
desafios e ameaças de desvios
autoritários. Urge educar para a paz, dar seriedade e credibilidade à continuidade de
nossas instituições civis, defender e promover os direitos humanos,
proteger em especial a liberdade
religiosa e cooperar para despertar os maiores consensos nacionais.
561. A paz é um bem
valioso, mas precário que todos devemos cuidar, educar e promover em
nosso continente. Como
sabemos, a paz não se reduz à ausência de guerras, nem à exclusão de
armas nucleares em nosso
espaço comum. Estas são conquistas já significativas, mas devemos
promover a geração de uma
“cultura de paz” que seja fruto de um desenvolvimento sustentável,
eqüitativo e respeitoso da criação
(“o desenvolvimento é o novo nome da paz” dizia Paulo VI) e que nos
permita enfrentar
conjuntamente os ataques do narcotráfico e do consumo de drogas, do
terrorismo e das muitas formas de
violência que hoje imperam em nossa sociedade. A Igreja, sacramento de
reconciliação e de paz, deseja que os discípulos e missionários de
Cristo sejam também, ali mesmo onde se encontrem,
“construtores de paz” entre os povos e nações de nosso continente. A
Igreja é chamada a ser uma
escola permanente de verdade e de justiça, de perdão e de reconciliação
para construir uma paz
autêntica.
562. Uma autêntica
evangelização de nossos povos envolve assumir plenamente a radicalidade
do amor cristão, que se
concretiza no seguimento de Cristo na Cruz; no padecer por Cristo por
causa da justiça; no perdão e
no amor aos inimigos. Este amor supera o amor humano e participa no amor divino, único eixo
cultural capaz de construir uma cultura da vida. No Deus Trindade a
diversidade de Pessoas não gera
violência e conflito, mas é a mesma fonte de amor e da vida. Uma
evangelização que coloca a Redenção
no centro, nascida de um amor crucificado, é capaz de purificar as
estruturas da sociedade violenta
e gerar novas estruturas. A radicalidade da violência só se resolve com
a radicalidade do amor
redentor. Evangelizar sobre o amor de plena doação como solução ao
conflito deve ser o eixo
cultural “radical” de uma nova sociedade. Só assim o Continente da
Esperança pode chegar a se tornar
verdadeiramente o Continente do amor.
563. Reafirmamos a
importância do CELAM e reconhecemos que tem sido uma instância profética pela unidade dos
povos latino-americanos e do Caribe e tem demonstrado a viabilidade de
sua cooperação e
solidariedade a partir da comunhão eclesial. Por isso nos comprometemos
a continuar fortalecendo seu
serviço na colaboração colegial dos Bispos e no caminho de realização da
identidade eclesial latino-americana. Convidamos aos Episcopados de
países envolvidos nos diferentes sistemas de integração sub-regionais,
incluindo o da bacia Amazônica, a fortalecer vínculos de reflexão e de
cooperação. Também estimulamos que continue o fortalecimento de vínculos
para a relação entre o Episcopado latino-americano e os Episcopados dos
Estados Unidos e Canadá à luz da “Ecclesia in América”, assim como com
os Episcopados europeus.
564. Conscientes de
que a missão evangelizadora não pode seguir separada da solidariedade
com os pobres e sua promoção
integral, e sabendo que existem comunidades eclesiais que carecem dos
meios necessários, é imperativo ajudá-las, imitando as primeiras
comunidades cristãs, para que, de verdade, se sintam
amadas. É imperativo, portanto, a criação de um fundo de solidariedade
entre as Igrejas da América
Latina e do Caribe que esteja a serviço das iniciativas pastorais
próprias.
565. Ao enfrentar tão
graves desafios nos estimulam as palavras do Santo padre: “Não há dúvida
de que as condições para
estabelecer uma paz verdadeira são a restauração da justiça, da
reconciliação e do perdão. Desta
conscientização, nasce a vontade de transformar também as estruturas
injustas para estabelecer o
respeito da dignidade do homem, criado à imagem e semelhança de Deus...
Como tive a ocasião de
afirmar, a Igreja não tem como tarefa própria empreender uma batalha
política, no entanto, também não
pode, nem deve ficar à margem da luta pela justiça”.248
CONCLUSÃO
566. “Pareceu bem ao
Espírito Santo e a nós...” (At. 15, 28). A experiência da comunidade
apostólica primitiva mostra a
própria natureza da Igreja enquanto mistério de comunhão com Cristo no
Espírito Santo. S.S. Bento XVI
nos indicou este “método” original em sua homilia em Aparecida. Ao
concluir a V Conferência Geral
do Episcopado Latino-americana e do Caribe constatamos que isto é, pela
graça de Deus, o que temos
experimentado. Em 20 jornadas de intensa oração, intercâmbios e
reflexão, dedicação e cansaço,
nossa solicitude pastoral tomou forma no documento final, que foi
adquirindo
cada vez maior
densidade e maturidade. O Espírito de Deus foi nos conduzindo, suave mas firmemente, para a
meta.
567. Esta V Conferência, recordando o mandato de ir e fazer discípulos
(cf. Mt. 28, 20), deseja despertar a Igreja na
América Latina e no Caribe para um grande impulso missionário. Não
podemos deixar de aproveitar
esta hora de graça. Necessitamos de um novo Pentecostes! Necessitamos
sair ao encontro das
pessoas, das famílias, das comunidades e dos povos para lhes comunicar e
compartilhar o dom do encontro com Cristo, que tem preenchido nossas
vidas de “sentido”, de verdade e de amor, de alegria e de esperança! Não
podemos ficar tranqüilos em espera passiva em nossos templos, mas é
imperativo ir em todas as direções para proclamar que o mal e a morte
não tem a última palavra, que o amor é mais forte, que fomos libertos e
salvos pela vitória pascal do Senhor da história, que Ele nos convoca na
Igreja, e quer multiplicar o número de seus discípulos na construção de
seu Reino na América Latina! Somos testemunhas e missionários: nas
grandes cidades e nos campos, nas montanhas e florestas de nossa
América, em todos os ambientes da convivência social, nos mais diversos
“lugares” da vida pública das nações, nas situações extremas da
existência, assumindo “ad gentes” nossa solicitude pela missão universal
da Igreja.
568. Para nos
converter em uma Igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora, temos
que ser de novo evangelizados e
fiéis discípulos. Conscientes de nossa responsabilidade pelos batizados
que deixaram essa graça
de participação no mistério pascal e de incorporação no Corpo de Cristo
sob uma capa de
indiferença e esquecimento, é necessário cuidar do tesouro da piedade
católica de nossos povos para que nela resplandeça cada vez mais “a
pérola preciosa” que é Jesus Cristo e seja sempre novamente
evangelizada na fé da Igreja e por sua vida sacramental. É preciso
fortalecer a fé “para encarar sérios
desafios, pois estão em jogo o desenvolvimento harmônico da sociedade e
da identidade católica
de seus povos”249. Não temos de dar nada por pressuposto e descontado.
Todos os batizados são
chamados a “recomeçar a partir de Cristo”, a reconhecer e seguir sua
Presença com a mesma realidade e
novidade, o mesmo poder de afeto, persuasão e esperança, que teve seu encontro com os
primeiros discípulos nas margens do Jordão, há 2000 anos, e com os “João
Diego” do Novo Mundo. Só
graças a esse encontro e seguimento, que se converte em familiaridade e
comunhão, transbordante de gratidão e alegria, somos resgatados de nossa
consciência isolada e saímos para comunicar
a todos a vida verdadeira, a felicidade e a esperança que nos tem sido
dada a experimentar e nos
alegrar.
569. É o próprio Papa
Bento XVI, quem nos convida a “uma missão evangelizadora que convoque todas as forças vivas
deste imenso rebanho” que é povo de Deus na América Latina: “sacerdotes, religiosos,
religiosas e leigos que se doam, muitas vezes com imensas dificuldades,
para a difusão da verdade evangélica”.
É um afã e anúncio missionários que precisa passar de pessoa a pessoa,
de casa em casa, de comunidade a comunidade. “Neste esforço
evangelizador – prossegue o Santo padre – a comunidade eclesial se
destaca pelas iniciativas pastorais, ao enviar, sobretudo entre as casas
das periferias urbanas e do interior, seus missionários, leigos e
religiosos, procurando dialogar com todos em espírito de compreensão e
de delicada caridade”. Essa missão evangelizadora abraça com o amor de
Deus a todos e especialmente aos pobres e aos que sofrem. Por isso, não
pode se separar da solidariedade com os necessitados e de sua promoção
humana integral: “Mas se as pessoas encontradas estão em uma situação de
pobreza – diz-nos ainda o Papa – é necessário ajudá-las, como faziam as
primeiras comunidades cristãs, praticando a solidariedade, para que se
sintam amadas de verdade. O
povo pobre das periferias urbanas ou do campo necessitam sentir a
proximidade da Igreja, seja no socorro de suas necessidades mais
urgentes, como também na defesa de seus direitos e na
promoção de uma sociedade fundamentada na justiça e na paz. Os pobres
são os destinatários
privilegiados do Evangelho e um Bispo, modelado segundo a imagem do Bom
Pastor, deve estar particularmente atento para oferecer o divino bálsamo
da fé, sem descuidar do ‘pão material’”.
570. Esperamos que
este despertar missionário, na forma de uma Missão Continental, cujas
linhas fundamentais foram
examinadas por nossa Conferência e que esperamos sejam portadoras de sua riqueza de
ensinamentos, orientações e prioridades, seja ainda mais concretamente
considerado durante a próxima
Assembléia Plenária do CELAM em Havana. Requerirá a decidida colaboração
das Conferências
Episcopais e de cada diocese em particular. Procurará colocar a Igreja
em estado permanente de missão.
Levemos nossos navios mar adentro, com o sopro potente do Espírito
Santo, sem medo das
tormentas, seguros que a Providência de Deus nos proporcionará grandes
surpresas.
571. Recobremos,
portanto, o “fervor espiritual”. Conservemos a doce e confortadora
alegria de evangelizar,
inclusive quando é necessário semear entre lágrimas. Façamo-lo, como
João, o Batista, como Pedro e Paulo,
como os demais Apóstolos, como essa multidão de admiráveis
evangelizadores que se sucederam ao
longo da história da Igreja, com um ímpeto interior que ninguém, nem
nada seja capaz de
extinguir. Seja esta a maior alegria de nossas vidas entregues. E que o
mundo atual – que procura ás vezes
com angústia, às vezes com esperança – possa assim receber a Boa Nova,
não através de
evangelizadores tristes e desalentados, impacientes e ansiosos, mas
através de ministros do Evangelho, cuja
vida irradia o fervor de quem recebeu a alegria de Cristo e aceitam
consagrar sua vida á tarefa de
anunciar o Reino de Deus e de implantar a Igreja no mundo”250.
Recuperemos o valor e a audácia
apostólicos.
572. Ajude-nos a
companhia sempre próxima, cheia de compreensão e ternura de Maria
Santíssima. Que nos mostre o
fruto bendito de seu ventre e nos ensine a responder como ela fez no
mistério da anunciação e
encarnação. Que nos ensine a sair de nós mesmos no caminho de
sacrifício, de amor e serviço, como fez na
visita a sua prima Isabel, para que, peregrinos no caminho, cantemos as maravilhas que Deus
tem feito em nós, conforme a sua promessa.
573. Guiados por
Maria, fixamos os olhos em Jesus Cristo, autor e consumador da fé e
dizemos a ele:
- “Fica conosco,
pois cai a tarde e o dia já se declina” (Lc. 24, 29).
- Fica conosco,
Senhor, acompanha-nos ainda que nem sempre tenhamos sabido
reconhecer-te.
- Fica conosco,
porque ao redor de nós as mais densas sombras vão se fazendo, e Tu és a
Luz; em nossos
corações se insinua a falta de esperança, e tu os faz arder com a
certeza da Páscoa. Estamos cansados do
caminho, mas tu nos confortas na fração do pão para anunciar a nossos
irmãos que na verdade tu
tens ressuscitado e que nos tem dado a missão de ser testemunhas de tua
ressurreição.
- Fica conosco,
Senhor, quando ao redor de nossa fé católica surgem as névoas da dúvida,
do cansaço ou da
dificuldade: tu, que és a própria Verdade como revelador do Pai, ilumina
nossas mentes com tua Palavra;
ajuda-nos a sentir a beleza de crer em ti.
- Fica em nossas
famílias, ilumina-as em suas dúvidas, sustenta-as em suas dificuldades,
consola-as em seus sofrimentos e no cansaço de cada dia, quando ao redor
delas se acumulam sombras que ameaçam sua
unidade e sua natureza. Tu que és a Vida, fica em nossos lares, para que
continuem sendo ninhos
onde nasça a vida humana abundante e generosamente, onde se acolha, se
ame, se respeite a
vida desde a sua concepção até seu término natural.
- Fica, Senhor,
com aqueles que em nossas sociedade são os mais vulneráveis; fica com os
pobres e humildes, com
os indígenas e afro-americanos, que nem sempre encontram espaços e apoio
para expressar a
riqueza de sua cultura e a sabedoria de sua identidade. Fica, Senhor,
com nossas crianças e com nossos jovens, que são a esperança e a riqueza
de nosso Continente, protege-os de tantas armadilhas que atentam contra
sua inocência e contra suas legítimas esperanças. Oh bom Pastor, fica
com nossos anciãos e com nossos enfermos! Fortalece a todos em sua fé
para que sejam teus discípulos e missionários!
P.S.: As notas
de rodapé estão enumeradas no corpo do texto, contudo restaram omitidas.
Preparado em
PDF por: Clóvis Jr. E-mail: clovisjrs@hotmail.com |