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- Com outros companheiros, Perpétua e Felicidade
sofreram o martírio em Cartago, atual Tunísia, no ano de
202. Um decreto do imperador Setímio Severo, que
atingia, sobretudo, os que se preparavam para o batismo,
levou à prisão vários catecúmenos do norte da África.
Entre eles se achavam a escrava Felicidade e sua nobre
senhora Vibia Perpétua. Felicidade estava no oitavo mês
de gravidez e Perpétua tinha um filho de colo. Todos
foram levados a Cartago, onde foram martirizados.
Possuímos uma peça literária de comovente beleza,
denominada Paixão de Santa Perpétua, que conta a
história dos últimos dias das jovens mártires, bem como
o martírio junto com os demais catecúmenos de um diácono
que batizou os catecúmenos na eminência do martírio.
Estas Atas do martírio constituem um dos documentos mais
realistas e emocionantes do cristianismo primitivo. Elas
englobam notas autobiográficas que Perpétua escreveu na
prisão. Comovente, sobretudo, o duelo entre o amor
filial e o paterno e as exigências da fé em Cristo,
quando o pai pagão fez de tudo para demovê-la do
martírio.
Os homens catecúmenos com o diácono Sáturo foram
atirados às feras e estraçalhados por elas até a morte.
Perpétua e Felicidade, que dera à luz uma menina na
prisão, foram atiradas à arena para serem atacadas por
uma vaca furiosa que as devia levar à morte. Perpétua,
lançada aos ares pela vaca brava, caiu de costas.
Levantou-se logo e, vendo Felicidade caída, aproximou-se
e deu-lhe a mão para erguê-la. Ficaram então de pé,
rezando, até o momento em que foram degoladas.
As Atas das mártires terminam com estas palavras: "os
que foram testemunhas destes fatos lembrar-se-ão da
glória do Senhor, e aqueles que deles tiverem
conhecimento por esta narrativa estarão em comunhão com
os Santos mártires e por intermédio deles com Jesus
Cristo, Nosso Senhor, para quem são a honra e a glória
pelos séculos".
O registro da paixão de Santa Perpétua e de Santa
Felicidade e seus companheiros constitui um dos maiores
tesouros hagiológicos que chegaram até nós. No século
IV, essas Atas eram lidas publicamente nas igrejas da
África.
As Santas Perpétua e Felicidade figuram no Cânon romano
(Oração eucarística I). O que indica a alta veneração de
que gozaram na Antiguidade.
Podemos realçar vários aspectos do testemunho dessas
mártires. A dignidade e a importância em que eram tidos
os catecúmenos na Igreja primitiva. Quem está a caminho
dos sacramentos da Iniciação cristã já é considerado
membro da Igreja. Diz a Introdução Geral do Ritual do
Batismo de Adultos: "desde então (isto é, desde o rito
de instituição) os catecúmenos, cercados pelo amor e a
proteção da Mãe Igreja como pertencendo aos seus e
unidos a ela, já fazem parte da família de Cristo; são
alimentados pela Igreja com a Palavra de Deus e
incentivados por atos litúrgicos. Tenham a peito,
portanto, participar da liturgia da Palavra e receber as
bênçãos e os sacramentais. Quando se casam, se o noivo e
a noiva forem catecúmenos, ou apenas um deles e a outra
parte não foi batizada, será usado o rito próprio. Se
falecerem durante o catecumenato, realizam-se exéquias
cristãs" (n. 18). Podemos dizer que eles já estão
justificados pela fé.
Um segundo ponto a realçar é o combate da paixão. O
martírio constitui um combate com Cristo contra os
inimigos da fé, contra todas as forças do mal. Quando se
fala da paixão dos mártires, ela compreende todos os
sofrimentos suportados por causa da fé em Cristo Jesus.
Ela inclui a própria morte. Os sofrimentos da paixão
constituem a confessio, a confissão da fé. Se
os catecúmenos ainda não forem batizados, eles são
batizados pela paixão, isto é, pelo batismo de sangue.
Uma terceira observação. O batismo de sangue, o martírio
não se apresenta como privilégio dos homens considerados
fortes no combate. No martírio, particularmente das
mulheres, manifesta-se a força do testemunho no poder do
Espírito Santo. Esta força vem expressa na Oração
coleta: ó Deus, pelo vosso amor, as mártires
Perpétua e Felicidade resistiram aos perseguidores e
superaram as torturas do martírio. Pelo amor a Deus, a
exemplo das mártires, possamos crescer constantemente na
caridade.
Referência:
Beckhãuser, Frei Alberto. Os Santos na Liturgia:
testemunhas de Cristo. Petrópolis: Vozes, 2013. 391 p.
Adaptações: Equipe Pocket Terço.
Santas Perpétua e Felicidade, rogai por nós!
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